Brasil-Mundo - Brasileira radicada na Alemanha cria museu virtual sobre a migração

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Em plena pandemia, a gestora cultural Suely Torres, radicada há mais de 30 anos em Berlim, criou o Museu Alemão da Migração. Digital e gratuito, o projeto quer provocar uma reflexão sobre o que é ser migrante. Por Cristiane Ramalho, correspondente da Rfi em Berlim O Museu Alemão da Migração, ou Deutsches Migrationsmuseum (DMM), é um espaço virtual criado para mostrar quem são e o que pensam os migrantes. Seu acervo é formado por depoimentos gravados em vídeo, nos quais eles revelam suas diferentes trajetórias – sem intermediários. A brasileira Suely Torres, que criou e faz a curadoria do museu, conta que pretende expandir cada vez mais esse acervo digital. O objetivo é desconstruir visões estereotipadas dos estrangeiros – e não só na Alemanha, já que a plataforma é aberta. "Qualquer pessoa, de qualquer lugar do mundo, pode acessar e conhecer essas narrativas, e refletir sobre quem são essas pessoas", diz Suely. Não por acaso, os vídeos são legendados em inglês e alemão. No museu digital, expressões como ‘assimilação’ ou ‘integração’ – usadas com freqüência por políticos alemães ao falar sobre a questão da migração –, não têm lugar. A proposta ali é dar voz aos próprios migrantes. A plataforma traz, por exemplo, um depoimento do ator Welket Bungué, protagonista do filme Berlin Alexanderplatz, exibido na mostra competitiva da Berlinale, o Festival Internacional de Cinema de Berlim, em 2020. Nascido na Guiné-Bissau, Welket foi ainda criança para Portugal, já morou no Brasil e hoje vive na capital alemã. Ele conta que não quis se integrar à cultura do país: preferiu olhar a Alemanha como “mais um território que faz parte deste planeta, deste mundo globalizado”. Já a ativista brasileira Sandra Bello vai direto ao ponto em seu depoimento: “Como mulher negra, parece que eu migrei duas vezes. Porque nós, negros, no nosso próprio território de origem, nós somos estrangeiros lá. Não temos uma cidadania plena, não somos reconhecidos como pertencentes àquele Estado”. Para Sandra, a Alemanha é “o nascedouro do patriarcado e do racismo”: “Com a sua ‘pseudossupremacia ariana, eles construíram essa narrativa, que hoje é hegemônica entre os povos. Tudo o que não é branco, ariano, é feio”, diz. Pandemia ajuda – e atrapalha Sonho de uma década, o DMM foi lançado no final de dezembro, em meio à pandemia de coronavírus. Mas o saldo foi positivo: “Lançamos já na alta da pandemia e a repercussão foi boa. As pessoas estão muito mais na internet – não resta outra possibilidade nesse confinamento”. Se trouxe mais cliques, a crise sanitária também dificultou o processo de trabalho, que segue um rigoroso protocolo de higiene. “O ritmo de produção diminuiu”, admite a brasileira. Antes das entrevistas, todos têm que fazer um teste de covid-19 – inclusive o entrevistado: “É mais custoso e mais preocupante, mas tomamos todos os cuidados”. O projeto conta com quatro colaboradoras, todas brasileiras, que ajudam na produção dos vídeos. A curadoria é da própria Suely, que para criar o museu, pesquisou projetos semelhantes em diversos países e chegou a fazer uma residência no Museu da Pessoa, também virtual, em São Paulo. A visão de um refugiado sírio Os planos são ambiciosos. Com uma perspectiva “decolonial e mais humana”, a brasileira deseja transformar a plataforma num espaço de debate sobre migração. “Queremos fazer exposições e trabalhar a pedagogia do museu nas escolas, para sensibilizar crianças, jovens e suas famílias, além de professores, e assim levar essa reflexão à sociedade”, explica. Um tema mais do que atual, num país que, em plena crise dos refugiados, adotou uma política de boas-vindas aos requerentes de asilo que atraiu uma grande onda migratória. Entre os que chegaram, está o refugiado sírio Ibrahim Al-Hussein, personagem do documentário ‘Aeroporto Central’, de Karim Aïnouz. Ao relatar sua trajetória ao museu, Ibrahim diz que aprendeu na Alemanha “que todos podem viver juntos, especialmente em Berlim”, onde há tantas pessoas de “diferentes culturas, países e línguas”. Suely, que viu de perto as transformações no país nas últimas décadas, acha que está mais do que na hora de os alemães começarem a expandir suas "fronteiras pessoais", que dificultam o encontro com quem vem de fora. “Para haver um diálogo, é necessário reconhecer o lugar de si próprio e do outro. Como diz o (filósofo) Vilém Flusser, cada migrante é uma janela para outro universo.” Estrangeiros em seu próprio país Formada em Letras no Brasil, a recifense emigrou para a Alemanha em 1988, para fazer um mestrado em Literatura. Suely conhece a capital alemã como poucos – há anos, explora e fotografa a cidade com seu refinado olhar. Nas últimas décadas, ela acumulou uma bagagem única ao trabalhar em projetos culturais que a levaram a ter contato com figuras de peso, como Fernanda Montenegro, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Suely ainda achou tempo para fazer uma graduação em Antropologia Social e Cultural, em fase de conclusão. Na noite da queda do Muro, em 9 de novembro de 1989, ela estava em Berlim. Sem pensar duas vezes, passou a mão na bicicleta e correu para as ruas para ver o momento histórico de perto. “Jamais vou me esquecer das pessoas quebrando o Muro, se abraçando sem se conhecer, uma loucura”, conta. Foram semanas de êxtase: “Muitos alemães que passaram para o lado ocidental não acreditavam que aquilo pudesse ser real. Eles levaram suas coisas mais preciosas”. Alguns sofreram preconceito após atravessar a fronteira, lembra Suely: “São histórias riquíssimas. Elas falavam a mesma língua, mas viviam em dois territórios, dois países. Por isso ainda quero entrevistar essas pessoas”.

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