Cultura - “Imaginário dos franceses ainda não foi descolonizado”, diz autora sobre heroína antiescravidão

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Por France Médias Monde and RFI Brasil descoberto pelo Player FM e nossa comunidade - Os direitos autorais são de propriedade do editor, não do Player FM, e o áudio é transmitido diretamente de seus servidores. Toque no botão Assinar para acompanhar as atualizações no Player FM, ou copie a feed URL em outros aplicativos de podcast.
Era 1794 e os novos tempos anunciados pela Revolução Francesa levavam à abolição da escravatura – mas não para todos. Nas colônias da França, como as Antilhas, os negros continuariam escravizados, apesar da luta ingrata de heróis e heroínas como Solitude, que vivia na ilha de Guadalupe. Mais de 200 anos depois, os ares do movimento antirracista inspiraram a escritora e editora Paula Anacaona a narrar a história da serviçal que se uniu aos insurgentes contra a exploração dos colonizadores. O livro da autora, Solitude, la flamboyante, traz detalhes de uma história até hoje mal contada. "Na França e no Brasil, essas heroínas escravizadas ou de origem subalterna são pouco conhecidas. Há poucos arquivos históricos sobre elas”, comenta. Quem era, afinal, Solitude, a moça que sequer nome tinha e atendia pelo melancólico apelido de “solidão”? Sem registros históricos suficientes, Paula romanceou a trajetória da jovem com base nas pesquisas das relações entre os escravos, os senhores de engenho, os quilombolas e os indígenas que povoavam o arquipélago caribenho naquela época. "Li muitos livros sobre o período colonial das Antilhas francesas e pude saber como moravam os senhores de engenho e os escravos. Há tão poucas coisas sobre a vida de Solitude, mas assim eu pude costurar os fios da narrativa, com as lacunas que havia”, relata a escritora. Escravidão prolongada nas colônias O combate de Solitude chama a atenção para uma falha histórica da França, que manteve a escravidão nas suas colônias muito além do que na metrópole. Aos 30 anos, grávida, Solitude preferiu a morte a continuar escrava. A Declaração Universal dos Direitos Humanos, herança da Revolução Francesa, parecia não valer nos territórios franceses além-mar. "Na verdade, era uma mentira, porque enquanto Paris falava isso, nas colônias, todos os homens não nasciam livres e iguais”, constata. A chegada de Napoleão Bonaparte ao poder representou um golpe ainda mais duro – o imperador reverteu a abolição da escravatura e a prática só foi definitivamente proibida em 1848 – e este foi o ano que entrou para os livros de história da França. A autora observa que, até hoje, poucos sabem da existência de uma primeira tentativa de libertação, 50 anos antes, quando Solitude viveu e morreu. Ao expor uma pouco conhecida luta antirracista nas colônias francesas, o romance encontra paralelo com a atualidade na França, no Brasil ou nos Estados Unidos. "Eu penso que o debate atual antirracista na França tem muito a ver com a história colonial, que não é muito ensinada nas escolas e é pouco conhecida. Se as pessoas conhecessem mais essa história, teríamos, provavelmente, menos problemas de racismo”, avalia. "Depois de 200 anos de escravidão e mais 150 anos após a abolição, acho que o imaginário dos franceses ainda não foi descolonizado. Na França aconteceu como no Brasil: houve a abolição e, no dia seguinte, disseram aos escravos que eles estavam livres. Mas não foi feito nenhum trabalho de educação junto aos escravizados, nem junto aos senhores." Promoção da literatura brasileira abalada pela Covid Além de escritora, Paula Anacaona é uma das maiores promotoras da literatura brasileira contemporânea na França. A aproximação sempre ganhou impulso com os encontros literários promovidos pela editora, porém a pandemia de Covid-19 abalou essa dinâmica. "Nunca foi fácil trazer escritores brasileiros para a França – e ainda mais agora, que eles não podem vir. Os encontros são essenciais, porque quando você encontra um autor, o livro se torna diferente”, indica. "O meu papel acabou sendo de traduzir os posts dos autores nas redes sociais e fazer a ponte, que sempre fiz, entre os dois países. Eu vejo cada vez mais semelhanças entre eles. No Brasil você tem o mito da democracia racial – e na França é a mesma coisa." Solitude, la flamboyante, ainda não tem versão em português, mas Paula Anacaona busca apoio para lançar a obra também no Brasil.

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