O Mundo Agora - Alemanha: Os votos do futuro ditarão algumas das principais políticas na nova coalizão

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Dizia o Padre Antonio Vieira, no século XVII, que a história mais importante é a história do futuro. Se olharmos a recente eleição alemã sob este ângulo, seu resultado se mostra bem mais complexo do que se a examinarmos pensando apenas no presente imediato. Flavio Aguiar, analista político O resultado final mostrou um renascimento das cinzas por parte do Partido Social Democrata (SPD), que foi o mais votado, e uma queda vertiginosa dos partidos siameses da União Democrata Cristã (CDU), da atual chanceler Angela Merkel, e da União Social Cristã (CSU), da Baviera. Ainda assim, a diferença entre ambos foi pequena. O SPD, o mais votado, ficou com 25,7% do eleitorado e 206 cadeiras no Bundestag, e as Uniões, com 24,1% e 196 cadeiras, diante de um total de 735. No momento, o SPD e seu candidato a chanceler, Olaf Scholz, estão com o baralho nas mãos para tentar formar o novo governo, num jogo de paciência misturado com canastra que pode demorar para atingir um resultado. Já o derrotado Armin Laschet, candidato das Uniões, declarou que não desiste da possibilidade de ser ele a formar o governo. Alguns analistas na mídia alemã dizem que isto parece um delírio por parte de Laschet. Porém a hipótese não pode ser descartada, até porque pela primeira vez na história recente da República Federal da Alemanha a coalizão de governo, para ter maioria no Parlamento, precisará ser formada por três partidos, ao invés de dois, como rezava a tradição. O que é certo é que em qualquer das hipóteses não haverá maioria sem o concurso dos partidos Verde, ambientalista e considerado genericamente de centro-esquerda, e o FDP, o Freie Demokraten Partei, liberal e considerado de centro-direita. Os Verdes ficaram com 14,8% dos votos e o FDP, com 11,5 %, respectivamente, 118 e 92 cadeiras. Voltando à imagem do baralho de cartas, pode-se dizer que o naipe de ouros está com o SPD e o de copas com as Uniões Cristãs. Mas já que não haverá canastra real, os coringas estão nas mãos dos Verdes e do FDP. No fundo, eles é que decidirão quem formará o governo. Aí é que se vê que há dois jogos sobre o tabuleiro das cartas. Um é o imediato: quem sucederá, nas próximas semanas, a chanceler Angela Merkel, a Dama de Espadas que está deixando a cena. O outro jogo aponta para o futuro, e seu desenho é bastante diverso daquele do jogo imediato. Entre os eleitores de menos de 25 anos, os Verdes tiveram a maior votação: 23%. Em segundo lugar, ficou o FDP: 21%. O SPD e as Uniões ficaram bem atrás, com 15% e 10%, respectivamente. Entre os eleitores que votaram pela primeira vez nesta eleição, venceu o FDP: 23%, versus 22% dos Verdes, deixando os outros a mastigar poeira. A diferença foi tão dramática em relação ao resultado geral, que há analistas dizendo que um dos partidos mais antigos indicará o chanceler, mas que os outros dois companheiros de coalizão é que ditarão algumas de suas principais políticas: direitos humanos e meio ambiente, no mínimo. Lideranças envelhecidas O quadro de idade das lideranças políticas alemãs tem fama de ser geriátrico. O presidente do país, Frank-Walter Steinmeier, oriundo do SPD, tem 65 anos. Angela Merkel tem 67, e chegou a chanceler, 16 anos atrás, com 51. Olaf Scholz tem 63 e Laschet, 60. Na extrema-direita, o verdadeiro cardeal do Alternative für Deutschland, AfD, Alexander Gauland, líder do partido no Bundestag, tem 80 anos. No outro extremo do espectro ideológico, a principal estrela no Bundestag do partido Die Linke, A Esquerda, Gregor Gysi, respeitadíssimo presidente da coalizão da Esquerda Europeia, tem 73 anos. E por aí vai. Mas o quadro muda se olharmos para os Verdes e o FDP. A candidata Verde a chanceler, Annalena Baerbock, tem 40 anos. O candidato do FDP, Christian Lindner, não fica atrás: 42. Ambos andaram convergindo para um hipotético centro. Durante a campanha, Annalena procurou seguidamente centros e associações empresariais para conversar. Por sua vez, Lindner, reconhecidamente conservador em matéria de economia, tem posições consideradas mais abertas em relação ao meio ambiente e progressistas quanto a direitos humanos e proteção de refugiados e imigrantes. Teve papel decisivo em impedir que lideranças regionais de seu partido fizessem alianças com o AfD, de extrema-direita, cuja deputada Beatrix von Storch visitou recentemente Jair e Eduardo Bolsonaro no Brasil, com repercussão bastante negativa na mídia alemã, inclusive na de direita. Algo, portanto, está se mexendo nas águas profundas da política alemã, o que certamente terá consequências na política europeia daqui para frente. Outro dado importante: entre os eleitores de primeira viagem, no sexo masculino, predominou o FDP; no feminino, o Partido Verde. O que isto significa? O futuro dirá, e, como dizia o Padre Vieira, a história mais importante é a história do futuro.

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