Foi demais para ele…

 
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Eu conhecia o António há mais de quinze anos. Fomos amigos de infância. Jogámos à bola juntos, comprámos juntos as primeiras revistas pornográficas, enfim… passámos uma infância e uma adolescência felizes ao lado um do outro. Apenas como amigos.
Foi no dia 15 de Novembro do ano 2000, um dia que jamais esquecerei, que o António acordou surdo de um ouvido. Ao início ele não queria acreditar. E, de facto, nem eu nem os restantes amigos acreditámos. E como ele era um fanático de equipamento de som, optou por não enfrentar a realidade. Começou a andar na rua de lado para tentar compensar a falta de audição que possuia no ouvido direito.
Ou seja, assim achava ele, que continuava com a sensação que o som estava ao centro e não apenas no ouvido esquerdo. Nós, os amigos dele, tentámos ajudá-lo. Sabes Deus que tentámos! Nós dizíamos-lhe “António, pá, isso não é normal! Vai a uma consulta de um otorrino! Pode ser que só precises de uma limpeza de ouvidos…” Mas o António queria lá saber disso! Estava em negação. Insistia que ouvia muito bem dos dois ouvidos, que não precisava da ajuda de ninguém, e por aí fora. E é muito difícil resolver os problemas de alguém que não quer ver os problemas resolvidos. Os tempos que se seguiram foram algo decadentes para todos os que gostavam do António. Sempre que ia a casa de alguém sentava-se na ponta direita dos sofás, para poder ouvir bem toda a gente que estivesse sentada à sua esquerda e, assim, disfarçar melhor. Andava com auscultadores na rua a ouvir música num iPod para que ninguém desconfiasse sequer que ele não ouvia dos dois ouvidos. Foram tempos muito difíceis para os amigos e para ele. Sofreu em silêncio. Ou melhor, sofreu em mono!
Foi no dia 15 de Janeiro de 2001, exactamente dois meses depois de ter ensurdecido, que o António decidiu pôr termo à vida. Um apaixonado pela música e por sistemas de som em geral… passar o resto da vida sem poder ouvir o mundo em estéreo ou surround… foi demais para ele… foi demais para ele…

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