Ciência - Plataforma online luta contra “fake news” sobre Covid-19

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Acabar com a desinformação sobre vacinas em tempos de pandemia é o objectivo da plataforma digital Imune.pt. A página é uma iniciativa do Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa e conta com uma comissão editorial científica, da qual faz parte Celso Cunha. Este virologista explicou à RFI o projecto que luta contra as “fake news” em torno da covid-19 e falou sobre as novas variantes e a vacinação. RFI: O que é o site imune.pt? Celso Cunha, Virologista do Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa: Este site é uma iniciativa do nosso instituto e tem como objectivo tornar-se numa plataforma digital acessível a qualquer pessoa e que transmita informação credível, fidedigna e cientificamente validada sobre vacinas e sobre imunização. Pretendemos esclarecer, ou dar a conhecer a qualquer pessoa que o queira, o que são vacinas, como é que elas são feitas, quais são os seus constituintes, se elas são perigosas ou não, se são eficazes e se nos devemos vacinar e porquê. Pretendemos contribuir para acabar com uma série de mitos que circulam agora nas redes sociais em relação ao perigo eventual das vacinas, sobretudo agora numa época em que estão a ser feitas campanhas massivas em todo o mundo e há muita desinformação nas redes sociais sobretudo. Nós pretendemos combater um bocadinho isso. Esta desinformação e fake news de onde vêm? Como é que se explica este cepticismo em relação à vacinação? Este cepticismo já existia nalguns grupos de cidadãos, em vários países – em uns mais do que em outros. Não está relacionado, na minha opinião, com a instrução ou literacia das pessoas de um modo geral mas sim com convicções que essas pessoas têm e que se forma na frequência de determinado tipo de redes sociais, de determinado tipo de sites, etc, etc. Tenho-me deparado, nos últimos meses, com algumas surpresas porque pessoas até da área profissional onde me movo – e não estou a falar só de Portugal, mas de vários países – continuam muito cépticas em relação às vacinas contra o Covid, há uma série de desinformação que está a ser transmitida e que muitas pessoas acolhem acriticamente sem pensar se essa informação que estão a ler é credível, é boa ou é má. Estas são vacinas muito recentes. Porque é que as pessoas se devem vacinar contra a Covid-19? Nós estamos perante uma pandemia com um vírus que tem uma taxa de mortalidade bastante superior à de outros vírus respiratórios com que nós nos confrontamos normalmente todos os anos, nomeadamente outros coronavírus, o vírus da gripe e outros vírus que causam infecções respiratórias. Por isso, é fundamental nós tentarmos travar a dispersão e o aumento do número de casos da doença provocada por este vírus. A vacinação tem uma vantagem: as vacinas que estão neste momento em utilização na União Europeia, que estão autorizadas pela Agência Europeia do Medicamento, são vacinas que são comprovadamente seguras e que têm um custo/benefício para a população em geral que é muito superior do que aquele de não ser vacinado. Ou seja, é muito mais provável nós morrermos de Covid do que propriamente de um eventual efeito secundário de uma vacina que existe sempre em qualquer vacina e em qualquer medicamento que nós tomemos. Ou seja, o risco de nós ficarmos doentes e termos formas moderadas ou graves de Covid-19, com ou sem sequelas futuras, é muito maior se não formos vacinados em relação ao potencial risco que há de tomar qualquer uma destas vacinas que estão neste momento aprovadas. Tem havido um aumento de casos em Portugal, nomeadamente da variante Delta. Que variante é esta e porque é que está a haver um aumento tao significativo em Portugal? Esta variante foi introduzida não há muito tempo e foi detectada não há muito tempo aqui em Portugal. Não sabemos ainda bem qual é a sua origem - é provavel, mas não está ainda demonstrado, que tenha vindo de Inglaterra. O problema desta variante é que embora os casos de doença que provoca não sejam substancialmente mais graves do que as outras variantes, o grande problema é que ela se transmite muito mais facilmente entre a população. A velocidade em que ela se transmite, em que as pessoas são contagiadas é muito maior, o que coloca um problema na velocidade em que vão aparecendo novos surtos e novos casos em que ela depois se estabelece em transmissão comunitária, chamemos-lhe assim. Neste momento, sabemos que em Portugal, em pouco tempo, no período de um mês ou um mês e pouco, nós já temos cerca de cinquenta e tal por cento dos casos da variante Delta. Ou seja, ela passou rapidamente de residual para a variante que está dominante no país. Isso faz com que o número de casos aumente mais rapidamente do que com as variantes anteriores, causando um peso adicional ao serviço nacional de saúde. A campanha de vacinação tem-se intensificado, incluindo em Portugal, e o país até tinha começado o desconfinamento. Afinal, os casos aumentam. As vacinas não estão a ter o efeito desejado ou são muito poucas as vacinas? Ainda são muito poucas. Repare, já administrámos [em Portugal] cerca de 8 milhões de vacinas, temos cerca de 30% da população vacinada com duas doses nesta altura, mas é muito pouco ainda. Nós começámos com as pessoas mais idosas, os jovens ainda não estão vacinados – ou alguns terão apenas uma dose, pouco. É entre eles que se está a verificar um maior número de aumento de casos, devido a várias coisas, nomeadamente