Donald Trump é o primeiro grande case de déspota digital auxiliado pela Big Tech

 
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Essa história começa com dois fenômenos paralelos.

O primeiro. Como você entrou na internet? Pode ter ouvido de um(a) amigo(a) e resolveu, lá atrás, testar a conexão discada, as salas de chat, o IRC, o fazer amigos(as) só por mensagens de texto, sem nunca ter visto a cara ou ouvido a voz. Quando apareceram, as redes sociais se tornaram porta de entrada para milhões de pessoas. Você pode ter sido uma delas — no Brasil, lá por 2007, 2008, o Orkut era sinônimo de internet, enquanto no resto do mundo eram o MySpace e, depois, o Facebook. Gente fora daquele perfil entusiasta começou a aparecer — tua tia do interior, o povo todo do colégio e da faculdade.

A mídia ganhou outro significado: você passou a acompanhar remotamente a vida de gente com quem não falava há anos. Criou-se a sensação (hoje sabemos ilusória) de transformação da vida social, de nunca mais perder contato com quem os desdobramentos da vida nos desconectou. Quando chegaram os smartphones, entrou quem faltava: quem não tinha dinheiro para notebooks e PCs ou achava a internet ainda confusa. (Pode ter sido você também, por que não?) Com o celular na mão, a internet ficou realmente democrática.

No começo, tudo que havia ali era expressão da cultura offline, a única que tínhamos. Até que começou a se formar uma cultura online, moldada pelas limitações e possibilidades dos serviços. Uma hora, o vetor se inverteu: a cultura nascida, debatida, alimentada online escorreu para o mundo real. Bem-vindo à era da comunicação por memes.

O segundo fenômeno. Em algum momento da última década, figuras folclóricas com ideias desprezíveis, daquelas que todo mundo na época descartava pelo absurdo, encontraram eco para muitas daquelas ideias. Em vez de descartadas, elas ganharam tração.

Há um fator que perpassa todos os cenários, como a globalização, o aumento da desigualdade e o empobrecimento da classe média graças à mecanização e à automação, mas não se pode ignorar fatores regionais: nos Estados Unidos, a presidência do primeiro homem negro, que instituiu políticas sociais para minorias, produziu uma reação latente em um grupo mais conservador (para não dizer racista) do eleitorado. No Brasil, a maior operação da história da Polícia Federal (PF) desvelou um esquema bilionário de propinas em algumas das maiores estatais do país para compra de apoio político, o que recuperou um bom dinheiro, alçou juízes ao estrelato e bagunçou tanto o universo político a ponto de colocar um sujeito, parte desse mesmo universo desde 1991, cuja família e empregados (como Wal do Açaí) fizeram do dinheiro público provindo da política a única forma de sustento (legal, pelo menos), como símbolo de “combate à corrupção”.

Em algum momento, os dois fenômenos se tornaram perpendiculares e se uniram, tal qual um Y deitado. O que tem no ponto mais extremo dessa junção? As cenas bárbaras que vimos da invasão do Capitólio, o Congresso dos Estados Unidos, em 6 de janeiro.

O término do mandato de Donald Trump — e sua tentativa de ter um segundo na marra — marca o fim do primeiro governo de um país realmente perpassado pela internet. Claro, já tivemos alguns métodos ou ferramentas usados em governos anteriores pelo mundo: a primeira campanha de Barack Obama foi pioneira no uso de e-mails customizados e mensagens de SMS, assim como a adoção de ferramentas para tornar a máquina pública mais amigável aos cidadãos. No Brasil, Dilma Rousseff anteviu o uso de influenciadores que apoiam políticos publicamente de graça, mas acabam com contratos ou salários do governo, com o caso Dilma Bolada.

Trump não tinha interesse em políticas de transparência ou abertura de dados como Obama. Sua presidência foi a primeira da cultura nascida na internet. Dos chans para a Casa Branca. Trump pegou o que lhe convinha de exemplos anteriores, aumentou a escala e introduziu uma série de outros métodos: do uso do Twitter como plataforma oficial de comunicação da presidência, a modelagem de dados para atingir os indecisos na campanha eleitoral (muito embora, eu sempre lembro, existam dúvidas justas sobre a efetividade da Cambridge Analytica), o apoio de milícias digitais para convocar apoiadores e espalhar mentiras no atacado, a coordenação digital que leva a violência da retórica em redes sociais para o mundo real… A lista é longa.

