Economia - Covid-19: na crise, esporte amador entra com desvantagem competitiva

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A bola voltou a rolar nos gramados da Europa com a retomada da Liga dos Campeões, o que inaugura mais uma etapa na volta ao novo normal também no mundo dos esportes. No caso do futebol europeu, isso se traduz em partidas com público reduzido a 5 mil pessoas. Mas os danos causados à economia esportiva pela Covid-19 vão bem além da arrecadação das bilheterias, passando por direitos de transmissão, publicidade, merchandising e até mesmo a contratação de atletas. Longe dessa realidade, o esporte amador sofre ameaças ainda maiores com a pandemia. A crise pode representar uma perda de € 1,27 bilhão para o futebol profissional este ano só na França. Os custos diretos para as equipes de futebol das primeira e segunda divisões no país podem girar entre € 300 milhões e € 400 milhões, mas quando considerados os empregos indiretos, um estudo recente aponta que este valor pode subir para €1 bilhão. Um balanço simplificado do impacto da crise em diferentes segmentos esportivos denuncia uma relação previsível entre popularidade e estabilidade: mais popular é um esporte, maiores as cifras que este movimenta, criando o famoso colchão que protege as economias. “Eu vejo realmente nesta crise que há uma situação em que os esportes mais populares são impactados, e os esportes que são menos populares, que geram menos receita, são ainda mais. Porque o fato é que os difusores e os anunciantes têm a tendência de se concentrarem sobre os esportes mais em evidência. Então é uma crise particularmente cruel aos esportes menos populares e divulgados”, explica o economista esportivo Jean-Pascal Gayand. A dependência em relação à arrecadação das bilheterias ilustra bem a teoria. Com 36% da renda vinda dos direitos de transmissão e 25% do trading de contratações, de cada € 100 gerados pelo futebol profissional, apenas € 8 vêm das bilheterias. Essa relação sobe para € 16 no caso do rúgbi, e € 17 para a chamada Jeep Elite, o campeonato francês de basquete. As proporções podem nos fazer acreditar que um esporte como o futebol então poderia sobreviver sem o público nos estádios – se considerarmos a ameaça da segunda onda de contaminações da epidemia, por exemplo. Bola fora. Competições esportivas são entendidas como “espetáculos ao vivo”, como um show de dança ou uma peça de teatro, em que a experiência de se assistir por uma tela não se compara àquela de se estar presente. Um espetáculo raro “Os espetáculos ao vivo tornam-se cada vez mais caros, porque têm mais valor que os espetáculos através de uma tela, que estão por toda a parte e a todo momento. Um espetáculo ao vivo ganha ainda mais valor, um valor cada vez mais elevado, porque é mais raro”, acredita Gayand, que também é professor de Ciências Econômicas da Universidade de Mans. Quando se fala de esporte, há ainda um diferencial extra: uma apresentação inédita a cada competição e o final sempre desconhecido a cada “espetáculo”. “Assistir uma competição ao vivo tem uma particularidade em relação ao teatro ou à ópera, porque é um cenário que não pode ser feito com antecedência, é a interação de duas equipes rivais e uma incerteza sobre o que vai acontecer. É um ingrediente a mais”, compara Gayand, que assina um livro sobre o assunto, Economie du Sport (Economia do Esporte - Ed. Dunod), ainda não lançado no Brasil. A relação do público com as competições está entre os fatores que condenam a economia esportiva aos mesmos problemas de outros segmentos que não têm muitas alternativas para se “transformarem” durante a pandemia, como vendas online que substituam as compras presenciais, ou serviços de entrega como opção para quem não pode consumir em bares e restaurantes, por exemplo. A atividade econômica do esporte se vê refém da crise, como tantas outras que lucram em tempos de calmaria e sofrem com medidas de distanciamento social. Com cifras que giram em torno dos € 6 bilhões anuais na França, o esporte amador é ainda mais impactado pela crise, por razões que são comuns ao esporte profissional – como a diminuição de patrocínio, por exemplo – ou comuns aos outros setores econômicos, em que a retração da renda se converte em diminuição de despesas. “Há realmente no esporte amador muitas pessoas, como recreadores e educadores, que dão aulas e recebem por hora, como por exemplo um professor de tênis. Pessoas que estão sem nenhuma atividade há cinco ou seis meses”, comenta o economista esportivo. Além disso, cerca de 80% dos clubes amadores de futebol não têm atletas formalmente contratados, o que os priva de todos os subsídios que possam ser oferecidos pelo Estado, como pagamento de seguro desemprego ou isenção de impostos. Longe da economia verde Mas enquanto a pandemia faz parte do mundo repensar seus padrões de consumo e modelos econômicos, a economia esportiva não vai se reinventar e mudar aspectos de sustentabilidade ambiental após a crise. Gayand acredita que, à medida em que as pessoas recuperarem seu poder aquisitivo, irão recuperar também os hábitos de consumo de produtos e serviços esportivos. O especialista faz uma analogia ao turismo, em que, assim como as pessoas vão voltar a viajar por terem novamente sua estabilidade financeira, elas também vão se deslocar para irem aos estádios. Lembrando inclusive que visitar “templos” do esporte e assistir competições consideradas clássicas estão entre os programas imperdíveis para muitos turistas. De acordo com Gayand, no caso do futebol, 95% do público em estádios é de torcedores locais, cabendo aos turistas nacionais e estrangeiros completar as arquibancadas. Mas quando se trata de estádios e times famosos, essa proporção tente a se equilibrar. “Hoje, quando vamos a um jogo em Londres, sabemos muito bem que metade do público vem do mundo inteiro, porque entre as coisas que um turista deve fazer quando vai a Londres é assistir um jogo da primeira divisão em um estádio da cidade. Assim como quando vamos ao Brasil e temos vontade de ver um jogo do Fluminense”, enfatiza Gayand.

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