Esportes - “Não sou vagabunda, sou jornalista”: francesas denunciam sexismo no jornalismo esportivo

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Desrespeitadas, diminuídas, ignoradas, humilhadas e muitas vezes assediadas sexualmente, as jornalistas do esporte na França dizem basta ao sexismo, à inferiorização e às desigualdades nas redações francesas. O movimento se organiza desde o ano passado e ganhou força nesta semana com a publicação, no jornal Le Monde do manifesto "Mulheres jornalistas do esporte, vamos invadir o campo!" e com o lançamento do documentário "Eu não sou uma vagabunda, eu sou uma jornalista", de Marie Portolano. “Tenho vontade de penetrar bem fundo essa vagabunda”. “Ela chupou todo mundo, essa puta”. “Ela aceita ser pega por todo o time, essa cadela”. “Mas que burra, ainda bem que ela me excita”. No documentário, jornalistas francesas que trabalham em editorias de esporte em TVs, rádios, jornais e sites da França trazem à tona algumas das frequentes declarações e ataques sexistas dos quais são vítimas, tanto da parte do público como de colegas de trabalho. De insultos misóginos a humilhações públicas, de assédios sexuais a ameaças de morte, os depoimentos são chocantes. No entanto, essas trágicas experiências continuam sendo relativizadas por boa parte da sociedade. “Muita gente não entende, não vê onde está o problema e diz: 'ah, por favor, podemos rir um pouco de vez em quando, uma passada de mão na bunda nunca machucou ninguém, isso é normal'. E quando você ouve essas coisas, você pensa: 'mas isso nunca foi normal'. Não é porque antes eles não eram denunciados que isso era normal. O que é anormal é o comportamento deles e o nosso silêncio. E isso já é bastante anormalidade”, diz no documentário a jornalista Nathalie Ianetta, uma das apresentadoras do “Téléfoot”, um dos principais programas de esporte da TV aberta francesa. A jornalista Annie Gasnier, que trabalha na editoria de esporte da redação francesa da RFI, conta que se emocionou ao assistir ao documentário. Mas, segundo ela, esses relatos não são surpreendentes. “Muitos falam que quando tem mulher – ou quando não tem mulher – no ambiente de trabalho os comportamentos e as brincadeiras mudam. É verdade que na França ainda não temos muitas mulheres no jornalismo esportivo e ainda hoje elas precisam batalhar e se impor. Além disso, elas precisam ser muito melhores que os homens para ter o seu espaço. Mas estamos atravessando um momento de mudança, de transição”, observa. Para Annie, a evolução de outras temáticas paralelas, como a valorização do esporte feminino, por exemplo, contribuem para esse movimento de reivindicação por mais espaço e respeito das jornalistas do setor esportivo. “Mas eu não acho que mulher só pode narrar jogo de mulher, árbitras só podem apitar jogos femininos, etc. Hoje, na França, há apenas uma mulher que narra jogos de futebol. Já ouvi declarações como ‘as mulheres têm a voz muito aguda, então não podem narrar jogos’. Mas isso, me parece, está mudando”, reitera. "Vamos invadir o campo" Graças a iniciativas como as do coletivo "Femmes Journalistes de Sport" (Mulheres Jornalistas do Esporte) - fundado recentemente por seis francesas - o debate veio à tona. Em uma coluna publicada nesta semana no jornal Le Monde, elas reivindicam o mesmo espaço que os homens no jornalismo esportivo e lembram que entre os cerca de 3 mil jornalistas de esporte na França atualmente, apenas 10% são mulheres. Quanto mais alta a hierarquia, menor é a presença feminina. No manifesto, intitulado "Mulheres jornalistas do esporte, vamos invadir o campo!", assinado por 150 francesas, elas dizem que, como qualquer outro setor da sociedade, o esporte não pertence aos homens. "Queremos que as mulheres sejam melhor representadas no jornalismo esportivo, mais protegidas, mais valorizadas. Que elas sejam numerosas também porque mais mulheres nas redações nos permitirá, em parte, acabar com o seximo", diz o texto. Sexismo do qual foi vítima Sarra Djeghnoune, 23 anos, uma das fundadoras do coletivo. Ao recém iniciar sua carreira no jornalismo esportivo, ela já vivenciou um trágico episódio. “Eu procurava um estágio no último verão e pedi ajuda para um jornalista da área de esportes, para saber se seria possível fazer um estágio em sua redação. A partir daí, comecei