Todas essas ações tinham um único objetivo: criar uma espécie de culto à própria personalidade, para manter o poder em sua mão e isentá-lo de qualquer responsabilidade. Trump só pegou a parte da comunicação online, não a da efetividade, da produtividade. Aqui, a tecnologia foi usada, ao contrário da crença tecnoutópica alimentada nos últimos 15 anos, contra a democracia. Em algum café na Bielorrússia, Evgeny Morozov sorri.

Na ascensão recente da extrema-direita no cenário político mundial, a gente já tinha visto como o meme funciona como pedra fundamental para arregimentar seguidores e tornar a mensagem mais palpável para o público. Com a invasão do Capitólio em 6 de janeiro, a gente viu onde ela termina. Começa com meme, termina em golpe de estado. No Brasil, a gente está vendo os preparativos de uma cena que pode se repetir. Estamos ainda a menos de dois anos do 1º de janeiro de 2023, mas o próprio presidente já defendeu que vê um cenário semelhante se replicar por aqui.

Sem o alcance e a conivência controversa das redes sociais, seria mais difícil termos Donald Trump ou Jair Bolsonaro.

O primeiro episódio da terceira temporada do Tecnocracia vai falar sobre como todo fascista autoritário que chegou ao poder no último século dependeu de um manual que segue, mais ou menos, as mesmas linhas, com um fio condutor muito relevante: a capacidade de usar a ferramenta de comunicação mais popular da sua era. É aí que entra a responsabilidade das maiores empresas de tecnologia do mundo — que, hoje, se desdobram nas maiores empresas de comunicação da história.

Em novembro, a pesquisadora e professora da Universidade de Nova York Ruth Ben-Ghiat publicou um livro chamado Strongmen: Mussolini to the present (ainda sem edição no Brasil), mas que poderia se chamar “Strongmen: Mussolini to the president”. Nele, Ben-Ghiat explora o conjunto de instruções que guia a ascensão e a manutenção de poder de demagogos autoritários, de Mussolini a Vladimir Putin, passando por Donald Trump. Ao estudar figuras como Mussolini, Hitler, Putin, Mobutu Sese Seko, Augusto Pinochet, Muammar Gaddafi e Silvio Berlusconi, Ben-Ghiat foi capaz de encontrar pontos comuns entre eles e montar uma espécie de “manual” com as técnicas e hábitos que os absolutistas modernos empregam na sua ânsia por poder duradouro.

Em comum, essas figuras nutrem uma mitologia da própria imagem, de homem forte, único capaz de tirar a nação dos imensos problemas no quais ela está afundada — o sujeito faz questão de lembrar constantemente desses problemas, sempre com tintas fortes, adjetivos definitivos, evocando um passado dourado (que, na verdade, nunca existiu). As instituições não são suficientes para ajudá-lo nessa cruzada. Na verdade, elas só o atrapalham. Tal qual frase apócrifa atribuída a Luis XIV, que a teria dito em 1655, aos 27 anos, em frente ao Parlamento francês, esses novos homens autoritários alegam que “o Estado sou eu”.

Não há incompetência, inépcia, incapacidade administrativa — todas as falhas no governo são imputadas a outros. O Judiciário ata-lhes as mãos, a imprensa mente, as agências de controle só dificultam sua vida. Para que tê-las? Desengatilha-se um processo de desmonte de instituições e ataques à imprensa. Se um jornal critica, é porque os investimentos em anúncios foram cortados pelo “líder íntegro” (várias aspas). O único que fala a verdade é o líder absoluto. Essa crença na blindagem extrema se estende ao seu círculo íntimo — se um filho está sendo investigado, não é por que ele, de fato, cometeu um ilícito, mas trata-se, sim, de um plano para minar a imagem do líder, de perseguição para tentar impedi-lo de dar ao povo o que o povo tanto precisa. “Nenhum outro tipo de líder é tão transparente em priorizar o interesse próprio sobre o bem comum”, resume Ben-Ghiat.

