Economia - "Memeconomy": como uma piada na internet pode valer ouro – e o que isso representa

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Um gatinho de cara amarrada fez meio mundo sorrir – e agora a imagem vale milhares de dólares. Os memes são mais do que um momento de descontração: se tornaram produtos que movimentam a economia digital a tal ponto que se transformaram também em criptomoeda, o Dogecoin, que experimenta uma valorização impressionante. Onde esse ciclo vai parar? Lúcia Müzell, da RFI Fundos se especializam na "memeconomy", na qual os investidores aplicam não em uma grande empresa tradicional ou uma fintech, mas em memes. Apostam, portanto, que determinada imagem não só vai viralizar nas redes durante alguns dias, como atingirá milhões de vizualizações e compartilhamentos ao longo de anos, a exemplo do tal gatinho mau humorado, ou mais recentemente, da foto da “Disaster Girl”. A foto da garotinha com um sorriso à la Monalisa em frente a uma casa em chamas foi vendida num leilão por cerca de US$ 500 mil. "Nos encontramos numa situação como a dos colecionadores. Para eles, determinados objetos têm muito valor: uma imagem, uma garrafa, um selo. É fenômeno ligado ao que eles representam para uma comunidade”, explica Nathalie Janson, professora de economia digital da Neoma Business School de Paris. "Certamente há um efeito de moda, em que algumas imagens vão se mostrar icônicas e outras, não.” Mercado cripto abre universo de possibilidades Essas transações agora são possíveis graças à certificação de autenticidade digital por NFTs (sigla para Non-Fungible Token, “token não-fungível”). A tecnologia, baseada em blockchain, viabilizou a venda de obras digitais, mas também de memes – num mercado cujo futuro é imprevisível e que, por enquanto, escapa de qualquer regulação ou tributação. "Acho que isso tem um futuro gigante. Na verdade, essa ‘tokenização' de ativos, essa ideia de colocar no mundo digital essas coisas, começou até no mercado tradicional, para tokenizar imóveis”, relembra o economista Gustavo Cunha, especialista em criptomoedas e fundador da FinTrender. "O problema é que eles eram valores mobiliários, com uma regulação muito grande. O que vejo nos últimos seis meses, um ano, é que todo mundo partiu para tentar fazer isso com coisas não reguladas, ou com menos regulação." Nesse contexto, em que caminham juntos a vontade de multiplicar o patrimônio em algumas semanas e um certo deboche do próprio mercado financeiro, nada mais natural que uma criptomoeda meme também desponte. O Dogecoin surgiu de uma brincadeira, elevando a moeda um cachorro famoso nas nas piadinhas virtuais. Em poucos meses, impulsionada pelo excêntrico Elon Musk, dono da Tesla, a cripto subiu de US$ 0,005 dólar para US$ 0,45 centavos em abril – uma trajetória que a coloca entre as principais do mundo e a levou a atingir uma capitalização de US$ 40 bilhões. "Acho que tudo isso se intensificou muito nos últimos meses, principalmente por causa da pandemia. A gente se digitalizou muito, as pessoas ficaram muito online e isso acabou facilitando as mídias sociais e que isso fizesse preço”, observa Cunha. "Mas não acho que será algo passageiro”, ressalta. O efeito nas redes também explica fenômenos imprevisíveis como o Gamestop, loja de games, cujas ações de um dia para o outro dispararam e ultrapassaram o valor de companhias consolidadas como Apple e Amazon. A Gamestop não cresceu porque apresentou lucros fabuloso ou comprou uma concorrente: se valorizou 20 vezes graças à atuação de pessoas físicas pela internet, em um movimento de manada. Risco de bolha é inevitável A dúvida que emerge em todos esses exemplos fulgurantes é inevitável: e se tudo não passar de uma bolha? O risco existe, segundo Nathalie Janson. Ela afirma que o mesmo efeito aconteceu no começo da internet e se repetiu com a expansão da Amazon, quando todos se se perguntavam: uma mera vendedora de livros pela internet tem tanto potencial assim? “Agora, sabemos perfeitamente que o aumento marcante da atuação dos Bancos Centrais durante a pandemia faz com que se tenha muita liquidez circulando no mundo. Esse dinheiro acaba indo parar em algum lugar e alimenta a formação de bolhas especulativas”, salienta. "Mas temos que ter em mente que a economia digital abre todo um mundo de possibilidades, que nós sequer identificamos, com os nossos olhos de hoje. Ela nos dá a possibilidade de existirem coisas completamente irracionais. Por isso é tão difícil determinar o que é interessante comprar e guardar." E se engana quem pensa que os maiores compradores desse tipo de produto financeiro são jovens de perfil geek. A professora da Neoma Business School observa que os investidores mais experientes do mercado cripto são, hoje, os que apostam mais fichas nesses ativos inovadores.

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