A Semana na Imprensa - Guerra interna entre pesquisadores contribuiu para fracasso do Pasteur na busca da vacina anticovid

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A revista Paris Match desta semana traz um longa reportagem sobre os bastidores da busca por uma vacina contra a Covid-19 no Instituto Pasteur, centro de referência da França, que abandonou o projeto em janeiro, após quase um ano de estudos. A publicação revela que uma disputa interna entre dois pesquisadores da célebre instituição estaria por trás do fracasso da operação. Paris Match lembra que o Instituto Pasteur colocou um ponto final em seu principal projeto de vacina anticovid após ter obtido resultados “não satisfatórios”. Essa foi a história oficial, explica a reportagem, que investigou sobre uma outra versão, “sussurrada por trás das grades da instituição”. “O templo da pesquisa francesa trabalhava em um projeto de vacina desde o início da pandemia, mobilizando um quarto de seus funcionários”, relata a reportagem. O imunizante havia sido batizado V591 e o projeto era pilotado por Frédéric Tangy, diretor do laboratório de inovação vacinal do Instituto. O pesquisador, experiente e recompensado por seus resultados científicos, trabalhava a partir do princípio de “vacinas vetores virais”, usando como ponto de partida o imunizante existente contra o sarampo, seguindo uma pista que pesquisas que parecia promissora. No entanto, conta Paris Match, Tangy começou a encontrar obstáculos internos, principalmente após a entrada em jogo de Nicolas Escriou, um jovem engenheiro, apresentado pela revista como um “pesquisador rebelde”, especialista no estudo de vírus respiratórios. Segundo a reportagem, uma rivalidade se instalou entre os dois homens desde fevereiro de 2020, quando os estudos em busca da vacina anticovid ainda balbuciavam. De acordo com testemunhas ouvidas pela revista, ao integrar oficialmente o comitê de pilotagem do projeto V591, Escriou “se transformou em verdadeiro comandante das pesquisas em andamento”, contestando tudo o que fazia Tangy, retendo informações e até sugerindo que o colega deveria ceder. “As personalidades desses dois cérebros não foram feitas para trabalhar juntas”, resume Paris Match, que relata como dois times se formaram na busca do imunizante dentro de uma instituição, que deveria primar por objetivo comum. O problema, avança a revista, é que essa disputa provocou “sórdidas manobras internas que atrasaram a vacina”. A reportagem conta, por exemplo, o episódio de um pesquisador que chegou para trabalhar em seu laboratório e descobriu que todos os ratos usados nos testes preliminares haviam desaparecido. Diante da surpresa, ele é obrigado a encomendar novas cobaias e recomeçar os experimentos, perdendo um tempo precioso. Guerra civil em um jardim de infância “Ciúmes internos estúpidos, uma infinidade de manobras e uma série de erros e desencontros teriam acabado aniquilando o trabalho dos pesquisadores”, continua a revista. “Vista do exterior, mais parecia uma guerra civil em um jardim de infância, que assusta e irrita”, escreve Paris Match. Em abril de 2020, o Instituto Pasteur opta a vacina de Escriou, considerando que os resultados de seus testes eram mais promissores. O jovem pesquisador passa a pilotar o projeto, o que irrita o veterano e alimente a disputa. Mas a vacina, contestada até o final por Tangy, fracassa e, em janeiro deste ano, todos os testes são interrompidos. Resutado: hoje a França não tem nenhuma vacina produzida por suas instituições e o Pasteur ainda tenta digerir a guerra de egos que marcou a busca do imunizante em seus laboratórios.

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