Esse homem (porque são sempre homens, pode ver a história do autoritarismo político e contar quantas mulheres você encontra) segue um manual agora mais ou menos claro para caminhar em direção ao absolutismo: não existe legislação, constituição, código penal, pacto civilizatório. O que existe é a vontade soberana de um sujeito egocêntrico, ignorante e paranóico. O que a ciência, construída durante milênios por milhões de humanos, sabe mais que esse sujeito? Para ele, nada. As mentiras lhe servem de pilar, arma de ataque, escudo, método. Para destruir quem lhe critica vale inventar as piores mentiras possíveis, as acusações mais levianas, justificativas sem qualquer sentido na realidade. Todo governo mente, mas, nestes especificamente, a mentira é a cola que o mantém de pé. O sequestro dos símbolos nacionais e o uso constante e deturpado do patriotismo significa que quem discorda do sujeito não é patriota. Ao se “camuflar” de símbolo nacional, o líder autoritário se embaralha com a noção de país — não gostar dele é desprezar e atacar a própria nação. Impor-lhe qualquer limite, inclusive os limites legais de uma democracia, os famosos freios e contrapesos, também1.

Todos os sujeitos estudados pela Ben-Ghiat — Mussolini, Hitler, Putin, Mobutu, Pinochet, Gaddafi, Berlusconi e Trump — seguiam, em maior ou menor grau, essas máximas. Se você também lembrou do atual presidente do Brasil, você está 100% sã(o): ele não é foco do livro da pesquisadora, mas é inegável o quanto o manual reflete seu estilo, ou vice-versa. Agora, o foco que eu quero dar para essa discussão é em uma área específica do líder autoritário: a comunicação.

“A chave é que eles precisam ter uma conexão não-mediada e direta pelo canal midiático da vez com seu público. Mussolini tinha os cinejornais (os newsreels, segundo a Luciana Gimenez). Hitler também usava cinejornais, mas sua ferramenta preferida era o rádio. Ele tinha uma voz peculiar que o tornava tão emocional que as pessoas sentiam uma ‘conexão íntima’ com ele”. Essa ‘intimidade’ existe em toda era de comunicação da história. Os (políticos) que mais tiveram sucesso foram os que melhor souberam manipular essas ferramentas”.

Existe um paradoxo aqui que Ruth Ben-Ghiat frisa: quanto mais essas pessoas são habilidosas em lapidar uma imagem pública e manipular os desejos das multidões (algo que ela chama de “política midiatizada”), mais elas parecem autênticas. É aquela história do esforço enorme para parecer despreocupado. E dá resultado.

Cada líder autoritário do seu tempo soube como explorar a então ferramenta de comunicação do momento a seu favor. Como os cinejornais eram, inicialmente, mudos, Mussolini explorava trejeitos corporais e expressões exageradas para marcar posições ou enfatizar episódios. “Ele era incrivelmente efetivo”, explica Ben-Ghiat. Muitos líderes autoritários eram profissionais da comunicação: Mussolini e Mobutu (ditador do Zaire de 1965 a 1997) eram jornalistas, Trump sempre foi uma figura da mídia tanto quanto um empresário (fora O Aprendiz, vide como ele sempre pedia uma participação em contrapartida nos filmes gravados em seus hotéis). O Terceiro Reich desenvolveu um rádio popular chamado Volksempfänger porque Joseph Goebbels, ministro da propaganda do regime nazista, entendia o seu potencial para o discurso político. Era preciso que um número enorme de alemães tivesse um rádio em casa para ouvir os discursos de Hitler.

Rádio Volksempfänger.
Rádio Volksempfänger.

Você percebe aonde estamos indo, né? Os cinejornais eram uma nova forma de comunicação quando Mussolini o abraçou. O rádio era uma nova forma de comunicação quando Hitler o abraçou. A extrema-direita foi a primeira a entender como usar as redes digitais para modernizar o manual do líder autoritário com o objetivo de sustentar um poder duradouro.

