A Semana na Imprensa - França: Padres "santificados" por famílias cometiam crimes de pedofilia de maneira sistemática

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A manchete de capa da revista francesa L'Obs é de dar arrepios nas pessoas que têm fé na Igreja Católica. Uma reportagem especial intitulada "A Grande Confissão" traz testemunhos de vítimas de pedofilia envolvendo padres e membros da Igreja francesa nos últimos 70 anos. Os depoimentos foram recolhidos pela Comissão Independente de Abuso Sexual na Igreja (Ciase), criada em novembro de 2018. O órgão já ouviu 6.500 histórias escabrosas. As vítimas que atenderam ao chamado da Ciase são, em sua maioria, homens – pouco mais de 62%. A metade deles tem, hoje, entre 50 e 69 anos idade; 30% já estão em idade avançada, com 70 anos ou mais. Um número menor de vítimas de padres ou freiras pedófilas têm entre 30 e 49 anos. Quase 34% dos abusos relatados ocorreram em escolas, 21% durante atividades de catecismo e 12% nos movimentos juvenis ou nos acampamentos de verão organizados por diversas instituições católicas. A maioria das vítimas afirma ter tido a vida destruída por esses abusos, que tiveram como consequências dificuldades no plano afetivo e sexual na vida adulta, isolamento social e tentativas de suicídio. O presidente da Comissão, Jean-Marc Sauvé, é um alto funcionário francês que foi vice-presidente do Conselho de Estado, órgão que zela pelo cumprimento da Constituição no país. Católico praticante, Sauvé quis ser jesuíta num período de sua vida. Ele conta à revista L'Obs que "os abusos cometidos por membros da Igreja francesa são massivos" e, às vezes, ocorrem de maneira "sistemática". Há inúmeros casos em que estupros e abusos se repetiram durante anos no seio da mesma família. Os pais, católicos fervorosos, idolatravam os padres da paróquia, que eram tratados como se fossem "santos" intocáveis, "representantes de Cristo na Terra". Essa "autoridade" inquestionável e absoluta facilitava as relações de dominação dos padres em relação às crianças da família. A presidente da Conferência dos Religiosos e Religiosas da França, Véronique Margron, reconhece a extensão dos crimes. "Se tivéssemos antecipado a magnitude do que a comissão está revelando, talvez alguns na Igreja tivessem pensado duas vezes antes de criar esta organização”, declarou Margron. Assistência psicológica para quem ouve os testemunhos Para garantir sua independência, a comissão é formada por 22 membros de diversas áreas: psiquiatras, pesquisadores, teólogos, advogados, médicos, historiadores, magistrados e cidadãos de todas as confissões religiosas ou ateus. Com um orçamento de € 3,5 milhões (cerca de R$ 6,58 milhões), seus membros se deslocam para recolher os testemunhos em todas as regiões do país. A federação France Victimes, que dá apoio aos trabalhos da Ciase, também recrutou uma equipe de quatro advogados e psicólogos que se revezaram 24 horas, durante um ano e meio, para ouvir todos os depoimentos feitos por telefone. Cerca de 1.600 vítimas aceitaram preencher um questionário muito detalhado, que foi analisado por uma equipe do Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa Médica (Inserm). Apenas 14% já haviam apresentado queixa nos tribunais. Esses testemunhos dolorosos têm exigido apoio psicológico para alguns dos ouvintes. O próprio presidente da comissão disse ter precisado de amparo. “Pela primeira vez na vida”, revela Jean-Marc Sauvé, “quis ter o acompanhamento de um terapeuta". "Você não consegue sair ileso depois de mergulhar durante dois anos em um oceano de dor. Em cada audiência, não é apenas a realidade crua e detalhada dos abusos sofridos que emerge, mas também as sequelas intermináveis ​​e duradouras." A Ciase continua seus trabalhos até o segundo semestre de 2021 e poderia, de acordo com algumas estimativas, identificar até 10.000 vítimas e 3.000 agressores de um total de cerca de 100.000 padres e religiosos que fizeram parte da Igreja na França desde os anos 1950.

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