As concessões que Lula deve ou não fazer para o empresariado em troca de apoio

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Após um resultado mais apertado do que previsto no primeiro turno, as campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro estão em plena corrida pelo voto a voto. Empresários da classe produtiva e financeira, apelidados de ‘o PIB’ do Brasil, aproveitam o momento para pressionar os candidatos por garantias quanto à futura política econômica, em troca de apoio neste período crucial entre os dois turnos. Antes de 2 de outubro, o empresariado se posicionava na direção de Lula, até então apontado pelas pesquisas como o mais provável vencedor do pleito. Mas os resultados da votação mudaram esse cenário – muitos dos que tinham declarado apoio ao ex-presidente agora preferem se calar, ante à possibilidade de Bolsonaro reverter a derrota anunciada. Na esfera empresarial, o atual presidente, e sobretudo seu ministro da Economia, Paulo Guedes, desfrutam da preferência política, conforme mostrou pesquisa do Datafolha nas vésperas das eleições. “Agora eles têm mais convicção para pressionar Lula. Eles falam ‘tudo bem, eu continuo te apoiando, ou posso até te apoiar, mas baixe a bola'. Então a pauta, que já era razoavelmente clara, do respeito ao teto de gastos começa a ter uns ganchinhos mais específicos: a questão de estatais, evocada na semana passada, sobre privatizações, o que fazer com a Petrobras etc., e a da política industrial”, aponta o economista-chefe do Banco Fator, José Francisco Lima Gonçalves, que também é professor da USP. “Esse pessoal não quer o Lula porque sabe que vem uma política industrial que, para eles, é uma coisa sem sentido, é uma intervenção descabida do Estado.” Movimentações arriscadas O momento, agora, é de conciliar as exigências na economia dos novos aliados da terceira via, Simone Tebet e o PDT e Ciro Gomes, assim como entidades poderosas como a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), que promoveu a carta Em Defesa da Democracia e da Justiça no primeiro turno. O PSDB também reforça o apoio, mas rejeita a ideia de dar um cheque em branco ao PT. Todos pressionam para Lula ser mais específico sobre o programa de governo e revelar os nomes à vista para as pastas econômicas. Mas, para Lima Gonçalves, movimentações nesse sentido seriam arriscadas para o candidato. O economista avalia que Lula tenderá a optar por sinalizações estratégicas em vez de revelações, a exemplo dos elogios que fez ao atual presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. “Ele tem muito pouco a ganhar, nessas duas semanas, se ele avançar na divulgação do programa. Se ele fala alguma coisa bacana para o mercado, o mercado vai querer mais. E se ele dá um passo para trás, os caras vêm para cima – e é obvio que o pessoal do varejo e do agro vão junto. Eles estão atentos a tudo que tem a ver com o sentimento anti-Dilma – afinal, não dá realmente para dizer que são anti-Lula na economia", ressalta. "Mas tem coisas que serão inevitáveis e não adianta ficarem esperneando. A parte das estatais, esquece. A mesma coisa é a política industrial: vai ter e vai ser explícita, ativa”, sublinha o economista. Empresários “pragmáticos” O professor de Ciência Política da PUC e da FGV de São Paulo Francisco Ferreira considera que, para além das preferências políticas, os empresários mais preocupados com o ambiente de negócios preferem a saída de Bolsonaro. “A questão da industrialização é muito importante, um debate sobre a reforma tributária, refazer o pacto federativo, toda a questão de uma economia verde, de baixo carbono, são pontos que podem ter muitas confluências”, observa. “Eu vejo o quadro do capital no Brasil, que é muito articulado com o capital internacional, dividido. Mesmo no agronegócio, há setores apoiadores do Lula, como a própria Simone Tebet e a Kátia Abreu. O Blairo Maggi, maior produtor de soja do mundo, apoia o Lula e foi ministro dele, inclusive.” Fonseca lembra que o atual presidente misturou o viés ideológico à economia, chegando a causar constrangimentos com o principal parceiro comercial do Brasil, a China – de modo que é visto com desconfiança por parte ‘do PIB’ brasileiro, em especial os mais conectados às exportações. “O empresário é pragmático. É claro que você tem o empresariado ideológico, como os Luciano Hang da vida, ou esses que queriam, num grupo de WhatsApp, financiar um golpe. Estamos falando de um grupo de empresários que querem a completa proteção do Estado aos seus negócios, num total descompromisso com o país e a democracia”, afirma. “Por outro lado, os pais do Plano Real, que não são empresários, mas são economistas, vários segmentos do que chamamos da Faria Lima, o Henrique Meirelles, o Gustavo Franco, o Pedro Malan, todos porta-vozes do empresariado, estão aderindo ao presidente Lula", salienta.

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