A grande vantagem percebida lá atrás foi a capacidade de criar um mundo paralelo e fraturar a percepção compartilhada de realidade. Antes da internet, a mídia funcionava como um fio condutor comum a todos — existiam problemas, claro, mas também era a garantia de que todos compartilhávamos os mesmos fatos que ajudam na nossa construção de realidade. Com as câmaras de eco criadas na internet, esse feito perde força, se fragmenta. Se você martelasse a mensagem pelos canais oficiais, as milícias digitais a repetiriam e a ampliariam e as redes sociais aumentariam seu alcance. Fechadas em comunidades que corroboravam suas crenças e ignorando esses fatos básicos, milhões de pessoas acreditariam no delírio criado pelo líder supremo e, principalmente, estariam prontas para agir na tentativa de “corrigir injustiças”.

Trump começou a criar essa realidade paralela em seu perfil no Twitter e, conforme suas chances de sucesso na eleição de 2016 aumentavam, conquistou o apoio da Fox News e de influenciadores digitais. Empossado, seus secretários de imprensa engrossaram o caldo do delírio. Basta lembrar da primeira coletiva de imprensa da gestão Trump em que Sean Spicer, o secretário de imprensa, declarou que “essa foi a maior audiência a presenciar uma posse presidencial. Ponto”, ainda que as fotos claramente mostrassem um público menor que o da posse de Obama, oito anos antes. A ascensão do QAnon deu um pano de fundo e transformou estratégia política em jogo — qualquer palavra ou ação de Trump era um sinal a ser decifrado. Virou uma espécie de RPG coletivo e delirante. A realidade se fraturou2.

Duas fotos, lado a lado, mostrando a quantidade de pessoas que foram à posse de Obama em 2009 e Trump em 2016.
Posse de Obama em 2009 (à esquerda) e de Trump em 2017. Montagem: PBS.

Só que existe um limite para essa fratura da realidade. Você pode se fechar no seu Zap, Telegram, Facebook e o escambau para falar sobre vacinas, golpes e “pedófilos satanistas”, mas alguns acontecimentos são fura-bolha: eles ocorrem em uma realidade compartilhada e sancionada por todos, independentemente do que diz sua câmara de eco. Não existe melhor fura-bolha que as eleições. É aí que todos somos tirados das bolhas em que os algoritmos nos colocaram e temos a realidade esfregada na nossa cara.

O primeiro fura-bolha dos EUA foi em 7 de novembro de 2020, quando as redes de TV declararam Joe Biden o vencedor. Para driblar a realidade, o QAnon fez o que faz de melhor: mentiu de novo. Criou-se a narrativa de que Trump tinha perdido de propósito para prender Biden e centenas de “pedófilos satanistas” na posse. Essa narrativa alimentou a virulência da base trumpista e QAnon nos meses seguintes. A invasão de 6 de janeiro estava mais telegrafada que o drible do Garrincha. Veio a posse e, com Biden empossado e sem algemas, o segundo balde de água gelada — a realidade se impôs ao delírio. Uma boa sensação: ver quem acreditou no QAnon se ligar que era mentira.

No Brasil, a gente teve dois grandes momentos fura-bolha nas eleições municipais de outubro. No primeiro turno foi o derretimento do bolsonarismo. No segundo, a esquerda tuiteira vendo candidatos de centro (ou do Centrão) levando. Mas isso é assunto para outro Tecnocracia.

A questão é que esse plano de criar realidades paralelas só dá certo com a conivência das redes sociais. E, rapaz, isso elas entregaram muito bem. Desde que foram fundadas, Facebook, Google e Twitter adotam um discurso de liberdade total, não por ideologia, mas por estratégia de mercado. “Nós somos a dissidência do discurso livre dentro do partido do discurso livre”, disse o diretor-geral do Twitter no Reino Unido, Tony Wang, em 2012. Ao se colocarem apenas como provedoras de plataformas, as redes tiravam de si a responsabilidade de moderar o que o público colocava lá. A gente já falou no que isso deu aqui: ao não arbitrar o discurso, a escória da humanidade se sente amparada para explorar a capilaridade da maior rede social do mundo para atingir um novo público para teorias criminosas.

