Brasil-África - Pesquisadora paulista ajuda a recuperar biblioteca da mais antiga universidade sul-africana atingida por incêndio

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Por France Médias Monde and RFI Brasil descoberto pelo Player FM e nossa comunidade - Os direitos autorais são de propriedade do editor, não do Player FM, e o áudio é transmitido diretamente de seus servidores. Toque no botão Assinar para acompanhar as atualizações no Player FM, ou copie a feed URL em outros aplicativos de podcast.
Uma tragédia que acabou unindo pessoas diferentes com um mesmo propósito. Foi como a paulista Gabriela Eugenio conseguiu ver, buscando um tom de positividade, a consequência do último incêndio florestal que, em abril, devastou parte da vegetação nativa da imponente Table Mountain, emblemático cartão postal da Cidade do Cabo, onde ela mora desde que se mudou para a África do Sul, há quase um ano e meio. Por Vinícius Assis, correspondente da RFI na África do Sul “O incêndio foi uma tragédia e até hoje é triste que a gente precise dessas tragédias para perceber o quanto nós temos o poder de fazer o bem quando estamos unidos, quando todos nós queremos atingir uma meta comum. Se todo mundo se unir, apesar das diferenças, a gente consegue um resultado incrível”, disse. No dia do incêndio parte da cidade foi tomada por uma gigantesca cortina de fumaça. O fogo destruiu imóveis construídos perto da montanha, forçando milhares de estudantes e moradores a evacuarem a área. O incêndio não chegou até a casa da brasileira, que vive em um bairro universitário próximo. Só que as chamas alcançaram prédios da Universidade da Cidade do Cabo, a mais antiga da África do Sul. É onde Gabriela, que é formada em Economia, atualmente faz mestrado em Desenvolvimento Social. Um dos locais mais atingidos pelo incêndio foi a biblioteca Jagger, onde estavam mais de 1.300 coleções e 85.000 livros sobre a história da África, entre obras inéditas, manuscritos, mapas, teses de doutorado, estudos sobre o regime de segregação racial do apartheid, sem falar em pinturas do século XIX. Não há cópias de boa parte deste material. Ainda não se sabe ao certo o tamanho do estrago, mas o que se viu nas últimas semanas - e também chamou atenção - foi a união de voluntários dispostos a dar continuidade ao incansável esforço de se manter documentada a história da África. “É aquela sensação de você perder uma parte do seu passado, apesar de não ser diretamente o seu passado”, declarou a paulista. O estudo que Gabriela desenvolve faz parte do centro de Humanas, onde a biblioteca ficou intacta. Mas Gabriela usava salas de estudos e computadores disponíveis na biblioteca destruída. Mesmo atualmente trabalhando bastante de casa, ela arregaçou as mangas e se juntou ao grupo de voluntários que se revezam desde o mês passado no campus da universidade para recuperar o que foi possível salvar. “ É triste pensar que alguns itens não serão recuperados. Por isso eu quis ajudar a recuperar o que ainda tinha chances para ver o lado positivo. Exatamente para superar essa tristeza, esse sentimento de perda, que surgiu a vontade de ir lá colaborar e dispor o meu tempo para recuperar o que tinha sobrevivido à tragédia”, justificou. Fogo e água destruíram materiais Ela conta que há diferentes frentes de trabalho na recuperação da biblioteca. O que não foi afetado pelo fogo pode ter sido afetado pela água utilizada para conter as chamas. Alguns materiais acabaram sendo afetados pela umidade. Cada ajuda foi e tem sido de extrema importância. “Meu grupo ficou responsável por passar por todas as caixas, os materiais que foram recuperados, e verificar se tinha mofo nesses materiais. Então, essas caixas que eram identificadas com mofo passavam para a equipe de limpeza fazer o tratamento e poder arquivar o material corretamente para depois ser realocado”, detalhou. De acordo com a a vice-reitora Mamokgethi Phakeng, graças ao revezamento de voluntários – cerca de 150 por dia – em quase duas semanas foi possível recuperar aproximadamente metade dos arquivos da biblioteca. O ministro de Educação Superior da África do Sul, Blade Nzimande, visitou recentemente o campus da Universidade da Cidade do Cabo atingido pelo incêndio no mês passado e disse que a maior parte dos prédios danificados deverá ser reparada até o fim de julho. Estudo comparativo sobre segregacionismo Gabriela está fazendo um estudo comparativo entre África do Sul, Brasil e Estados Unidos, três países que passaram por longos períodos segracionistas. A base da pesquisa da brasileira são conceitos apresentados pelo doutor Silvio Almeida, advogado, filósifo e professor, e a filósofa e escritora Djamila Ribeiro, ambos com livros publicados sobre o tema. “(Os dois) trouxeram essa ideia de que o racismo nessas sociedades, na verdade, é estrutural”, comentou. A ideia dela não é falar apenas sobre o Brasil. É mostrar que o racismo na África do Sul e nos Estados Unidos também é estrutural, exatamente, por que ele já faz parte das instituições. “Ele não depende de ações individuais, de grupos racistas. Já está permeado em todo o sistema político e econômico das três sociedades. Por isso que a gente vê tantas desigualdades sociais nesses três países”, explicou. A brasileira é otimista em relação a uma mudança deste cenário no futuro. “Atualmente há muita política de ação afirmativa, que é uma tentativa de fazer uma reparação histórica para esses grupos que sofreram desvantagens ao longo do tempo”, disse, exaltando o sistema de cotas raciais brasileiro em universidades e cargos públicos como um exemplo. “Com o tempo espero que a gente consiga ver uma maior inclusão social da população negra e africana também”, concluiu a mestranda.

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