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Subsídios para uma ecologia da literatura lusa. Conversa com Paulo Bugalho

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Goliarda Sapienza costumava dizer que os mortos deixam de ter razão se depois da sua morte ninguém os defender. Hoje essa advocacia fulgurante e desinteressada tem vindo a degradar-se, uma vez que os vivos estão demasiado empenhados em promoverem-se a si mesmos, a ponto de fazerem tábua rasa da memória e da tradição. Aquela autora italiana estava, ao mesmo tempo, bem ciente de que o tempo hoje é substancialmente antiliterário, e que vivemos num mundo que tende a estar todo cheio, permanentemente ocupado, distraído. Entre nós a única virulência que parece restar ao meio literário é o seu silêncio. Quem não engula a sua hóstia literata nem preste culto aos santinhos de altar ao dispor logo se vê ostracizado. Enquanto isso, culturalmente, o país vive absorvido por tematizações ligeirinhas, constantes inventários e balanços, generalizações supressivas e elencos que se organizam naquele regime do saco de gatos. Em vez de um lugar de tensões e de conflito, de um espaço prospectivo onde possamos desdobrar uma dimensão que não se restrinja às operações promocionais, damos por nós encarcerados nesses dispositivos religiosos da economia, que domina todas as manifestações. Neste ambiente desolador, nada nos deveria empolgar mais do que essa obstinação sempre desfeita, desencorajada, desenfreada com que cada um de nós tenta superar estes bloqueios e impedimentos. Em certo sentido, as obras marcantes da literatura portuguesa estabeleceram sempre uma relação vingativa com o esquema sentimental e moral que as cerca, manifestando a força daquilo que teve de se construir e operar na cladestinidade, contra o conformismo, contra os bonzos de toda a espécie e proveniência. Uma e outra vez, o que estas obras nos lembram é que a promessa de um mundo que começa com uma catástrofe não é necessariamente contraditória. Hoje, a própria esperança é algo que só conseguimos conceber depois de um longo período de devastação. Enquanto leitores, vamos por aí a dar pelos hieróglifos desse tempo que nos espera, criando, a contragolpe, uma espécie de euforia do luto. A escrita foi tida em tempos como a religião das pessoas que não acreditam em nada, que interrogam a sua noite, que se dispõem a mergulhar no desconhecido através do acaso. Num certo sentido, para o processo literário nos ser restituído, talvez o mais importante não seja a síntese, a bela totalidade, a prossecução de um regime unificador, mas operar uma série de profanações, participar pela distorsão, o esquartejamento, valorizando a diferença e a exterioridade em qualquer forma. Neste episódio, e para um diagnóstico mais profundo destas e de outras questões, socorremo-nos de um escritor e crítico literário que se obriga diariamente a fazer um desvio do ofício de neurologista, sendo um desses cada vez mais raros escritores que têm uma série de romances na gaveta, e que não abdicam daquela obstinação sempre desfeita, num tempo em que vivemos cercados de leitores preguiçosos, alheados, muito satisfeitos com os horizontes moles da cultura oficial e patrocinada, e em que os meios técnicos da comunicação e expansão nos condenam a apodrecer enquanto esperamos que chegue a altura de sermos contemporâneos da nossa consciência artística.

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