Vamos parar um pouco para entender do que não estamos falando aqui. Trump, Bolsonaro e Brexit não são resultados puramente da tecnologia, como se qualquer um que se apossasse das máquinas, dos trejeitos, e desenvolvesse uma compulsão não saudável pela mentira pudesse atingir o mesmo sucesso político. Todos surfaram ondas que já vinham se formando há anos. Em 2009, o comediante Jon Stewart deu uma entrevista ao David Letterman comentando como achava estranho Barack Obama ser o sucessor de George W. Bush. Nas palavras de Stewart, Bush era o estudante da sexta série que fazia apresentação sobre um livro sem nunca ter lido, enquanto Obama era o estudante que já tinha o lido na primeira série e “não acredita que vocês idiotas ainda estão entretidos com ele”. Essa “sobre correção” (ou o que a Lu chama de overcorrect) faz ainda mais sentido se a gente considerar quem é o sucessor de Obama. Nos EUA, há uma alternância quase perfeita entre Democratas e Republicanos no último século. No Brasil, desconfia-se de um efeito semelhante após quase 14 anos do PT na presidência, mas ainda precisamos de mais tempo para entender a dinâmica dessa alternância: após a democratização, a centro-direita ficou no poder de 1984 a 2001, 17 anos, até que Lula foi eleito. Até agora, o pêndulo por aqui tem sido mais demorado.

O ponto é, se todos esses líderes autoritários surfaram uma onda, a tecnologia deu uma prancha sólida (e não aquelas de isopor que toda criança da década de 1980 quebrou ao meio) e, em alguns casos, aumentou ainda mais a altura das ondas. A gente já falou aqui no Tecnocracia #35: se Fernando Haddad, rival de Bolsonaro na eleição presidencial de 2018, tivesse montado a mesma estratégia de comunicação do atual presidente, com centenas de grupos de WhatsApp e donos de populares páginas de memes dando apoio, ele continuaria sem entrar no Palácio do Planalto. Mas é inegável que a estratégia de comunicação de Bolsonaro só deu certo pelo uso de WhatsApp e Facebook somado ao desinteresse de ambos em aplicar suas políticas, por exemplo, de envio em massa.

Bom, pelo menos a gente viu qual era o limite da inatividade das redes sociais: uma literal milícia armada que invade o Congresso com o objetivo de invalidar a eleição e dar um golpe na maior democracia do Ocidente.

Com as cenas medonhas do último dia 6, caiu o primeiro dominó da desplataformização, como bem definem Ethan Zuckerman e Chand Rajendra-Nicolucci, do Knight First Amendment Institute, dentro da Universidade de Columbia: Twitter e YouTube deletaram vídeos em que Trump enaltecia os golpistas, o Facebook congelou a conta até o fim do mandato e o Twitter baniu sua conta. Assim como já tinha acontecido com Alex Jones em agosto de 2018, o movimento de uma Big Tech desencadeou ações idênticas nas demais. Na época, Jones argumentou que sua desplataformização o fortaleceria. Ele estava errado.

O banimento marca o começo de uma nova fase? Que lindo seu otimismo, bonitinho(a). Banir Donald Trump era o que Luciana Gimenez chamaria de “low hanging fruit”, a fruta madura à altura do rosto que até uma criança pode colher de tão fácil. Trump incitou uma insurreição antidemocrática e estava a semanas de sair do poder. Os gritos de “CENSURA” ecoados por veículos e influenciadores de extrema-direita não passam de um delírio: como empresa privada, o Twitter tem todo direito de escolher a quem servir, principalmente se as ações ferem suas regras internas.

