Recortes do poema: Canto de companheiro em tempo de cuidados - Thiago de Mello

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Por Marcella ☉☽ @sementeviva descoberto pelo Player FM e nossa comunidade - Os direitos autorais são de propriedade do editor, não do Player FM, e o áudio é transmitido diretamente de seus servidores. Toque no botão Assinar para acompanhar as atualizações no Player FM, ou copie a feed URL em outros aplicativos de podcast.
Contigo, companheiro que chegaste, desconhecido irmão de minha vida, reparto esta esmeralda que retive em meu peito no instante fugitivo mas infinito em que se acaba a infância, porque a esmeralda não se acaba nunca. Reparto, companheiro, porque chegas a este caminho longo e luminoso mas que também se faz áspero e duro, onde as nossas origens se abraçaram dissolvendo-se em paz as diferenças, engendradas na vida pela força feroz com que desune o mundo os homens que feitos foram para cantar juntos porque só juntos saberão chegar para a festa de amor que se prepara. (...) O tempo é de cuidados, companheiro. É tempo sobretudo de vigília. O inimigo está solto e se disfarça, mas como usa botinas fica fácil distinguir-lhe o tacão grosso e lustroso que pisa as forças claras da verdade e esmaga os verdes que dão vida ao chão. O tempo é de mentira. Não convém deixar livre o menino da esmeralda. Melhor é protegê-lo da violência que amarra a liberdade em pleno vôo. A sombra já desceu, e muitas fauces famintas se escancaram farejando. Cuidado, companheiro, esconde a rosa, espanta a mariposa colorida, é perigosa esta canção de amor. Cada um no seu lugar, na sua vez, não descuidar na espreita do inimigo, que não dorme jamais e é cheio de olhos. E derramar a luz, no instante certo, sobre a garra soturna do seu rosto. É uma espera que dói, mas o que vale é ter o coração por cidadela, acender uma tocha em cada metro de terra conquistado e trabalhar melhor, para que o chão floresça mais e o trigo erga bem alto o seu pendão para a festa de amor, larga e geral, onde a fome afinal não vai dançar, porque não comerão somente eleitos, porque são todos os que comerão. É por isso que estamos todos juntos: a nossa força tem o sortilégio da seiva torrencial da primavera, e o nosso amor palpita como os ímpetos das águas amazônicas profundas. É cantar, companheiro, e repartir o que é preciso ser do amor geral. Ninguém será sozinho nunca mais, nem na solidão, nem no poder. Sempre contigo irei, e é quando canto que te defendo, e deito em tua lâmpada um azeite que dura a treva inteira nesses tempos de cinza em que a vigília, espada em flama erguida como a rosa, só poderá cessar quando outra vez, envergonhada, regressar a aurora, que vai lavar de luz o chão amado, e seremos de novo e simplesmente meninos repartindo as esmeraldas.

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