À Deriva #36 – Só uma chance

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Novamente, como de costume, lá está ela Dessa vez com uma calça jeans que realça as belas curvas de seu corpo, mas que escondem a sua tatuagem em forma de estrela, marcada em sua perna direita. Seus cabelos cacheados, normalmente presos, hoje estão soltos e emolduram seu belo rosto.

O maldito 307 chegou novamente no horário! Esse ônibus sempre acaba com a minha admiração platônica. Lá se vai a mulata da estrela novamente embora. Tem sido assim há alguns meses, desde a primeira vez em que a vi parada no ponto de ônibus próximo ao restaurante onde trabalho de garçom.

Não me entenda mal, não sou nenhum maníaco ou algo do tipo, acontece que ela sempre pega o mesmo ônibus na direção da periferia, bem no horário em que estou arrumando as mesas na calçada, já esperando os clientes do final de tarde.

Cara, você não tem noção de como essa mulher é linda! Linda e charmosa. Não me lembro de a ver vestindo algo impróprio ou vulgar. Eu só queria uma chance de poder conhece-la melhor.

Se eu não tentei? Você nem imagina. Teve uma vez que estava um calor terrível. Ela estava conversando com outra moça no ponto, e apontaram para cá. Meu coração acelerou mais que um formula um quando elas começaram a caminhar em direção ao restaurante. Faltando poucos metros para o encontro, seu telefone celular tocou na bolsa. Ela atendeu, começou a dar explicações, alegou que não estava mentindo, se desculpou com a amiga e foi embora discutindo com o celular.

Teve uma vez em que começou uma chuva repentina, ela estava usando uma blusinha com capuz, nada que lhe protegesse daquele temporal. Eu peguei uma capa de chuva que tinha no porta malas do carro, e fui oferecer emprestado. Quando estendi a mão com a capa dobrada, ela simplesmente recusou com um: “Não tenho dinheiro moço, obrigado”, escondendo o rosto dentro do capuz e ajeitando os grandes óculos escuros que usava. Antes que eu pudesse me explicar, ela saiu acenando para o 307.

Você dá risada? Você deveria ter visto a minha cara hoje quando entrou apressada no restaurante, conversou algo com outro garçom enquanto olhava desconfiada para a rua. Após um pequeno ataque cardíaco, resolvi entrar na conversa, ver se algo estava acontecendo, mas quando cheguei ela simplesmente agradeceu, deu uma outra espiada na rua, e foi embora.

Meu amigo, eu só queria uma chance para conhecer a mulata da estrela. Uma chance.

Já tem duas semanas desde aquele dia em que ela esteve aqui. Por mais que eu preste atenção todos os dias, não a vejo mais no horário do 307. Uma sensação de triste de oportunidade perdida invade meu coração. Talvez se eu tivesse me esforçado, falado com ela, mas agora tudo parece perdido.

– Oh, tá surdo cara?

Um cliente quase rasgando minha camisa me puxa de volta à realidade.

– Pois não senhor?

– Aumenta o volume da TV, queremos ouvir aquela notícia.

Está passando um daqueles noticiários sangrentos de final de tarde, a manchete diz: “Corpo de mulher é encontrado em carro abandonado na periferia de Nova Jericó”.

Eu não curto esses programas, a gritaria do apresentador e a falta de escrúpulos ao explorar a miséria alheia me deixa enojado. Agora está mostrando a imagem do carro, com o corpo ainda dentro e apenas uma perna para fora…

As forças das minhas pernas se vão, perco meu equilíbrio derrubando a bandeja e caindo sentado no chão. Um zumbido agudo invade o meu ouvido, e não consigo tirar os olhos da imagem gravada na perna pendendo do porta malas daquele carro.

Algumas pessoas me ajudam a levantar e me sentam em uma cadeira. Aos poucos a vertigem e o zumbido vão embora, e ouço novamente o apresentador falando do bárbaro crime passional. A mãe da moça aparece chorando na tela dizendo: “Minha filha era trabalhadora, nunca fez nada para merecer isso. Quantas vezes eu falei para ela largar aquele traste. Sempre brigando, agredindo, perseguindo. Há alguns dias ela me ligou chorando falando que precisava de uma chance, só uma chance para se ver livre”.

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Texto “Só uma chance: Alexfábio Custódio
Narração: Chico Gabriel
Edição e masterização: Chico Gabriel
Arte da vitrine: Chico Gabriel

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Duração: 00h08min29s
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