devido a hábitos de vida, comportamentos e também um bocadinho de cansaço das pessoas com toda esta situação e confinamentos sucessivos que temos vindo a fazer e é natural que as pessoas também queiram sair um bocadinho, divertir-se, etc. O facto é que isto tem contribuído para um aumento do número de casos entre a população mais jovem que, de uma maneira geral, não tem tido um impacto muito elevado no número de mortos, que se tem mantido a níveis bastante baixos, mas o número de casos de pessoas em cuidados intensivos tem vindo a aumentar, embora continue, digamos assim, a níveis manejáveis pelo sistema. Quem está vacinado pode andar sem máscara? Não, na minha opinião não porque a vacina não protege contra a infecção, a vacina protege contra formas graves e demoradas da doença. O facto de estarmos vacinados não significa que não continuemos susceptíveis a que se encontramos alguém infectado, essa pessoa nos transmita o vírus. Simplesmente o nosso organismo vai estar mais educado e mais capaz de lidar com essa infeção e de a debelar sem nós termos uma doença grave. Embora uma pessoa vacinada esteja protegida contra formas graves da doença, não impede que ela não possa ser infectada e depois ser um veículo de transmissão para outras pessoas, vacinadas ou não. Então, por exemplo, a França e os Estados Unidos que deixaram o uso obrigatório de máscara na rua fizeram um erro? Os Estados Unidos têm mais pessoas vacinadas do que nós. Em França não sei como é que está a correr a vacinação, mas aquilo que eu estou a dizer é que pode não ser um erro, mas ao andar sem máscara, o número de casos vai aumentar neste momento em que ainda não temos a maioria da população vacinada. O que irá acontecer é que normalmente esse número de casos não se irá reflectir num aumento de mortalidade e de pessoas em cuidados intensivos. Com estas novas variantes que vão aparecendo e tendo em conta que a imunidade conferida pelas vacinas tem -digamos - um prazo de validade, vamos ter de ser vacinados todos os anos? Não faço ideia. Essa é uma pergunta que já se faz há vários meses, mesmo ainda antes de surgirem as primeiras vacinas e é uma pergunta a que não sei responder. Nós neste momento estamos ainda muito no início dos processos de vacinação, aquilo que vamos ter de continuar a fazer é de monitorizar a doença e o aumento do número de casos mesmo em pessoas vacinadas. Nós sabemos que algumas das pessoas que já tiveram duas doses da vacina - embora sejam casos muito pouco frequentes - também são susceptíveis e podem desenvolver a doença, mas são bastante raros. Quão raros? Em Portugal temos 30% da população vacinada e já tivemos mais de oito milhões de vacinas e o número de casos reportados deve andar à volta dos mil, tendo nós cerca de três milhões de pessoas já com as duas doses completas. Sobre o prazo de validade destas vacinas, em relação à nossa imunidade, é uma questão que está completamente em aberto até porque estão a ser administradas vacinas que têm abordagens de fabrico e conceitos de funcionamento que são completamente diferentes umas das outras. Umas até podem dar-nos uma imunidade mais longa e outras uma imunidade menos longa, o que não significa que as que dão uma imunidade mais longa sejam aquelas que nos deem uma imunidade mais forte. Isto é um processo que vamos ter de ir monitorizando ao longo dos próximos meses e anos. Neste momento é muito prematuro dizer quando é que nós vamos voltar a ser vacinados ou se voltaremos. Se será dentro de um, dois, cinco ou dez anos. Nós enquanto não vacinarmos a população mundial toda, aquilo que estamos a ver em alguns países como o Brasil, a Índia, a África do Sul são países que têm sistemas de saúde relativamente mais fracos, onde há muita densidade populacional e onde foram cometidos vários erros no manejamento da pandemia desde o início. É aí que o vírus está completamente em roda livre e que as novas variantes estão a surgir porque as novas variantes surgem sobretudo e muito mais frequentemente em locais onde o vírus se replica mais. Há algumas mutações que se vão fixando no RNA das novas partículas virais. E agora há a variante do Nepal… A variante do Nepal é uma variante da variante Delta, chamemos-lhe assim, que supostamente é ainda mais transmissível do que a anterior. A variante do Nepal é uma variante indiana 2.0, chamemos-lhe assim. O que eu queria dizer é que se nós não vacinarmos rapidamente a população de todo o mundo, estas variantes vão continuar a surgir a um ritmo bastante grande e corremos o risco de um momento para o outro poderem surgir novas variantes que consigam escapar ao nosso sistema imunitário mesmo estando vacinados. Uma corrida contra o tempo e são as variantes que estão a ganhar? É uma corrida contra o tempo. Se na Europa queremos ser capazes de ganhar esta corrida contra o tempo vacinando rapidamente toda a população, mas em países como o Brasil, a Índia, a África do Sul ou até a Rússia – onde a taxa de vacinação é muito baixa – o vírus continua a multiplicar-se e a infectar muitas pessoas todos os dias, irão surgir certamente novas variantes mais tarde ou mais cedo e, com certeza, mais tarde ou mais cedo vão chegar à Europa. Ou nos livramos todos no mundo deste problema ou isoladamente num país qualquer não se está de forma nenhuma protegido para toda a vida com as vacinas que estão a ser actualmente administradas. Ou vacinamos toda a gente ou então corremos o risco de voltar a ter problemas no futuro.

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