Artes - A “língua desportuguesa” de Ondjaki tem nova tradução em francês

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A tradução francesa de “Avódezanove e o segredo do soviético”, do escritor angolano Ondjaki, vai ser lançada esta quinta-feira, em França, pela editora Métailié. Um romance autobiográfico, publicado em 2008, que conta “sensações e afectos” numa Luanda que faz parte do imaginário de Ondjaki. Pode a “língua desportuguesa” de Ondjaki ter uma versão “desfrancesa”? Uma conversa sobre tradução, literatura, resistência, inspiração e olhares. A tradução de “Avódezanove e o segredo do soviético” vai ser lançada, a 21 de Janeiro, em França pela Métailié, a editora que já publicou, em 2015, a tradução de “Os Transparentes” que venceu, no ano seguinte, o “Prix Littérature-Monde Etranger”. Uma oportunidade para falarmos com Ondjaki sobre “sensações e afectos” em “língua desportuguesa” - expressão criada pelo próprio e que serve para nos questionarmos se é possível criar uma língua "desfrancesa" a partir do imaginário angolano. RFI: “Pode recordar-nos a história de “Avódezanove e o segredo do soviético”?” Ondjaki: “É um romance autobiográfico, mas é como se não fosse. Fala de crianças num determinado bairro de Luanda onde há um mausoléu enorme dedicada ao Presidente que, na história já terá falecido, e as crianças têm um plano para salvar o bairro porque se diz que, a qualquer momento, por causa do mausoléu, se pode ou se hão-de derrubar as casas do bairro. O livro, é claro, que é um livro sobre sensações e afectos com esse pano de fundo histórico e cultural, com a presença dos soviéticos e dos cubanos em Luanda nos anos 80.” RFI: “Traduzir um livro em que há expressões oriundas da oralidade e palavras inventadas ou reescritas que não estão no dicionário, não deve ser fácil. Até porque inclui conceitos inexistentes na língua francesa e toda uma urbanidade própria a Luanda. Está satisfeito com o resultado e como acompanhou o processo?” Ondjaki: “Eu acompanhei no sentido em que, nas vezes em que fui solicitado, auxiliei na tradução dentro da medida do possível, mas é uma explicação. Claro que é uma explicação de autor - poderá ser uma explicação mais valiosa – mas as decisões finais cabem ao tradutor e ao editor. Eu acho que sim. Eu não tenho o domínio da língua francesa para poder avaliar a tradução, mas do que ouvi falar parece que sim. Vamos ver agora qual é a reacção do público em geral.” RFI: “Qual é a importância de ter mais um livro traduzido na língua francesa?” Ondjaki: “Para mim, na realidade, qualquer livro de um autor africano que apareça em França ou em língua francesa, é mais uma porta que se abre. Cada livro normalmente leva a que o leitor depois procure livros ou dessa cultura ou dessa língua. É nesse sentido que eu acho que cada tradução actua para si, mas actua também para os outros.” RFI: “Em que é que está a trabalhar neste momento?” Ondjaki: “Neste momento, curiosamente estou a trabalhar num livro que se passa no sul de França, mas é tudo o que lhe posso dizer...” RFI: “No sul de França... Temos uma história da emigração?” Ondjaki: “Quase todas as histórias, nos últimos dois anos, são sobre migrações, as pessoas é que ainda não se deram conta disso.” RFI: “Apesar de agora estar a escrever um livro sobre o sul de França, Luanda continua a ser o ponto fulcral do seu imaginário. Em 'Quantas Madrugadas Tem a Noite' escreve: ‘Estórias de Luanda - minha Luanda do mô coração, môs sangues aqui derramados. Ndokueto só na conversa, as palavras são as que nós quisermos, significado delas tá no nosso coração’. É isso que dita a sua inspiração e aquilo que escreve?” Ondjaki: “Eu creio que também, sim. Ultimamente, o que tem ditado muito a direcção para onde vou quando quero escrever são os olhares: os olhares das crianças, os olhares de quem muitas vezes não tem voz e que por não ter voz usa o olhar como modo de dizer e de falar. Sinceramente, o que tenho estado a fazer ultimamente é estar atento aos olhares, seja um olhar de um transeunte, seja o olhar de um náufrago a chegar à Europa e a saber que tem ou que não tem lugar, seja o olhar de um familiar. É importante olharmos os de longe com tanta atenção quanto olhamos os de perto.” RFI: “Em relação a esse olhar do náufrago a chegar à Europa e em relação ao livro que está agora a escrever, parece haver aqui uma ponte com o sul de França...” Ondjaki: “O mundo é feito de pontes. O mundo é feito de pequenas pontes. Há uma coisa bonita que lhe queria dizer em relação à tradução – e que disse, há uns anos, quando um livro meu ganhou um prémio pela tradução [em França]. Eu dizia justamente isso, que os tradutores são grandes artífices não só da palavra, mas eles são arquitectos e engenheiros de pontes culturais com a tradução. Portanto, quando sai uma tradução é isso que eu celebro. Eu celebro o