O Mundo Agora - China: narrativa de transição energética está longe da realidade

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Havia décadas que a China não vivia a experiência de falta de energia em praticamente todos os pontos do país. Uma conjunção de problemas desde o início da pandemia, aliados à alta no preço de commodities específicas, além do processo mal desenhado de transição energética, levaram a China a ter que tomar atitudes drásticas para que o déficit energético não prejudique ainda mais o crescimento econômico do país. Esta semana, o governo chinês determinou que a exploração e a produção de carvão em algumas províncias aumentassem, a fim de impedir um impacto ainda maior. Essa decisão, abandonando, pelo menos temporariamente, a narrativa de comprometimento com energias limpas, exemplifica a preocupação chinesa com o fornecimento energético no país. Mongólia Interior e Shanxi são as duas principais províncias produtoras de carvão no território chinês. Elas passarão a receber incentivos do governo, como isenções tributárias, para aumentar em até 10% a produção. Um outro ponto que merece atenção é que, apesar de toda a tensão existente com a Austrália, a China retomou a importação de carvão australiano, já que sua produção não está dando conta da demanda interna. A crise energética vem afetando diversas indústrias chinesas, mas em especial a de alta tecnologia. Para um país que disputa palmo a palmo a proeminência tecnológica em inteligência artificial, computação quântica e armamentos de última geração com os Estados Unidos, a deficiência energética representa um risco não só para o presente, mas para o futuro também. Dependência de fósseis Caso a matriz energética não seja rapidamente ampliada e modernizada, esse tipo de problema seguirá ocorrendo na China periodicamente. De acordo com alguns especialistas tanto em Pequim quanto em Washington, sem um investimento ordenado e pesado no setor, a China dependerá cada vez mais do carvão em momentos de crise, abandonando totalmente a narrativa de transição energética, além de poder sofrer com crises como a atual a cada três anos. Quase 75% da energia produzida na China vem de fontes fósseis. A transição energética ainda está muito longe de ser realidade, por mais que possamos ver em cidades costeiras como Pequim, Hong Kong e Xangai uma série de propagandas e anúncios governamentais sobre o futuro verde da China. É importante ressaltar que a abordagem da energia limpa foi benéfica para a China aliviar um pouco a pressão internacional em outros temas, desde que as tensões com os EUA começaram há três anos. O tema ambiental é o único ponto de convergência entre EUA e China, servindo para aliviar algumas narrativas paralelas de teor mais agressivo, como Taiwan, movimentações navais, direitos humanos e outros. No entanto, a crise atual vem mostrando a disparidade entre a vontade e a realidade. A China não consegue mudar tudo da noite para o dia e, muitas vezes, não tem interesse em fazer isso tão rapidamente. Como pular de um trem em movimento para outro, a transição energética traz um preço muito alto, que é o do freio econômico. A sobrevivência do Partido Comunista Chinês depende muito mais de resultados do que de narrativas. Se os resultados começarem a falhar, o uso da força acabará sobrando como uma alternativa indesejável.

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