Meio Ambiente - O que restará das promessas de um “mundo melhor” após a pandemia?

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Nem o mais ambicioso dos ecologistas apostaria que o o mundo pararia como aconteceu em 2020. Menos consumo, menos poluição – mas até quando? A pandemia levantou reflexões sobre o rumo que estamos dando para o planeta – porém uma mudança concreta de consciências e hábitos ainda parece distante. A RFI perguntou para algumas pessoas, em diferentes partes do mundo, sobre o que vai restar dessas boas intenções. Da Ásia, a contadora gaúcha Amanda Miguel relata que pouco ouve falar sobre a preocupação ambiental na Tailândia, onde vive com a família há dois anos. "Eu vejo que eles não têm isso. Eles estão mais preocupados em sobreviver. A população de maneira geral é bastante pobre”, constata. "Eu só vejo isso nas pessoas que têm mais condições, como uma expatriada que leva o próprio canudinho de alumínio no restaurante para não usar o descartável do restaurante", exemplifica. Covid-19 simboliza invasão do homem em ambientes selvagens A Covid-19 apareceu não distante de lá, em um mercado de Wuhan, na China. As origens precisas do novo coronavírus ainda não foram completamente elucidadas – mas sabe-se que ele passou para o homem pelos morcegos selvagens. O francês Julien Becquart, designer de móveis em São Paulo, vê nisso um claro sinal da invasão desmedida do homem em ambientes dos quais deveria manter distância. "Essa pandemia começou por causa dos bichos selvagens que as pessoas comeram. Os animais não têm mais os espaços para morar”, lamenta. "Todo mundo teria que respeitar o meio ambiente e respeitar o ritmo do planeta”, diz o francês. Ele constata que a preocupação ambiental não está em primeiro plano para as pessoas, mesmo após a pandemia. Porém Julien se contenta em fazer a sua parte: em 2020, concretizou os planos de plantar uma horta em casa e instalar uma compostagem para decompor o lixo orgânico. Para ele, a grande lição é que devemos consumir menos e melhor. "Com certeza, eu aproveitei esse período para pensar muito sobre essas questões. O mundo de amanhã precisa ser diferente porque o nosso consumo não combina com os recursos do planeta. A Terra não pode aguentar o consumo atual”, afirma o designer. Frear o consumo? A realidade, porém, é que o “ano do coronavírus” ainda nem terminou e os shoppings já estavam lotados. Após meses de lockdown, vida social estagnada e uma série de restrições para sair à rua, o consumo acaba sendo uma válvula de escape para muitos, como a tradutora britânica Jennifer Smith, moradora na Espanha. "Eu sou meio contra a Amazon. Mas teve um ponto na pandemia em que fiquei desesperada: as crianças não podiam sair, não tinha nada aberto etc”, relembra a tradutora. "De repente, sentir aquela felicidade de quando você recebe uma coisinha pelo correio, abrir um pacote.. Aquilo se tornou um pouco um vício para mim”, confessa. Para alguém acostumada a viajar várias vezes por ano, a pandemia representou uma ocasião para adotar novos costumes, como o prazer de andar de bicicleta. De quebra, a prática ainda ajuda o planeta. "Eu devo ter pego uns quatro ou cinco metrôs desde o início da pandemia e praticamente não uso carro. Tem que estar chovendo muito ou muito frio para eu não pegar a bicicleta ou andar. Me fez descobrir um outro olhar sobre a cidade, um outro estilo de vida”, revela Jennifer. Amanda Miguel também sentiu falta do turismo e, em especial, de não poder retornar ao Brasil para rever a família, devido às rígidas restrições impostas pelo governo tailandês para conter o avanço do vírus. Entretanto, redescobriu maneiras mais singelas de se divertir com a família. “Sim, a gente deixou de viajar, mas isso não causa sofrimento na gente, porque conseguimos fazer coisas legais aqui por perto ou mesmo só em casa, em família, no jardim ou na piscina. Criança não precisa de muito e a gente também não, e a pandemia veio nos mostrar o que realmente importa”, sublinha a gaúcha. Impacto na poluição O impacto da crise do coronavírus nos transportes é colossal e, junto com diminuição do consumo de energias, levou à maior queda de emissões de CO2 já vista na história. O cinegrafista e documentarista francês Martin Sorbets costumava ter uma agenda intensa de viagens a trabalho, mas agora compreendeu o quanto várias delas eram dispensáveis. "O talento está em todos os lugares. Não precisamos viajar tanto para trabalhar: podemos trabalhar com quem já está no lugar que nos interessa”, observa o documentarista. Ele percebe, no entanto, que o que se viu após a reabertura gradual das economias indica que muitas das promessas de mudanças pós-pandemia não terão passado de ilusão. “Eu acreditei por um momento que a gente poderia mudar o mundo, que mudaríamos bastante os nossos hábitos e nos daríamos conta de que estávamos acabando com o planeta. Mas acho que vai ser mais complicado. Me parece que vamos simplesmente parar durante a pandemia e depois voltar a fazer tudo igual, como antes, infelizmente”, conclui. "É como se a gente tivesse visto tudo isso como uma punição, e depois, quando ela acaba, a gente pode voltar à vida de antes.” Martin ainda espera que, por mais que as mudanças não sejam tão rápidas, a pandemia tenha iniciado um movimento de conscientização ambiental que vai evoluir com o tempo.

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