Brasil-Mundo - Casa do Brasil de Lisboa vai oferecer apoio psicológico a pessoas migrantes

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Para dar uma resposta aos migrantes que necessitam de apoio psicológico, independentemente se estão ou não em situação legal no país, a Casa do Brasil de Lisboa decidiu criar um projeto de saúde mental. Fábia Belém, correspondente da RFI em Lisboa Os atendimentos estão previstos para começar em setembro, e vão acontecer na própria Casa do Brasil de Lisboa, uma associação sem fins lucrativos que trabalha para promover a integração dos estrangeiros que chegam ao país. Segundo a técnica de Projeto de Intervenção Social da instituição, Janine Martins, a iniciativa será direcionada a pessoas migrantes de qualquer nacionalidade, desde que falem português, idioma que será usado nos atendimentos. “As linhas principais desse projeto é ter esse atendimento clínico, e os atendimentos serem feitos com valores sociais. Então, com valores mais baixos pra que essa pessoa consiga pagar e ter o atendimento”, explica. Se a Casa do Brasil de Lisboa conseguir financiamento para o projeto, os migrantes não vão precisar pagar pelas consultas, que ainda não têm valor definido. Por enquanto, não há informação sobre quantos profissionais vão estar envolvidos na iniciativa, mas tudo indica que o projeto também vai dar oportunidade de trabalho a psicólogos estrangeiros, inclusive brasileiros. Parte da população migrante está facilmente exposta a situações que podem colocar a saúde mental em risco, como a separação do contexto familiar, a dificuldade de integração no novo país, além de outros fatores de natureza socioeconômica. A técnica de Projeto de Intervenção Social da Casa afirma que não é possível esperar que uma pessoa esteja mentalmente bem se ela não tem trabalho nem casa onde morar. Sobre a rede de apoio, Janine Martins destaca: “Se a gente pensar numa comunidade migrante, como é que ela vai ter rede de suporte se essa pessoa acabou de chegar ao país? Esses fatores todos afetam a saúde mental da pessoa”, alerta. A terapia que faz falta Natural da cidade mineira de Caratinga, Rosângela Pereira de Jesus vivia na cidade de São Paulo, onde trabalhava como técnica de enfermagem. Há dois anos, ela mudou-se sozinha para Portugal. Quando chegou, encontrou ocupado o quarto que havia reservado num apartamento. No mesmo prédio, conseguiu alugar uma cama para dormir, e precisou dividir o quarto com mais duas pessoas desconhecidas. Com o tempo, a brasileira, que é mãe de três filhos, tem conseguido organizar a vida e trazer a família aos poucos, mas não esquece o impacto dos problemas que teve na saúde mental. “Era frustrante tudo, e sem apoio das pessoas”, desabafa Rosângela. “Se um dia as pessoas tiverem oportunidade de ter um terapeuta pra conversar, é muito bom. Isso faz muita falta pra gente”, garante. Saúde mental na pandemia Com a pandemia, a necessidade de apoio psicológico ficou ainda mais exigente de resposta. A Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa divulgou, em maio, o relatório de um estudo sobre as percepções das pessoas migrantes acerca do impacto da pandemia de Covid-19 nas condições de vida. O estudo foi realizado entre agosto e dezembro do ano passado com 1091 migrantes (21,8% brasileiros), na Área Metropolitana de Lisboa, que residiam em Portugal há menos de 10 anos. Do total de entrevistados, mais da metade (53,6%) revelou sentir agitação, ansiedade e tristeza alguns dias, enquanto 26,4% afirmaram ter esses sentimentos quase todos os dias desde o começo da crise sanitária. Dificuldades de acesso aos serviços de saúde O Conselho Nacional de Saúde português destacou, no último relatório sobre saúde mental, divulgado em 2019, que “apenas uma pequena parte dos cidadãos com problemas de saúde mental tinha acesso a cuidados”, e chamou a atenção para a falta de profissionais. No contexto da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), Portugal é um dos países com uma das mais baixas proporções de psiquiatras - 13 por 100 mil habitantes, enquanto a média é de 18 por 100 mil habitantes. A falta de médicos especialistas tem tido um impacto importante na prestação dos serviços. O relatório revela, por exemplo, que há hospitais públicos que demoram cerca de três meses para a realização da primeira consulta de psiquiatria considerada “muito prioritária”. Neste caso, o tempo de resposta está acima do limite, que é de 30 dias. Na opinião da técnica de Projeto de Intervenção Social da Casa do Brasil de Lisboa, Janine Martins, o projeto de saúde mental “não vai resolver o problema” de dificuldade de acesso aos cuidados especializados, “mas ele vai ser mais um ponto de apoio, vai ser mais uma entidade independente tentando dar uma resposta para uma população específica”. Portugal tem cerca de 10 milhões de habitantes. Deste total, 662.095 são estrangeiros com autorização de residência, sendo que a maioria deles (27,8%) é formada por brasileiros.

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