Economia - Segundo mercado financeiro do mundo, City de Londres foi ignorada no acordo do Brexit

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Ela movimenta US$ 40 bilhões por ano e representa 7% do PIB britânico – mas ficou de fora do acordo firmado entre o Reino Unido e a União Europeia. A partir de 1º de janeiro, com a consolidação do Brexit, a City de Londres perde o “passaporte europeu” para operar livremente na zona do euro. As transações passam a ocorrer sob um sistema instável de equivalências regulatórias. A forte pressão de lobistas da City de nada serviu: os serviços financeiros acabaram ficando de lado nas negociações do acordo, em detrimento a setores bem menos relevantes, como a pesca, que gerou impasse nas negociações até os últimos instantes. O futuro da relação financeira entre o bloco europeu e Londres, o segundo maior mercado do mundo, seguirá em discussão no primeiro semestre de 2021. "Nós sabemos que a União Europeia adotou algumas medidas temporárias para permitir a continuidade das relações financeiras com o Reino Unido, como uma câmara de compensações durante 18 meses. Mas também sabemos que Bruxelas não vai tornar a vida dos britânicos fácil nessa questão dos serviços financeiros”, explica Catherine Mathieu, especialista na economia do Reino Unido e questões europeias. "Existe a intenção de trazer para dentro da zona do euro algumas atividades que, hoje, são conduzidas na City." Por trás deste fracasso em fixar condições mais favoráveis para o acesso aos mercados europeus estão as opções políticas do premiê Boris Johnson, um defensor inveterado do Brexit. Embora pese 70 vezes menos na economia britânica, a preservação de garantias para a pesca atendia em cheio à ânsia por mais soberania daqueles que votaram pelo divórcio com a União Europeia. Filiais dentro da UE Foram quatro anos de negociações de um acordo comercial que, nos últimos meses, acabou por se focar no comércio de bens industriais e agroalimentares. Os bancos e instituições financeiras anteciparam o desfecho e se apressaram em instalar filiais nas fronteiras europeias para atenuar o impacto da ruptura. "Mais a longo prazo, podemos dizer que a City é suficientemente inovadora e ágil para poder manter o acesso aos mercados financeiros da zona do euro – e foi o que ela fez até agora, levando uma pequena parte das suas atividades para dentro da União Europeia e, assim, ter certeza de poder continuar suas atividades. Ela também pode querer se diversificar, avançando mais em praças de fora como na Ásia e nos Estados Unidos”, analisa Mathieu. Transferência de dados O diretor de investimentos estratégicos Fernando da Cruz Vasconcellos, da Valuation Consulting de Londres, frisa que um ponto-chave das futuras negociações será o tratamento do banco de dados das instituições financeiras. Nos últimos anos, o bloco europeu adotou medidas de vanguarda para a proteção das informações dos usuários. "O importante não é só o acesso para os mercados, mas também como será feita toda a regulamentação de transferência de dados e como o Reino Unido vai compartilhá-los com a União Europeia. Diferentes membros, Estados, terão as suas perspectivas do que lhes interessa e que siga o regulamento de cada país. Isso vai ser crucial nas negociações do próximo ano, sobre a equivalência”, indica. "Como e para que os dados das pessoas e instituições financeiras serão usados e como serão feitos os tradings? No meu ponto de vista, isso será o mais importante de tudo", analisa Vasconcellos, que também é professor associado do Brazil Institute do King's College London. Londres insubstituível? Enquanto isso, do lado europeu, uma guerra de incentivos é travada entre as cidades candidatas a compensar a perda de Londres como a principal praça dentro do bloco. Frankfurt, Paris, Milão e Amsterdã já atraíram cerca de 7.000 operadores da City. "Tínhamos, até agora, uma praça financeira muito poderosa, a de Londres, onde todo o tipo de atividade financeira podia ser exercida. Hoje, temos uma concorrência no interior da zona do euro para atrair essas atividades, o que representa necessariamente uma fragmentação para os intermediários financeiros”, afirma Catherine Mathieu, pesquisadora do Observatório Francês de Conjuntura Econômica (OFCE). "As praças europeias poderão ganhar com o Brexit, mas não tanto quanto poderiam se fosse uma conquista individual." Num setor em que a confiança e a tradição contam acima de tudo, fazer frente ao know- how londrino não será fácil. Para se manter atrativo, o Reino Unido ameaça desregular ainda mais as operações financeiras, caso a União Europeia insistir em uma posição rígida nas negociações. "O que a gente vai ter que ver no futuro é se esses outros centros criam uma massa crítica. Londres ainda é maior nesse sentido, mas se eles tiverem uma massa crítica e a União Europeia for dura nas negociações com o governo do Reino Unido, isso irá limitar e, provavelmente, diminuir um pouco a ascendência de Londres”, avalia Vasconcellos. Além de maior parceira comercial dos britânicos, a União Europeia é também a principal cliente dos serviços financeiros da City.

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