Meio Ambiente - Dia Mundial dos Oceanos: alta do consumo de peixe é quase o dobro da população

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Cientistas do mundo inteiro aproveitam a notoriedade do Dia Mundial dos Oceanos, celebrado em 8 de junho, para chamar a atenção sobre a urgência de um tratado internacional de proteção do alto mar, vastas zonas oceanográficas que não estão sob a autoridade de nenhum país. O vazio jurídico deixa essas áreas vulneráveis a todo o tipo de exploração e abusos, como a pesca excessiva, que ameaça os ecossistemas marinhos. O acesso aos recursos dos mares e oceanos não é regulado além das primeiras 200 milhas náuticas da costa dos países. A Convenção das Nações Unidas sobre o direito do mar, de 1994, permite a pesca nas águas internacionais e deixa a cargo dos países a inciativa de cooperarem entre si para garantir a conservação das espécies, os estoques de peixes e a preservação da biodiversidade – o que, na prática, significa que cada um fez como quer. A negociações iniciadas pela ONU em 2017 para um pacto mundial devem ser concluídas neste ano. Um dos principais objetivos é proteger o fundo marinho, refúgio de uma fauna valiosa que se encontra cada vez mais ameaçada pela atividade humana, com a poluição, as mudanças climáticas e os avanços da pesca para lugares que, até pouco tempo atrás, eram inatingíveis. Nas zonas costeiras, a gestão marinha também deixa, e muito, a desejar. "Deveríamos interromper a tendência dos últimos 20 anos, em que os Estados privatizam os direitos de uso do mar para a grande indústria pesqueira, em detrimento aos usuários menos capitalizados. Essa tendência está contribuindo para a desigualdade e à expulsão literal dos pescadores tradicionais dos seus espaços tradicionais”, diz o especialista em desenvolvimento costeiro sustentável Antonio Garcia-Allut, diretor da fundação espanhola Lonxanet, ao participar de um webinar promovida pela organização Slow Fish nesta terça-feira (8). "Essa situação gera a apropriação de grandes espaços marinhos, que se convertem não apenas em grandes projetos eólicos ou portuários, mas também de pesca não sustentável. Tudo isso acaba com os direitos de pesca dos pequenos pescadores”, reitera Garcia-Allut. Alta da demanda sufoca pesca sustentável O último relatório da Organização da ONU para a Alimentação e Agricultura (FAO) sobre a pesca projetou que a produção mundial de peixes deve atingir 204 milhões de toneladas em 2030, um aumento de 15% em relação a 2018. O consumo mundial de peixes cresce ano a ano, a um ritmo de 3,1% a partir da década de 1960 até 2017 – o que significa quase o dobro do crescimento da população mundial no período, que foi de 1,6%. Nenhuma outra proteína animal registra um crescimento tão forte da procura, denuncia a Slow Fish, que batalha por uma produção mais ambientalmente responsável. Para atender à alta da demanda mundial, os países têm preferido descartar os pescadores pequenos e médios, em proveito dos grandes navios pesqueiros, mais rentáveis, ao pescarem em escala industrial. Os maiores chegam a medir 170 metros de comprimento e são equipados de sonares, drones e satélites para identificar os cardumes, capturados com imensas redes ou linhas quilométricas carregadas com milhares de anzóis. A concorrência fica quase impossível, afirma o pescador aposentador francês Didier Ranc, presidente da maior entidade de pescadores artesanais da França. "Estamos vendo o resultado da privatização: é a exploração excessiva e a exclusão dos pescadores de certas zonas. Precisamos voltar a ter liberdade para circular, de maneira regulamentada. Isso é fundamental, para evitarmos de só ter navios imensos, com instrumentos de destruição massiva fazendo a pesca, como já foi o caso no passado”, lamenta o francês. "Temos que dar alguns passos para trás, voltar a fazer a pesca que fazíamos há 30 ou 40 anos, para deixarmos a natureza se restabelecer e podermos ter uma pesca sustentável", completa Ranc. Em busca do atum, onde ele estiver Um exemplo da exploração abusiva dos oceanos é a busca pelo atum, ressalta o pescador aposentado. A demanda japonesa é tão insaciável que levou os países com acesso ao peixe a priorizarem este mercado asiático. "Praticamente toda a cota de atum que temos no Mar Mediterrâneo é entregue ao Japão, por um preço bom, o que acaba privando o consumidor europeu deste peixe. Ele se tornou muito caro aqui, porque pouco dele permanece na França”, aponta. "Outro problema é que a exploração excessiva também ocorre quando vemos que a pesca é autorizada até em período de gestação das fêmeas. Capturar atuns fêmeas cheias de ovos, logo antes de elas colocá-los, é não proteger este recurso." O Mediterrâneo e o Mar Negro são os mais explorados do mundo, onde mais de 60% dos estoques de peixe são capturados para o consumo.

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