“Lixo não é problema, é solução”, diz engenheiro ambiental que luta pela reciclagem no Líbano

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Ziad Abi Chaker, 53, engenheiro ambiental especializado na reciclagem do lixo, foi um dos candidatos independentes que se apresentaram nas eleições legislativas de 2022 como o rosto progressista da nova política libanesa. Mesmo se não foi dessa vez que conseguiu um assento no Parlamento, sua luta pela conscientização ambiental e pelo desperdício zero, uma bandeira que carrega há mais de 25 anos, quer trazer o Líbano para dentro da luta ambientalista que mobiliza o planeta. Márcia Bechara, enviada especial da RFI ao Líbano Ziad Abi Chaker conversou com a RFI durante um evento de campanha no bairro de Gemmayzeh, no centro de Beirute, todo construído com material feito a partir de reciclagem de embalagens recolhidas em supermercados na capital libanesa. Ele ainda é uma voz quase solitária em seu país, cuja taxa de reciclagem é uma das mais baixas do mundo. “Somos governados por uma mentalidade miliciana”, ataca Chaker. “A milícia nunca te dá nada, ela sempre toma. Ela nunca constrói, ela sempre destrói”, diz. “Estamos lutando por uma mudança total de mentalidade”, pontua. “O problema da [falta de] consciência ecológica desse país é diretamente ligado à crise econômica. Um aspecto positivo da crise econômica [no Líbano] foi que as pessoas começaram a gerar menos lixo, elas perderam poder econômico, o poder de compra. Mas o lado ruim é que ainda nos fiamos a lixões, nossa taxa de reciclagem é muito baixa. É o que estou tentando dizer às pessoas: economia não é mais importante que o meio ambiente”, afirma o ativista libanês. Apenas 9% de reciclagem Chaker contextualiza a questão ambiental no Líbano. “Antes da crise, a média de reciclagem de lixo era de apenas 9%. Isso é uma vergonha real, não podemos continuar desse jeito, e reciclar é uma maneira de relançar a economia. Quando você se encontra numa crise financeira, você precisar usar seus recursos ao máximo, mesmo se for o lixo. Para mim, o lixo é solução, não é um problema”, argumenta. A crise, no entanto, traz alguns benefícios, segundo o ambientalista libanês. “Outro aspecto positivo da crise financeira é que pesticidas e fertilizantes químicos, que são importados, se tornaram muito caros para a agricultura. Por necessidade, muitos fazendeiros pararam de utilizá-los. Eles estão confiando agora em fertilizantes naturais, isso é o que temos sugerido há muito tempo”, diz Chaker. O ambientalista comenta a incrível crise do lixo que durou mais de um ano na região da grande Beirute e deixou a cidade e vilarejos vizinhos cobertos de entulhos. “O que aconteceu em 2015 é que o governo vinha apostando na capacidade de um único lixão, disseram que ele duraria entre três e cinco anos. Eles jogaram lixo lá durante 20 anos. Mas, então, o povo falou um 'basta', fechou a estrada, e impediu os caminhões de lixo de chegarem ao lixão. Como eles não tinham um plano B, o governo ficou bloqueado, e parou de recolher o lixo durante um ano e meio”, relata o engenheiro ambiental libanês. Para ele, a crise do lixo foi uma lição para o país. “A crise do lixo foi um grito de alerta para todo mundo, vimos que estávamos administrando mal nosso lixo. Tentei ter um papel ativo mostrando que, se investirmos em infraestrutura, nosso lixo vai acabar trabalhando para nós, e não o contrário. Nosso lixo pode criar empregos, uma nova agricultura, mais atividade econômica, podemos exportar produtos derivados da reciclagem, precisamos de uma mudança total de paradigma, e é claro que a crise do lixo foi devido à corrupção, o lixo é administrado por meio da corrupção desde 1992”, conclui.

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