Cultura - Livro de historiadora francesa decifra origem da representação das bruxas na arte ocidental

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As bruxas com seus chapéus pontudos e suas vassouras te assustam ou te fazem rir? Mas de onde elas vêm? Para solucionar este mistério, Alix Paré, historiadora francesa especializada em pintura ocidental, acaba de publicar o livro "Sorcière" (“Bruxa”, em português) pela Éditions du Chêne, uma obra que detalha o nascimento e a evolução da representação da bruxa na História da Arte. Um livro emocionante sobre a invenção desta mulher má. Sim, porque as bruxas, se um dia existiram, foram antes de tudo inventadas pelo olhar das pessoas que as temiam. Você consegue imaginar bruxas povoando o mundo desde sua origem? Na História da Arte, no entanto, elas só apareceram no final da Idade Média. Antes disso, houve mágicas, encantadoras, deusas capazes de fazer o bem e o mal, mas nenhuma mulher má vestida de preto e dançando com o demônio. É o que conta o fascinante livro de Alix Paré, que decifra as representações das feiticeiras na pintura, no desenho, na gravura, ao longo dos séculos. “A priori, as duas primeiras bruxas da história da arte datam da década de 1440. São duas pequenas mulheres em vassouras, uma iluminação em um manuscrito que fala de uma seita, os Vaudois, suspeitos de fazerem feitiçaria”, conta a especialista. Os chamados Vaudois receberam o nome de um comerciante de Lyon, "Valdès" ou "Valdo" que, por volta de 1170, após uma crise de consciência, decidiu vender seus bens e dedicar a vida a pregar o Evangelho aos seus concidadãos. Ele mandou traduzir o Novo Testamento para a língua usual da Idade Média na França, o provençal, para que fosse compreendido pelo povo. Suas ideias então se espalharam pela Europa. Valdo e seus discípulos - "os pobres de Lyon" - foram condenados pela Igreja como dissidentes, principalmente porque a pregação do Evangelho também era feita por leigos, inclusive mulheres. Eles foram excomungados pelo Papa Lúcio III ainda em 1184. A representação iconográfica das bruxas nasce, segundo o livro da historiadora, a partir dos desenhos feitos sobre este coletivo dissidente e laico, que, apesar de católico, ousava pregar a palavra de Deus sem se submeter aos ritos tradicionais da poderosa Igreja da época. A grande caça às bruxas A partir do Renascimento, uma grande e literal caça às bruxas começa a dizimar dezenas de milhares de mulheres em toda a Europa. “No século XIV em particular, chega ao fim a Guerra dos Cem Anos, e acontecem a praga, a fome e as más colheitas. Começa-se então a procura de um bode expiatório; é quando haverá o desenvolvimento da figura da bruxa, que vai cristalizar as ansiedades coletivas. Considera-se que a vizinha pode ter feito um trato com o diabo. Isso então pode explicar muita miséria", detalha Paré. Muito rapidamente, a bruxa começa a ser representada com um nariz adunco e um chapéu pontudo. “Os judeus da Idade Média são considerados hereges. E vamos pegar emprestado dos desenhos antissemitas certas características, como o nariz adunco, para desenvolver a iconografia da bruxa. Em certos momentos, os judeus também são forçados a usar um chapéu pontudo para serem reconhecidos. E este chapéu pontudo volta regularmente a ser visto na representação das bruxas. " Quando os ocidentais exportam a "bruxa" para a África Os primeiros navios europeus que atracam na África exportam a bruxa para o continente. Um exemplo de transferência cultural, segundo Alix Paré: “A magia e os amuletos amplamente utilizados na cultura tradicional africana foram muito rapidamente assimilados pelos ocidentais à feitiçaria, mesmo antes da colonização. E ainda hoje alguns personagens africanos são chamados de bruxas ou feiticeiras. E ainda hoje, alguns personagens na África ainda são chamados aqui de bruxas ou bruxas. Esta é uma característica do olhar do Ocidente sobre a cultura africana”, diz Paré. Na História da Arte, a bruxa é frequentemente representada como uma mulher em conexão com uma natureza selvagem. “Desconfiamos muito das mulheres nos tempos antigos, pois existem muitos mistérios que cercam o corpo feminino, a procriação, o ciclo menstrual, então existem muitos tabus, mal-entendidos e preocupações. E há mulheres que assustam: mulheres instruídas, mulheres que conhecem as plantas, que são curandeiras ou que fazem abortos clandestinos”, lembra a historiadora. A reabilitação da bruxa O Iluminismo, mais racional, fez a bruxa desaparecer, mas ela reapareceu na arte do século XIX sob a imagem da mulher sedutora e por meio das fábulas. Na década de 1960, feministas norte-americanas e europeias se reapropriaram deste simbolismo e o reabilitaram. A bruxa então não é mais aquela que faz o mal, mas uma vítima da sociedade patriarcal, revelando a origem mesma da fabricação de seu conceito na Baixa Idade Média.

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