a ser assediada. Ele passou a me enviar mensagens no celular durante a madrugada, dizendo que queria me beijar, pedindo para eu passar no escritório dele à noite. Eu demorei a entender que estava sendo vítima de um assédio sexual”, conta. Segundo a jovem, a falta de instrução de como perceber e lidar com esse tipo de situação deixa as mulheres vulneráveis a predadores sexuais. “A verdade é que ninguém nos prepara para isso. Na escola de jornalismo, ninguém nos alerta que podemos encontrar pessoas com más intenções nas redações. E, naquela época em que tive que enfrentar esse problema, eu gostaria de ter alguém com quem contar, ou que eu pudesse ter o apoio de uma associação como essa que criamos", diz. Por isso, além de proteger as jornalistas mulheres do setor, o coletivo também tem o objetivo de promovê-las. Segundo Sarra, frequentemente, os recrutadores dizem que não recebem candidaturas suficientes de mulheres para as vagas no jornalismo esportivo. “Queremos mostrar que estamos aqui, que gostaríamos de ser percebidas, que existimos. Também adoraríamos brilhar no exercício da nossa profissão, como fazem os homens. Acabei de começar na minha vida profissional, tenho apenas 23 anos, e quero dizer para as jovens que é possível ser mulher e jornalista de esporte: esse sonho é totalmente legítimo e esse não é um setor reservado apenas aos homens”, defende. Documentário censurado De fato, na França, o jornalismo esportivo não é um setor exclusivamente masculino, mas ainda é dominado pelos homens. Prova disso é a censura do documentário "Eu não sou uma vagabunda, eu sou uma jornalista", ao ser veiculado no último domingo pela emissora de TV Canal +. Trechos do filme em que a diretora Marie Portolano confronta o jornalista Pierre Ménès, ex-colega de trabalho que a assediou, foram cortados sem nenhuma justificativa por parte da emissora. Como resposta, sites de notícias publicaram a conversa em que a francesa relembra o momento em que Ménès, durante o programa de televisão “Canal Football Club”, levantou sua saia e tocou suas nádegas. “Se não pudermos dizer mais nada a uma mulher porque ela é uma mulher, sinto muito, mas isso é sexista, isso que é insuportável. Dizer para uma moça que ela está bonita com sua roupa decotada, sinto muito, mas para mim isso é uma gentileza”, defendeu o jornalista. “Quando você chegou ao Canal Football Club, eu zombei muito de você, mas isso também é uma forma de integrar as pessoas, é minha forma de promovê-las. É assim que você integra alguém em uma bancada, que se cria um clima”, completou Ménès no trecho censurado. Em outra parte do documentário que não foi para o ar, Marie Portolano questiona um outro controverso episódio protagonizado por Ménès. Em 2016, durante um programa “Touche Pas à Mon Sport”, o jornalista agarrou a colega Francesca Antoniotti na bancada e lhe deu um beijo forçado, diante das câmeras. Na sequência, ainda hoje facilmente encontrada na internet, a jovem empurra Ménès, e depois, visivelmente constrangida, olha para os outros colegas em busca de apoio. “No momento em que aquilo aconteceu, ela não se ofendeu. Francamente, quando eu fui beijá-la, não pensava que seria na boca. Ela se virou em minha direção e colocou seu braço em torno de mim. Não é um beijo que vai te sujar”, declarou Ménès. “É preciso se acalmar também. É isso o que eu não suporto mais hoje. Se você não puder mais dar um beijo na boca de uma colega, socorro!”, completa o jornalista na sequência censurada do documentário. A decisão da direção do Canal + de proteger uma célebre figura na França por comportamentos e comentários machistas mostra que a luta das mulheres por respeito e igualdade no jornalismo será longa. Pierre Ménès já é alvo, desde o ano passado, de uma investigação por assédio moral movida por duas jornalistas. Após o lançamento do documentário, a Radio France também abriu uma investigação interna para apurar episódios descritos pela jornalista Amaia Cazenave no filme. Essa especialista em rúgbi denuncia diversas declarações sexistas que presenciou e evoca o comportamento de um colega que gritou diversas vezes “quero transar”, em um momento em que os dois estavam sós dentro da redação da France Bleu, emissora de rádio e TV afiliada à Radio France.

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