Vale lembrar aqui que, dentro de uma sociedade civilizada, nenhum discurso é 100% livre. Ele é limitado pela legislação. No Brasil, por exemplo, defender ataques à democracia e enaltecer regimes ditatoriais, como a Ditadura Militar de 1964, é crime (ainda que, desde a ascensão de Bolsonaro, a gente tenha visto episódio atrás de episódio de crimes do tipo impunes). Para as redes sociais, existe mais uma camada: as regras internas de cada uma delas. Quando a pandemia de COVID-19 se mostrou séria, todas as plataformas criaram suas próprias políticas para conter a desinformação sobre o vírus. Executar essa política é outra história.

Assim que a novena de defensoras do discurso livre começou a mostrar algumas das consequências nefastas de tal postura, as redes sociais adotaram um método morde-assopra, como já destrinchado no último Tecnocracia da segunda temporada: apaga o incêndio quando aparece, joga um copo de água, posa para as câmeras e, quando todo mundo for embora, deixa o incêndio queimar. Faça o mínimo possível para mudar o mínimo possível.

A invasão do Capitólio é consequência direta desse método. Em outubro, o departamento de relações públicas do Facebook colecionou reportagens falando que a rede social estava se preparando para a eleição e tomando medidas para prevenir a desinformação. Assim que o pleito acabou oficialmente, o próprio Facebook desmontou a própria máquina.

Assim que o ataque aconteceu, o Facebook tentou se defender dizendo que as milícias armadas tinham se organizado em chans. Era mentira: uma parte importante da mobilização tinha acontecido dentro do Facebook. O jornal The New York Times foi mais fundo e mostrou como o Facebook passou a recompensar usuários que publicassem desinformação sobre COVID-19 e fraudes eleitorais, com ameaças de ataque ao Capitólio, com ainda mais engajamento. “Os algoritmos do Facebook incentivaram muita gente a compartilhar visões mais extremas na plataforma — recompensando-as com curtidas e compartilhamentos em assuntos como conspirações eleitorais, negacionismo sobre COVID-19 e retórica antivacinação. Nós revisamos o histórico de posts públicos de dezenas de usuários ativos do Facebook nesses espaços. Muitos se transformaram da noite para o dia. Há uma década, suas personas online não se pareciam em nada com a atual”, diz a reportagem, que cita casos de norte-americanos que estiveram no ataque ao Capitólio e se organizaram pelo Facebook. A resposta foi a de sempre no método morde-assopra: o Facebook mordeu e tirou alguns grupos do ar. Quando ninguém estiver olhando, os grupos voltarão e o Facebook soprará a brisa de um Halls preto chupado numa noite de julho em Curitiba.

Existe um outro exemplo, mais próximo de nós, de como o banimento de Donald Trump não nos colocou em uma nova era. Os desdobramentos de 6 de janeiro e uma onda de cobranças online fizeram o Twitter se movimentar para marcar como mentiroso e/ou excluir tuítes de membros do governo, incluindo o presidente brasileiro e o Ministério da Saúde, e seus simpatizantes. Foram cinco tweets entre os dias 15 e 16 de janeiro a respeito do “tratamento precoce”, expressão que bolsonaristas usam para empurrar a mentira da eficácia da cloroquina no combate à COVID-19. A ação do Twitter foi recebida com aplausos, mas só até a página dois. Se uma mão pune, a outra afaga. Na mesma semana, o Twitter não só acolheu como deu um selo de perfil verificado a Tércio Arnaud Tomaz, um dos pilares do Gabinete do Ódio. Por semanas, Arnaud teve liberdade verificada para espalhar mentiras sobre a COVID-19 sem qualquer sanção do Twitter. Em 25 de janeiro, a conta foi bloqueada por 12 horas como punição. É pouco: o nome de Arnaud é citado literalmente no inquérito de atos antidemocráticos do Supremo Tribunal Federal (STF), por trás de campanhas de desinformação que, além de atacar rivais políticos com mentiras, defendem tratamentos não efetivos contra COVID-19 e a dissolução do Congresso Nacional e do próprio Supremo.

Enquanto Arnaud — de novo, um sujeito literalmente citado no inquérito de atos antidemocráticos do STF por coordenar campanhas que defendem o ataque às instituições democráticas — espalhava suas mentiras, a principal executiva do Twitter na América Latina, Fiamma Zarife, enaltecia trechos do discurso de posse de Joe Biden sobre democracia. Ao que parece, a defesa da democracia vale mais para a democracia dos outros.

