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Rasgar um caminho à bordoada. Uma conversa com Eugénio Lisboa

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Eça de Queiroz dizia que na sonolência enfastiada em que vivemos, num país onde a vitalidade humana apenas se conserva num egoísmo feroz e numa devoção automática, não nos é dado aspirar a uma existência propriamente, mas tão-só a alguma forma de expiação. Agora os abutres de serviço dizem-se muito empenhados em honrá-lo, mas vão-se esquecendo como, no ambiente de decadência endurecida que é o nosso, ele fez de tudo para abrir um caminho à bordoada, empenhado em ver se haveria um modo de pôr a galhofa ao serviço da justiça. Seria assim de elementar justiça vir lembrar as nossas aves necrófilas que, neste regime em que as mesmas consciências que certificam a podridão depois também revelam um temperamento que se dá maravilhosamente nessa mesma podridão, as honras na verdade só desonram. Mais valia que lhe desenterrassem os restos e o apedrejassem numa sessão com real poder evocativo. Se há uma linha de demarcação de que nos podemos servir para distinguir os poucos que não vêem a vida cultural como uma carreira diplomática debaixo da bandeira do seu próprio ego, essa linha será o conhecimento do inferno, ou pelo menos a forte suspeita de que estamos mergulhados nalguma confluência dos seus círculos. Agamben regista um curioso rumor que ouviu numa das suas passagens por Roma, com alguém a defender que a terra seria o inferno de um outro planeta desconhecido e que a nossa vida não é mais que o castigo que os condenados de lá padecem pelos seus pecados. E se a hipótese não pareceu inteiramente descabida ao filósofo italiano, o seu único motivo de perplexidade era tentar enquadrar nesse cenário alguns aspectos consoladores a que ainda vamos tendo direito, como o céu e as estrelas e o canto dos grilos… Seria uma harmonia desnecessária, a não ser, aventava ele, que se acredite que, para a pena ser ainda mais atroz e subtil, o inferno tenha sido colocado a uma distância enganadora do paraíso. Esta vizinhança renovaria um certo ímpeto sonhador, estendendo uma esperança apenas para que cada um fosse lançado uma e outra vez nesse abismo que se abre dentro de nós. Mas esta noção parece distante da maioria das pessoas que se servem da cultura como distracção, desses números que crescem e se rendem a tudo numa adulação nervosa e imbecil. Numa das suas crónicas, Eugénio Lisboa faz-nos ver a audácia que seria necessária hoje para interromper este ambiente de tepidez mole, e justamente aponta o exemplo de um crítico, o dadaísta Jacques Vaché, que, certa noite, subiu ao palco de um teatro parisiense, puxou de um revólver e ameaçou disparar contra quem quer que se atrevesse a aplaudir a peça. O aplauso tornou-se, entre nós, a reacção imediata de um público que se habituou a essa diluição no que quer que lhe metam à frente. Pelo contrário, este nosso convidado é hoje dos poucos autores entre nós que, sem qualquer traço de bazófia, poderia apropriar-se daqueles dois versos estupendos de Nemésio: "A minha vida está velha/ Mas eu sou novo até aos dentes." Mantém-se por aí, honrando a sublime brutalidade da vida, com a sua prosa desprendida, do lado de uma cultura exaltante, redigindo crónicas que não atraiçoam o encanto com que se foi fazendo um leitor inveterado desde cedo, e, por isso, também sem muita paciência para os enredos da banha da cobra, capaz de gritar ainda que o rei vai nu, com a insolência e o gozo imprecativo que é próprio dos miúdos. Foi a melhor forma de arrancarmos com a segunda temporada deste podcast, depois de alguns desaires, férias desgraçadas, filmes de terror em hospitais, o real quotidiano à portuguesa, no século XXI.

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