Brasileira na Suécia acolhe família ucraniana e relata aprendizados da experiência

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Os caminhos da escritora brasileira Ilana Eleá e da jornalista ucraniana Olena Galaguza se uniram há cerca de dois meses. Baseada na Suécia há 11 anos com a família - e com filhos nascidos no país nórdico - Ilana sofria ao ler notícias da guerra, que começara havia pouco, e se perguntava como ajudar ativamente o povo ucraniano. Até que um dia seu marido, Johan, viu um anúncio que mudaria o destino de sua família. Por Paloma Varón, para a RFI "No início da guerra, eu fiquei mal, lia obsessivamente as notícias desta guerra absurda que acontece aqui 'do lado e cheguei a chorar por semanas. A gente tem uma casinha idílica no jardim que costumava alugar. Assim que o estudante que a ocupava deixou a casa, meu marido leu no LinkedIn que uma empresa tinha acabado de contratar uma jornalista ucraniana e que ela precisava de um lugar para morar, para ela, sua mãe e sua filha, de seis anos. Foi aí que a gente pensou: 'Aqui a gente pode ajudar'", conta Ilana, que também tem uma filha de seis anos, além de um menino de dez. Ilana relata o inesquecível primeiro contato com a família que acolheu: "Eu nuca vou esquecer quando a van, com placa da Polônia, aqui chega, com refugiadas da guerra, e na hora em que a porta abre, Lina, maravilhosa nos seus seis anos, com um bichinho de pelúcia na mão, começa a correr com um sorriso incrível, começa a querer explorar já aqui na rua, os montes verdes, e me diz: 'Hello'. Quando eu olho, muito emocionada; eu vejo que cada uma vem com apenas uma bagagem de mão, mas com uma dignidade e um sorriso que eu nunca vou esquecer." Olena sabe que tirou a sorte grande: "Nós somos muitos sortudas de tê-los como anfitriões e de sentir a ajuda sincera deles. Ilana sempre pergunta como ela pode ajudar com esta guerra em meu país. Ela faz questão de estar ali, de fazer amizade com a gente, e é tão maravilhoso que a minha filha que não fala sueco nem inglês possa se comunicar com a filha de Ilana, elas são amigas, parecem irmãs". Assim como a maioria dos refugiados de guerra, o caminho de Olena e sua família foi longo e tortuoso até chegar a Estocolmo, em 29 de março. Elas deixaram a cidade de Zhytomyr e passaram por várias localidades na Ucrânia até chegar na Polônia, primeiro país que as acolheu. Mas ela tinha um objetivo: voltar a ter um trabalho, uma rotina. "Eu vim para a Suécia por uma única razão: eu achei um trabalho aqui. Quando eu estava na Polônia, eu mandei meu currículo para diferentes empresas e a primeira que concordou em cooperar com a minha situação de refugiada foi a Megadeals. E foi realmente um bom negócio para mim vir para a Suécia. Eu sou muito grata a Ilana e seu marido Johann, que me ajudaram muito com a casa, porque eu sei que é muito difícil achar um lugar para morar em Estocolmo", conta Olena. Mesmo chegando com emprego e tendo uma casa para morar, Olena tem de lidar com outras questões ligadas à imigração, mas, quando se trata de refugiados, elas são ainda mais específicas. "Quando eu vim para a Suécia, e já tem quase dois meses, eu me dei conta de como é tremendamente difícil lidar com a burocracia quando se é refugiado. Eu ainda não tenho um número de identidade pessoal – e refugiados têm o chamado número de coordenação. O escritório de imigração perdeu minha foto e impressões digitais, que são obrigatórios para a biometria. Nós estamos bem, mas essa espera para ter direito a um número de identidade, uma vaga na escola é desgastante e estressante", diz. Seu ex-marido e pai de sua filha ficou na Ucrânia, onde luta contra a invasão russa, mas se comunica com elas por vídeochamada. Nas ligações, Lina mostra a sua nova casa, o jardim e sua amiga Liv. Ao falar sobre seus planos daqui para a frente, Olena se emociona: "Quando você vive em paz, você faz planos para a sua vida. Mas quando a guerra chega ao seu país, é muito difícil de prever o dia de amanhã. No meu primeiro dia na Suécia, ainda estava no escritório de imigração, eu recebi uma chamada para avisar que o meu melhor amigo tinha sido morto. Foi um choque enorme para mim". Mas a jornalista disse que pretende aprender sueco e se desenvolver no país de asilo, pois não sabe quando poderá voltar à Ucrânia. O próximo desafio é adaptar sua filha, que acaba de conseguir uma vaga na escola. "Eu respeito a Suécia e sua cultura, e o respeito é mútuo, diferentemente da Rússia; que odeia os outros", declarou. Para Ilana, as crianças - as suas, a Lina e as do bairro - ajudaram na integração da família."Desde os primeiros dias tem um laço muito forte sendo trançado pelas nossas famílias e uma das chaves são as crianças". Ela contou à RFI histórias interessantes, como a alegria do filho Dante, de dez anos, quando conseguiu a carta da Ucrânia - muito disputada na Suécia - num álbum que ele coleciona e, a primeira coisa que fez foi corer para oferecer à sua amiga Lina; ou que seus filhos paravam de jogar videogames de guerra quando Lina entrava na sala. "Um dia, a Lina chega para mim e me diz 'telefone' - ela pede para usar o Google Translate quando não consegue se comunicar por gestos. Eu dou o meu telefone para ela, que grava uma mensagem e abraça a minha filha, Liv. Quando eu vejo a tradução, ela tinha dito: 'A Liv é como uma irmã para mim", conta Ilana, emocionada. Além disso, Ilana diz que ter aberto as portas de sua casa para uma família ucraniana lhe traz aprendizados diários. "A convivência com elas traz aprendizados em muitos níveis. Penso que seja possível recomeçar mesmo com esses estilhaços na alma, que as crianças são dínamos de paz, que democracias estão sob ameaça, que fake news são pragas indomáveis, que linhagens de mulheres não querem e não fazem a guerra, essa linguagem do horror não nos pertence. E que redes de afeto são formas de luta e de resistência, mesmo que singelas", completa a escritora, que teve a sua história de acolhimento de refugiadas contada no jornal sueco Söderort.

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