Ainda que o Twitter tenha um ataque de consciência e o tire do ar por infringir suas regras, a solução não é suficiente. Se tabularmos todas as sanções impostas pelo Twitter a figuras políticas do Brasil por divulgação de desinformação, nota-se um padrão claro: começa em março de 2020, quando tweets de Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro e Ricardo Salles são deletados por espalhar mentiras sobre COVID-19. No começo da pandemia, parecia que a rede ia ter um papel ativo. Era alarme falso. Durante oito meses, o Twitter não aplicou mais nenhuma punição. Foi durante esse período que criou-se a falácia da cloroquina e a de que distanciamento social não resolve, ambas apoiadas e propagadas pelo presidente e pelo Governo Federal. As próximas punições aconteceriam só em novembro, no período eleitoral: Joice Hasselmann, Filipe Barros e Oswaldo Eustáquio tiveram tuítes alegando fraude eleitoral carimbados como mentira. Dois meses de silêncio e cinco tuítes carimbados ou apagados agora em janeiro sobre COVID-19.

O que houve nessas três ondas? Pressão popular. O Twitter fez seu trabalho só quando tinha gente cobrando. De novo, não é exclusivo do Twitter — a Big Tech opera assim. Ao executar as próprias regras a conta-gotas, já está claro que as redes desempenham papel de editoras. O que vão ter que decidir agora é se serão editores efetivos ou editores porcos. Sem muita surpresa, a escolha tem sido pelo porco, pela leniência, pelo teatrinho. Fazer o mínimo possível para aplacar a revolta popular. A reportagem do NYTimes sobre os grupos QAnon no Facebook define bem: “os influenciadores acumulam seguidores, melhoram suas reputações online, solicitam doações ocasionais e, talvez, vendem algumas camisetas. O resto de nós é deixado com uma democracia empenada sob o peso de cidadãos vivendo em uma realidade alternativa”.

O banimento de Donald Trump não mudou isso3. Além de manter os mesmos problemas, deixou claro um outro: as plataformas têm muito poder e o usam quando querem. Uma voz destoou após o banimento de Trump: Angela Merkel. “Esse direito fundamental pode ser interferido, mas de acordo com a lei e dentro de um framework definido por legisladores — não de acordo com a decisão da gerência de plataformas sociais. Visto desse ângulo, a chanceler considera problemático que as contas do (então) presidente dos EUA tenham sido permanentemente bloqueadas”, disse o porta-voz de Merkel aos repórteres. Merkel, à frente de um país que teve problemas sérios e definiu leis rígidas contra discurso de ódio, tem razão.

Trump foi o primeiro grande case de projeto de tirano que usou tecnologias contemporâneas (smartphones, redes móveis, redes sociais) contra uma democracia estabelecida. Enquanto a Big Tech não fechar as portas que continuam escancaradas, outros, já cientes do caminho e das razões pelas quais a primeira tentativa não deu certo, tentarão. E, para fechar essas portas, é bom que o controle não esteja totalmente na mão de quem já deu indício atrás de indício de possuir uma régua ética terrível. Porque com certeza nós teremos novas tentativas. A próxima, inclusive, já tem data e local: outubro de 2022, sessão eleitoral perto da sua casa. Golpes que não dão certo costumam levar a golpes que dão.

Foto do topo: Tyler Merbler/Flickr.

  1. Tem aqui outra opção mais conhecida e traduzida para o português de livro para entender como esses neo-déspotas estão desmontando a democracia por dentro: Como as democracias morrem, dos pesquisadores de Harvard Steven Levitsky e Daniel Ziblatt.
  2. Aqui existe uma dúvida sobre o envolvimento direto do Trump na ascensão do QAnon. Livros a serem escritos nas próximas décadas darão mais detalhes desse elo (ou da falta dele).
  3. Ainda que, temporariamente, tenha derrubado em 73% o volume de conteúdo contestando a lisura das eleições, segundo pesquisa da consultoria Zignal Labs.

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