A Semana na Imprensa - Tabu do alcoolismo feminino é tema de lançamentos literários na França

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A revista M do jornal francês Le Monde traz em sua edição desta semana uma reportagem sobre o alcoolismo entre as mulheres. O texto coincide com o lançamento nesse início de ano de três livros sobre um tema que ainda é tabu na sociedade. As livrarias francesas recebem este mês Jour zéro (Dia zero), de Stéphanie Braquehais, e Sans alcool (Sem álcool), de Claire Touzard, seguidos, em fevereiro, de Récits de la soif (Relatos da sede), da americana Leslie Jamison. As três publicações são apresentadas como uma forma de coming out de autoras que decidiram imortalizar suas próprias lutas contra o alcoolismo. O tema não é novo, e desde de que Renée Vivien ou Marguerite Duras escreveram sobre o assunto ainda no século XX, muitos livros abordaram a questão. Mas os lançamentos desde ano estão bem distantes dos clichês sobre mulheres alcoólatras, que tradicionalmente aparecem como a dona de casa solitária escondendo suas garrafas de bebida, enquanto espera o marido voltar do trabalho, ou as “bêbadas” que se agarram nos balcões dos bares da vida. Os livros trazem perfis de personagens bem-vistas socialmente, que têm ou tinham uma carreira profissional, como Claire Touzard, autora de Sans alcool. “Durante anos, ninguém desconfiava que essa jornalista sorridente e talentosa não era apenas cool e animada”, conta a reportagem, que explica, nas entrelinhas, como o consumo de bebidas alcoólicas faz parte da vida de muitos profissionais, em que beber é algo comum e aceito em suas atividades. Bebida como sinal de empoderamento Mesmo se os livros apontam todos os aspectos negativos do alcoolismo, com os momentos de desespero das autoras, “muitas mulheres associam a bebida alcoólica à emancipação”, diz a reportagem, lembrando que as escritoras dessa nova geração falam do tema como um ato de empoderamento. “A bebida era como uma irreverência, uma revolta contra o status de mulher correta que me obrigavam a manter”, explica Claire Touzard em seu livro. “Como se beber uma taça de chardonnay ou um bom copo de bordeaux fosse um gesto de contestação de sua feminidade”, completa a revista. Segundo a reportagem, se na década de 1950 as mulheres bebiam em silêncio, como uma resposta ao patriarcado, hoje muitas delas querem fazer barulho e serem iguais aos homens. A revista também ressalta que muitas vezes a dependência ao álcool é acompanhada de distúrbios alimentares, como a anorexia, um tema que é levantado em Jour zéro e Sans álcool. Claire Touzard explica que ambos os problemas estão ligados à relação difícil que tem com seu gênero e diz que “esse nojo de si e do seu corpo” está por trás da vontade de “matar a feminidade tal como ela nos é imposta”. O mesmo argumento é lançado por Stéphanie Braquehais, que afirma que “bebia para se esquecer” e que esse mecanismo era o mesmo que a levava a querer perder peso. No entanto, essa vontade de expor sua relação difícil com o álcool ainda é minoritária, explica Carole Gazon, uma das fundadoras de um grupo de apoio a mulheres alcoólatras. Para ela, o alcoolismo feminino ainda é muito mais marginalizado que o masculino. “Quando os homens esquecem o que fizeram na véspera por causa da bebida, a culpa é sempre dos outros. Quando uma mulher vive a mesma situação, sempre acham que é culpa dela”, resume a escritora Stéphanie Braquehais nas páginas da revista M.

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