Artes - A arte como gesto de resistência em Clara Saracho de Almeida

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Clara Saracho de Almeida vai participar na exposição colectiva "Comme un parfum d’aventure" no Museu de Arte contemporânea de Lyon de 7 de Outubro a 3 de Janeiro. A mostra parte do confinamento imposto pela pandemia de covid-19 para explorar o universo das viagens – voluntárias, impostas ou proibidas. A artista portuguesa vai levar meia tonelada de argila para o museu para criar uma escultura monumental que evoca força e resistência, mas também a (im)permanência das coisas e, até, “uma bússola sem direcções”. Clara Saracho de Almeida, de 29 anos, estudou na École des Beaux-Arts de Paris, depois de ter estudado também na Escola de Belas Artes do Porto. Expôs em Paris, numa galeria e no salão de arte contemporânea de jovens artistas de Montrouge, e foi à Bielorrússia levar uma obra de intervenção: uma fotografia a preto e branco com uma faixa tirada de uma imagem do 25 de Abril em que se lê “Liberdade” e na qual estava retratada uma planta de um pé gigante também com a palavra liberdade em bielorrusso. Agora, teve carta branca para criar uma obra para a exposição colectiva "Comme un parfum d’aventure" no Museu de Arte Contemporânea de Lyon. A artista decidiu levar meia tonelada de argila para o museu, num gesto performativo de força e para representar “uma bússola sem direcções”. “É uma grande escultura inspirada pela rosa dos ventos de Sagres que é do século XVI, descoberta no século XX, restaurada durante a ditadura de Salazar. Tem aqueles 50 metros de diâmetro, aquelas pedras, há quem diga que é um relógio solar ou uma bússola e há um pequeno poema de Miguel Torga que fala desse rochedo de Sagres e que fala de um sítio que já não sabe se existe. É como se fosse um espectáculo, algo que está aqui mas que já não faz sentido. Então, eu quis representar essa tal bússola sem direcções.” “Vou trabalhar com argila que vai estar fresca, a obra está viva (...) e vou pôr meia tonelada de argila na exposição e vou estendê-la como um disco de quatro metros de diâmetro. Vou fazer um desenho geométrico nesse disco. Vou fazer os meus próprios compassos de desenho e é um retorno ao desenho, um retorno à manualidade, um retorno à geometria e à Renascença. E é algo um bocado primário também.” O primário alude às mãos, ao esforço, aos pés e à marcha, à força física que reveste uma importância primordial no trabalho de Clara Saracho de Almeida. Um manifesto de resistência que se vê, por exemplo, no seu atelier, com botas engessadas, esculturas de pés e a fotografia que levou à Bielorrússia em 2017 para uma exposição a pedido de activistas e que ecoa com os protestos anti-Loukachenko que sacodem o país desde a reeleição do presidente bielorrusso. Quando questionada sobre o que fala o seu trabalho, responde que tem a ver com “a resistência, a luta, algo de corajoso, de trabalho e de esforço, algo físico e corporal”. “Isto de ir ao museu e fazer uma obra com meia tonelada é um acto bastante performativo e físico. As obras podem revelar isso mas são bastante simples e gosto dessa simplicidade nas obras”, descreve. Resistir é também uma forma de estar na vida e na arte porque “é muito difícil ser artista, mesmo sem covid” e sem a pandemia que paralisou museus e galerias durante meses. “Significa muito trabalho, muito esforço. Talvez essa ideia de resistência exista no meu trabalho porque é preciso fazer outros trabalhos para sobreviver. Unimo-nos muito entre artistas para ter um atelier, para ter ajudas”, conta. Nesse sentido, Clara integra uma associação de artistas (Openbat) que lutou para convencer a autarquia de Paris para ter um espaço cultural onde pudessem criar, expor e fazer diferentes eventos culturais. Hoje, o colectivo pode trabalhar no espaço “Dragono”, dentro de Paris, algo que seria impossível de outra forma devido aos valores avultados das rendas na capital francesa. “Também é um ponto político estarmos aqui. Há muito poucos espaços de jovens artistas em Paris.”

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