facto de que uma coisa, alguns conteúdos e sensações, saíram de uma língua e chegaram à outra. Essa é a primeira celebração. A segunda é se a tradução é bem feita. Se a tradução for bem feita então temos algo, digamos assim, perfeito a chegar a outro país.” RFI: “Quando é que o próximo livro vai chegar aos leitores?” Ondjaki: “Os meus livros, entre fazê-los e publicá-los, costumam levar entre quatro a dez anos, portanto, eu vou-lhe dizer que é um mínimo de quatro e um máximo de dez.” RFI: “Falámos na tradução de uma língua para a outra, mas também podemos falar da tradução da oralidade para a escrita. A passagem da oralidade para a escrita é uma marca sua e já falou muitas vezes da língua “desportuguesa” e da necessidade de desconstruir a língua. Por vezes, temos a impressão que se pode perder algo nessa transmissão e tradução do ouvido para o lido. Mas também se pode ganhar. É possível cravar na pedra coisas que ficaram no ar?” Ondjaki: “Sim. Eu acho que é uma espécie de tradução. Trazer do oral para o escrito ou trazer do quotidiano para uma linguagem literária pode ser uma espécie de traduzir algo de um formato para outro, embora sejam formatos parecidos. Eu creio que, como em tudo, às vezes somos felizes e às vezes não somos tão felizes. Nos dois casos nascem coisas novas e isso é bom. Que uma coisa dê lugar a outra coisa é uma das coisas que eu espero, também, da língua.” RFI: “Quer recordar-nos o que é ‘a língua desportuguesa’?” Ondjaki: “Não tenho um conceito para isso. É muito mais uma sensação e uma brincadeira. É uma declaração minha, fui eu que escrevi isso na contracapa de um livro, mas é muito mais uma sensação, é uma atitude para com a língua. A língua desportuguesa é a língua que trabalha sobretudo com liberdades estéticas e que não está presa à Academia ou ao dicionário.” RFI: “O livro ‘Avódezanove e o segredo do soviético’ também foi adaptado em filme pelo realizador moçambicano João Ribeiro. Viu o filme e como considera esta ‘re-autoria’ e também ‘tradução’ da sua obra?” Ondjaki: “Eu vi o filme e, justamente, considero que é uma abordagem – embora o filme fique muito perto da narrativa estrutural do livro – eu penso que é um filme de João Ribeiro, é um filme da equipa do João Ribeiro. Fiquei satisfeito, sobretudo, com esta coisa linda e simbólica que é um autor moçambicano filmar a partir de um livro angolano e o que eu mais quero é que um dia destes um autor angolano ou cabo-verdiano ou outro filme também um livro moçambicano. Isso, para mim, é que ficou como a grande experiência. E gostei de ver as crianças, gostei de ver os actores que inventam coisas que eu só tinha imaginado pela minha escrita.” RFI: “Regressou a Luanda há quatro anos e em 2020, primeiro ano da pandemia, conseguiu inaugurar a editora Kacimbo e a livraria Kiela... Afinal, pandemia não rimou com pandemia na cultura para si...” Ondjaki: “Sim, a cultura também rimou com pandemia, só que também rima com resistência na cultura, com acreditar em novos formatos, em novas maneiras de fazer as coisas. Nós abrimos a livraria e a editora em plena pandemia, em Agosto, portanto, tivemos que reinventar formatos online, encontros, muito cuidado a trazer as pessoas, conseguimos trazer pessoas, conseguimos fazer algumas apresentações. Eu creio que a palavra de 2020 é readaptação e quem foi feliz e conseguiu readaptar-se – seja profissionalmente, seja pessoalmente – deve considerar-se uma pessoa feliz.” RFI: “A sua literatura é como um palimpsesto. Tem vários níveis de interpretação e sente-se sempre a palpitar uma crítica social e política. Tem acompanhado o movimento de contestação social em Angola nos últimos tempos?” Ondjaki: “Sim, tenho acompanhado, tenho estado aqui, tenho sentido – muitas vezes sente-se aqui a onda e a pré-onda de contestação, depois a contestação, as manifestações. Creio que apesar de tudo, por parte do governo tem havido alguma aprendizagem e isso é importante. Tem aprendido porque tem procurado aprender a escutar melhor as novas dinâmicas, os novos comportamentos sociais que se passam em Angola. A constituição da população, a idade, o comportamento alteraram-se muito nos últimos cinco, dez anos e creio que o governo agora apercebeu-se disso finalmente. Por outro lado, do lado de quem se manifesta, creio que tem havido – e não digo só as manifestações públicas que vocês vêem na televisão, há outros tipos de manifestação que se passam por aqui, há ondas de contestação que passam apenas por mensagem ou pelo Whatsapp – e creio que tem havido um papel também de responsabilizar quem busca coisas para buscar coisas mais justas e mais bem explicadas. Isso tem feito uma pressão social que o governo não tem ignorado e nem pode ignorar e quanto mais se aproximam as próximas eleições, menos ainda o governo ignorará.”

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