Economia - Boicote a produtos franceses por países muçulmanos tem mais impacto político que econômico

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A publicação e a exibição de caricaturas de Maomé na França voltam a incomodar os países muçulmanos. Em retaliação, vários países pediram o boicote de produtos franceses nos supermercados, uma medida cujo efeito se mostra mais simbólico do que efetivo. Em países como Catar, Kuwait, Jordânia, Irã e Marrocos, a incitação ao boicote veio por canais oficiais ou de alto nível, como o Ministério das Relações Exteriores ou importantes entidades políticas ou religiosas. Produtos laticínios de empresas francesas, como os queijos Kiri e BabyBel, desapareceram das prateleiras dos supermercados. Na Turquia, o pedido de boicote veio do próprio presidente, Recep Erdogan, que há dias dispara acusações contra Emmanuel Macron. Em outros lugares, como Bangladesh, Paquistão e Iêmen, a reação se espalhou pelas redes sociais, com hashtags como #boycottFrance. Na segunda-feira, ataques cibernéticos coordenados e originados nestes países atingiram sites franceses. Em um momento em que a economia mundial já enfrenta uma crise sem precedentes, por conta da pandemia de coronavírus, Geoffroy Roux de Bézieux, presidente do Medef, o maior sindicato patronal francês, avalia que o embaraço com os países muçulmanos não é bem-vindo. "É uma má notícia para as empresas implantadas lá, nos setores agroalimentar, luxo, cosméticos. Mas ceder à chantagem está fora de cogitação e eu peço às empresas francesas que resistam a essa chantagem”, comentou de Bézieux, na emissora RTL. "Por enquanto, sejamos claros: o problema ainda é bastante localizado. Vamos ver o que vai acontecer nas próximas semanas." Exportações de armamentos e bens industriais Concretamente, os setores que engrossam as exportações francesas para o Oriente Médio e a Turquia são os de armamentos e indústria pesada, como aeronáutica, siderurgia, espacial e automotiva. Para atender à retórica antifrancesa, o boicote deve se restringir a produtos mais expostos, como os vendidos em supermercados. Os países da região respondem por apenas 2,7% das exportações francesas agroalimentares. Em Paris, o presidente da Câmara de Comércio França-Turquia, Secuk Onder, disse à RFI que o movimento de rejeição "não poderá durar muito". "É preciso deixar claro que a Renault é uma empresa turca, que paga seus impostos na Turquia e está entre as campeãs de exportação da Turquia. Portanto, boicotar Renault é boicotar empregos turcos”, frisa Onder. “Se pegamos a Airbus, que é franco-alemã, ela corresponde a mais da metade da frota da Turkish Airlines. Vamos boicotar as peças dos aviões? Não, não é possível. Macroeconomicamente, não terá muito impacto. Microeconomicamente, um pouco, mas não muito”, sublinha. Clima de islamofobia No foco da insatisfação, estão as declarações de Emmanuel Macron sobre a necessidade de expor as caricaturas de Maomé, publicadas pelo semanário satírico francês Charlie Hebdo, em salas de aula. Os desenhos foram vistos como um insulto pela maioria dos muçulmanos. O presidente chegou a demonstrar a sua determinação em um tuíte em árabe, no fim de semana. O pesquisador especialista em Oriente Médio e Turquia Didier Billion, diretor-adjunto do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (IRIS), afirma que a postura de Macron e alguns de seus ministros aumenta o sentimento de islamofobia que já existe em relação ao país. "Evidentemente, os dois aspectos são importantes, mas o principal, de longe, é o político, e não o econômico. Eu acho que, infelizmente, nos últimos meses e sobretudo depois do assassinato abjeto do professor [Samuel Paty], houve excessos da parte de alguns políticos franceses, que misturam tudo no mesmo saco: islamismo, terrorismo e jihadismo”, ressalta o pesquisador. "Isso machuca, evidentemente, milhares de homens e mulheres muçulmanos pacíficos, seja na França ou no exterior.” Histórico de boicotes Não é de hoje que os franceses são boicotados pelos países de maioria muçulmana. Há 16 anos, quando Paris proibiu o uso do véu islâmico nas escolas, diversos países orquestraram retaliações, uma medida que se repetiu em outras ocasiões desde então, observa Didier Billion. "A imagem da França se degradou consideravelmente na região. Lembro que a história do véu e os pedidos de boicote, que visavam os mesmos tipos de produtos já em 2004, não tiveram consequências econômicas concretas. Mas em termos políticos, sim”, recorda o especialista. "Estávamos no início da guerra dos Estados Unidos contra o Iraque, contra a qual França se opôs fortemente, e a França desfrutava de uma aura formidável na região. Mas, infelizmente, esse debate sobre o véu contribuiu para a desvalorização da imagem dos franceses.” Segundo dados da alfândega francesa, o Oriente Médio e a Turquia são o destino de 3% do total do volume de exportações do país, somando € 14,8 bilhões em 2019. O maior mercado para os produtos da França (58,7%) se encontra na própria União Europeia.

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