Crise energética poderia mudar horário europeu, herança do nazismo?

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Aquecimento global e guerra na Ucrânia conjugados provocam uma crise energética sem precedentes na Europa. Essa situação poderia levar a uma mudança no horário adotado pela maioria dos países da Europa durante a Segunda Guerra Mundial e o domínio nazista?, questiona o analista político da RFI. Flávio Aguiar, analista político 2022 passará à história como o ano de um dos verões mais quentes da Europa, pelo menos desde que as medições se tornaram regulares no século XIX. Recordes foram quebrados ou igualados em todos os quadrantes do continente. Incêndios florestais e mortes pelo calor excessivo ocorreram dramaticamente em vários países. A crise no fornecimento de energia, devido à guerra da Ucrânia e o aumento de seu custo, intensificou a inflação em todos os países europeus. O consumo vem caindo de um modo geral. Hábitos alimentares estão mudando em toda parte. Todos os governos estudam medidas restritivas para serem implementadas de imediato, poupando energia. Projeta-se uma redução generalizada de 20% no consumo de energia desde já. Fala-se até em obrigar que mesmo nas casas particulares somente um cômodo seja aquecido durante os meses mais frios. Medidas paliativas Até o momento a maioria dos governos vem implementando medidas paliativas para favorecer o enfrentamento desta nova situação: subsidia-se o preço das passagens no transporte público, como na Alemanha, que implantou uma tarifa mensal única de € 9 (R$ 45) para todo o serviço municipal e regional de junho a agosto, estudando-se a possibilidade de sua prorrogação. Entretanto, o Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgou recentemente uma recomendação de que o aumento dos custos da energia seja repassado diretamente a todos os consumidores. Alega que isto facilitaria a troca de paradigma energético, favorecendo a substituição das fontes fósseis por fontes renováveis de energia, como a eólica ou a solar. Se isto for implementado, a dor no bolso dos consumidores seria maior. Em vários países, monumentos púbicos não serão mais iluminados durante a noite. Estuda-se até mesmo coibir a iluminação das vitrines das lojas. Quando o outono chegar e o inverno se avizinhar isto pode mudar dramaticamente o perfil de cidades inteiras. Com as noites mais longas, elas ficarão mais frias, mais escuras e potencialmente até mais inseguras. Fuso horário europeu Uma questão aparentemente secundária, mas que mereceria estudo mais aprofundado, é o da influência no consumo de energia da atual tabela de fuso horários na Europa. Há uma uniformidade de horário que vai da Espanha até a Polônia, Hungria e Albânia. Caso fosse seguido estritamente o horário solar, haveria, por exemplo, uma hora para a Alemanha, a Polônia, a Hungria e a Albânia; outra para a França e a Espanha, que seria idêntica à da Inglaterra; e ainda outra para Portugal que, de fato, tem uma hora a menos do que a vizinha Espanha, pelo horário de hoje. Algo que passa desapercebido é a relação entre o atual horário europeu e a Segunda Guerra Mundial. Até a ocupação da França pela Alemanha nazista, Paris seguia o mesmo horário de Londres, conforme acordo firmado em 1911. A ocupação nazista sincronizou o horário da capital francesa com o de Berlim - como é hoje. Foi o generalíssimo Francisco Franco, vitorioso na Espanha contra os republicanos, anarquistas e comunistas que, por razões de afinidade ideológica, ordenou a sincronização do horário de Madri com o de Berlim. Na Espanha e em regiões do oeste da França, como a Bretanha, a diferença entre o horário do relógio e o do sol chega a ser dramática, com o sol, digamos, nascendo e se pondo bem mais tarde do que deveria. Diz-se até que esta é a razão para os espanhóis almoçarem e jantarem bem mais tarde que outros povos europeus… Dificuldade de mudanças Qual seria o efeito sobre o consumo de energia se a tabela a ser seguida obedecesse ao horário solar? Esta é uma pergunta que provavelmente ficará sem resposta, pois depois de tantas décadas de vigência da atual tabela e com a crescente integração continental através de portos, estradas, ferrovias e aeroportos a quase ninguém ocorre sequer a possibilidade de mexer de novo nos fusos horários. Igualmente a quase ninguém ocorre lembrar que esta tabela de fusos horários tem por trás de si a marca da Segunda Guerra e de regimes ditatoriais como o nazista na Alemanha e o falangista na Espanha. O atual primeiro-ministro espanhol Pedro Sanchez ensaiou fazer um estudo sobre a mudança de horário, mas foi desencorajado pela própria comissão que montou para proceder ao projeto. Uma curiosidade com um condimento trágico: a afinidade entre Franco e Hitler acabou ficando restrita ao horário. Quando os dois se reuniram em outubro de 1940 na cidade francesa de Hendaye, Hitler tentou convencer Franco a aderir ao Eixo. Franco literalmente cozinhou o alemão em fogo lento, não assumindo qualquer compromisso neste sentido. Em parte, sua resistência se deveu a informações que recebera de que os Estados Unidos acabariam entrando na guerra e ocupariam a Espanha se esta se aliasse à Alemanha. Quem passou estas informações foi, nada mais nada menos, que o almirante Wilhelm Canaris, chefe do Serviço Secreto das Forças Armadas alemãs, que conspirava contra Hitler. Canaris acabou descoberto, julgado, condenado e executado no começo de abril de 1945, quando o destino do nazismo e o de Hitler já estavam selados. Em reconhecimento pelo serviço prestado, o governo espanhol concedeu uma pensão à sua viúva.

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