Curtidas, fotos, mensagens: por que as redes sociais são um pesadelo para o meio ambiente

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Uma curtida no Facebook, uma foto no Instagram, um vídeo no WhatsApp. Gestos quase automáticos da nossa vida cotidiana e que se tornaram tão normais ao ponto de substituírem as interações “reais” entre as pessoas. Mas a maioria dos usuários sequer conhece o impacto ambiental de práticas aparentemente inofensivas. Lúcia Müzell, da RFI Pegando-se o exemplo de uma simples curtida: quando você clica no coraçãozinho, seu telefone emite a “ordem” pelo modem e ela desce por cabos de cobre até a rede subterrânea, por onde vai seguir em direção ao mar. Pelos cabos submarinos, a curtida percorre milhares de quilômetros até um data center da rede social em questão, onde é registrada e armazenada. Depois faz todo o caminho inverso até a tela do seu amigo “curtido" – assim como a toda rede que terá acesso àquela informação. Tudo isso, em poucos segundos. Quem explica é o jornalista francês Guillaume Pitron, autor de uma investigação mundial que resultou no livro L’enfer numérique, voyage au bout d’un like, que pode ser traduzido para “Inferno digital, viagem até o fim de uma curtida”. “Temos dificuldade de perceber que para enviar uma curtida, mobilizamos uma estrutura que, conforme denominou o Greenpeace, é a mais vasta que o homem já construiu na sua história”, ressalta. “Essa infraestrutura que nos permite viver conectados é feita de milhões de quilômetros de cabos submarinos e centros de estocagem de dados. Uma curtida anda milhares de quilômetros até notificar o meu amigo, que muitas vezes está a dois metros de mim.” Data centers a -40°C A mesma dinâmica acontece com fotos, e-mails, vídeos e todo o tipo de interação digital entre as pessoas. Para dar conta de tanta atividade em rede, Guillaume dá o exemplo do Facebook, que construiu na Suécia um megacentro de estocagem de dados para 800 milhões de usuários europeus, africanos e do Oriente Médio. “A curtida vai quase até a Lapônia, numa cidadezinha que se chama Lulea, quase no círculo Ártico, para depois fazer o sentido contrário até sul, na Costa do Marfim, por exemplo. Nesse processo, ela ficará estocada sob dezenas de metros de neve, a -40°C – porque, acredite se puder, a curtida precisa de frio para ser estocada corretamente”, explica. “Os servidores aquecem muito, a 60°C, o que faz com que a gente não possa estocar os dados num centro onde a temperatura ambiente já é elevada.” Entretanto, esses data centers se espalham pelo mundo. Já são mais de 3 milhões em todo o planeta, afinal a questão representa também um desafio geopolítico, de soberania digital. O Senegal abriu recentemente o maior centro de dados do oeste africano. A estrutura é refrigerada 24 horas por dia, o que gera um consumo colossal de energia. Mas a maior proximidade física dos usuários também traz vantagens do ponto de vista ambiental. “A informação que transita menos efetua menos quilômetros e, conforme alguns especialistas que entrevistei para o livro, isso faria gastar menos energia”, comenta Pitron. “Porém, estamos todos numa lógica de produzir cada vez mais dados, de utilizar mais esses dados produzidos e vamos rumo a uma internet cada vez mais desenvolvida. A questão ecológica acaba nem sendo colocada, afinal a internet é poder, é dinheiro, é geopolítica”, sublinha o jornalista francês. Aparelhos descartáveis E tudo isso sem falar do lixo propriamente dito: os aparelhos, carregadores, telas, cabos e tantos outros equipamentos necessários para as conexões. A produção de telefones cada vez mais potentes exige hoje pelo menos 60 materiais diferentes, a maioria metais, afirma Pitron. “Produzimos, a cada ano, o equivalente a 5 mil torres Eiffel em lixo eletrônico. E só acumulamos mais: compramos 1,4 bilhões de celulares no mundo por ano. Já temos 34 bilhões de equipamentos de informática em circulação”, informa. “Com a expansão do universo digital, com a internet de objetos, tudo será conectado. Os carros serão, todos os objetos, os animais, as árvores, todos serão conectados porque terão uma informação que terá um valor”, constata. Como ter um comportamento mais ambientalmente responsável neste contexto? O primeiro passo é pensar duas vezes antes de enviar uma foto ou um vídeo – eles são mesmo tão importantes assim, questiona Pitron? Depois, parar de trocar de aparelho a cada ano. Para poder usar um celular pelo maior período de tempo possível, eles devem poder ser consertados e, ao fim da vida, recicláveis.

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