Meio Ambiente - Catástrofes na China e na Alemanha confirmam avanço e gravidade da crise climática

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A província de Henan, no centro da China, é palco de uma catástrofe climática. A capital regional, Zhengzhou, submergiu sob as tempestades mais fortes em 60 anos, obrigando cerca de 200 mil habitantes a deixarem suas casas. Em apenas três dias, a cidade recebeu um volume de chuvas equivalente a um ano. Em um dos episódios mais críticos, pelo menos 12 pessoas morreram em uma linha de metrô inundada. A tragédia acontece pouco depois de regiões da Bélgica e principalmente da Alemanha terem vivido momentos dramáticos, com enchentes provocadas também por chuvas extremas. Foram dezenas e dezenas de mortos e desaparecidos. As imagens de cidades devastadas por rios de lama chocaram o mundo. Áreas inteiras foram destruídas pelas "piores inundações do século" na Europa Ocidental. A chanceler alemã, Angela Merkel, descreveu a situação como “surreal e fantasmagórica”. As enchentes reacendem as discussões em torno da crise climática. Talvez uma das primeiras perguntas que se faça é: mas como pode chover tanto? De acordo com o meteorologista Marcelo Henrique Seluchi, coordenador-geral de Operações e Modelagem do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden), em São Paulo, os grandes desastres são resultado de uma junção de fatores. “O fator principal foi a formação de um sistema de baixa pressão muito intenso, muito profundo, ocupando toda a altura da atmosfera e permitindo a formação de nuvens muito altas. O outro fator é que este sistema é muito mais típico da estação de inverno, mas ocorreu no verão, quando a atmosfera é mais quente, mais úmida e mais instável. O fato de um sistema mais típico do inverno, muito intenso, ter se formado em plena estação de verão permitiu chuvas muito volumosas, muito mais do que costumam acontecer nessa época do ano.” O fato é que catástrofes naturais sempre existiram, mas os incidentes recentes na China e na Alemanha confirmam que a ocorrência de fenômenos extremos tem se agravado. A comunidade científica já provou que as mudanças do clima são resultado da ação humana. “O aquecimento global é um processo natural, já acontecia no passado e continua acontecendo. Quando o homem ainda não existia, o planeta continuava a aquecer. Depois esfriava, aquecia e esfriava. O problema são as atividades humanas que estão acelerando esse aquecimento. E quando aceleramos o aquecimento, aceleramos fenômenos como a chuva, por exemplo”, explica o climatologista José Antonio Marengo, especializado em mudanças climáticas e na redução de risco de desastres naturais. Ele acrescenta que o aquecimento global é um processo irreversível, que não é possível “esfriar o planeta”, mas, pelo menos, há como reduzir ao máximo o aquecimento, o que acontece por meio de medidas de mitigação, particularmente a redução das emissões dos gases do efeito estufa. “É preciso reduzir o uso de combustíveis fósseis, aumentar o uso de energias como a solar fotovoltaica, de biomassa, carros elétricos, tudo isso.” Uma perigosa relação E não faltam estudos científicos, realizados nas últimas décadas, que atestam essa preocupante relação entre o aquecimento global e desastres naturais extremos cada vez mais frequentes, ondas de frio ou de calor, secas prolongadas, chuvas, nevascas. “No último levantamento que foi feito, entre 2000 e 2010, nós tivemos, em média, um evento extremo climático, evento de seca, de enchente, acontecendo no mundo em escala nacional ou regional por dia. Isso é o dobro do que acontecia nos anos 1980, por exemplo,” alerta Tasso Azevedo, coordenador técnico do Observatório do Clima. Em visita aos locais inundados, a chanceler alemã Angela Merkel afirmou que seu país deve acelerar a luta contra a crise climática. "Acelerar" pode ser realmente a palavra certa, se os efeitos das medidas de enfrentamento só serão percebidos em muitos anos. “As intenções são boas. Eu ouvi o presidente francês [Emmanuel Macron], a primeira-ministra da Alemanha [Angela Merkel] e a presidente da Comissão Europeia [Ursula von der Leyen] falando do clima, compromissos. E agora vem a COP, em Glasgow, em novembro. Eu não diria que é tarde, mas é melhor agir o quanto antes, porque já estamos sentindo os impactos que, inicialmente, achamos que sentiríamos nas próximas décadas”, adverte Marengo. O especialista enfatiza o risco de eventos climáticos cada vez mais intensos e seus impactos sobre as populações. Ele afirma que as inundações ocorridas em cidades da Alemanha ajudam a desmistificar que seriam as comunidades de países mais pobres ou de governos menos comprometidos com a crise climática que estariam mais expostas a catástrofes naturais, reafirmando que esta dever ser uma preocupação de todos, afinal, estaríamos todos expostos. “A inação é o pior. Mas essas coisas [medidas de enfrentamento da crise climática] deveriam ter sido feitas em 2015, quando se tomou a decisão do Acordo de Paris. E quase nada foi feito, infelizmente. Às vezes dá a impressão de um discurso político vazio”, lamenta o climatologista. Mundo pós-pandemia Muito antes desta devastação sofrida recentemente pelas cidades chinesa e alemãs, o debate em torno da crise climática já havia alcançado novos patamares, desde dezembro de 2019, quando a epidemia de Covid-19 rapidamente deixou o território chinês e se tornou uma ameaça mundial, com mais de 4 milhões de mortos hoje. Mas será que estamos aprendendo a lição? Os especialistas mais otimistas acreditam que algumas experiências vividas desde o início da pandemia e principalmente durante o período de confinamento podem, sim, se tornar importantes mudanças de consciência ambiental. “Um impacto importante e direto foi a redução ou até mesmo a paralisação, em alguns casos, da atividade econômica durante o processo de isolamento necessário para conter a pandemia, e, com isso, a redução de emissões [de gazes do efeito estufa]. Ainda que temporária, a redução apontou que esta é uma questão crítica. E como se espera a possibilidade de outras pandemias, isso faz com que a gente perceba um impacto global, brutal de algo que pode ser potencializado pelas mudanças climáticas”, relaciona Azevedo, do Observatório do Clima. Ele também vê nas medidas de reconstrução econômica, por exemplo, uma possibilidade de implementação de modelos mais sustentáveis: “Como todas as economias estão tendo que se recuperar agora, pós-pandemia, houve essa oportunidade para se fazer essa recuperação, o que envolve muito investimento público, e o Estado poder colocar várias condicionantes para que esse novo crescimento seja feito apontando para uma economia de baixo carbono. É isso que Estados Unidos e Europa estão apontando”. “Não há vacina contra as mudanças climáticas” Seluchi, do Cemaden, compartilha da mesma opinião sobre o exemplo observado pela redução das emissões de gazes poluentes durante o lockdown e lamenta que, com o retorno das atividades industriais, essas taxas estejam voltando aos níveis pré-pandemia. Por outro lado, ele espera que a experiência do teletrabalho, que impacta positivamente no meio ambiente pela redução dos deslocamentos, tenha vindo para ficar. Entretanto, seu lado realista não vislumbra muitas outras mudanças de atitudes além dessa. “As pessoas no mundo se acostumaram a um nível de conforto, a um nível de consumo, que será bastante difícil reverter.” Já os cientistas menos otimistas lembram que a mudança necessária compete a todos e não pode ser temporária. “A coisa melhora um pouco, a população volta a fazer o que fazia antes da pandemia. Meio que não aprendeu”, adverte Marengo, “o que nós temos que pensar é que existe vacina contra a pandemia, mas não existe vacina contra as mudanças climáticas”.

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