Falta de mão-de-obra prejudica a retomada do setor hoteleiro e de restaurantes na França

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Passada a pandemia de Covid-19, os clientes e turistas voltaram mais rapidamente do que o esperado. O desafio, agora, é encontrar funcionários para os setores hoteleiro e de restaurantes da França. Com baixa atratividade, as contratações estão paralisadas. Além de prejudicar a qualidade do atendimento, a falta de mão-de-obra obriga os empresários a limitarem as atividades, justo quando o movimento começa a aumentar com a proximidade do verão. A brasileira Vanessa Costa vem se preparando há cinco meses para a retomada dos negócios. Dona de um restaurante e prestes a abrir um segundo estabelecimento, nos arredores de Paris, ela pode ter de adiar a inauguração. “Eu preciso de 10 pessoas para abrir esse novo restaurante. Só consegui contratar 5 e temos apenas uma semana para contratar o restante”, disse em entrevista à RFI. Ela conta a dificuldade do recrutamento, que começou há um mês. Porém, os candidatos que comparecem para as entrevistas estão cada vez mais exigentes. “Como é restaurante, a gente tem horários difíceis, de noite e finais de semana. Então, o pessoal não está querendo mais este tipo de trabalho. Está bem difícil, o pessoal quer trabalhar de segunda à sexta”, afirma. Vanessa contava em abrir a nova casa diariamente. Mas os planos devem mudar. “A gente está pensando em abrir menos. A ideia era trabalhar 7 dias da semana, já pulamos para 6 e agora estamos pensando abrir só 5 dias porque realmente não conseguimos formar equipe”, lamenta. Além disso, “vamos ter de fazer duas equipes mesmo, pois não tem como ter uma equipe que venha de manhã e à noite. E o salário tem de ser mais motivador, senão as pessoas não vêm.” Salários devem ser mais atraentes Em média, os salários do setor variam entre € 1.500 a € 4.000, ou seja, o salário mínimo francês, equivalente a R$ 7.500 a até R$ 20.000 nos endereços mais prestigiosos. A escassez de funcionários, algumas semanas antes de uma temporada turística promissora, preocupa os empresários. Em todos os departamentos franceses, há falta de pessoal e grande oferta de vagas para trabalhar na cozinha, arrumar quartos, fazer limpeza e receber clientes de hotéis, bares e restaurantes. A rede hoteleira Best Western France, por exemplo, procura entre 500 e 600 pessoas para seus 300 hotéis: há vagas para governantas, auxiliares de cozinha, recepcionistas e garçons. “Com uma taxa de ocupação de 65%, conseguimos aguentar”, assegurou o seu diretor-geral, Olivier Cohn, em entrevista ao jornal Le Figaro. “Treinamos nossos funcionários para serem mais versáteis: recepcionistas participam do café da manhã ou do serviço de bar, por exemplo. O que nos preocupa é este verão”, completa. Não é de hoje que profissionais do turismo têm dificuldades para recrutar. Entretanto, a escassez de mão-de-obra nunca foi tão intensa. A pandemia diminuiu a atratividade de empregos que são mais difíceis de conciliar com a vida familiar. Durante os confinamentos, 110 mil pessoas deixaram o setor. E após meses de restrições sanitárias, muitos não retornaram ao trabalho ou mudaram de atividade. “Estamos prontos para acolher qualquer tipo de perfil que possamos formar, como jovens, idosos e desempregados de longa duração”, afirma Roland Héguy, presidente do Sindicato dos serviços de Hotelaria (Umih). “Antes da Covid-19, já havia 150.000 cargos vagos”, afirma Vincent Sitz, presidente da Comissão de Emprego e Formação de Independentes (GNI) e proprietário de um restaurante no Museu do Louvre, em Paris. Como os funcionários não querem mais fazer concessões em suas vidas pessoais, cabe aos patrões se adaptarem, ele explica à reportagem do Figaro. “Antes, as empresas impunham um cronograma. Agora, eles devem aprender a ser flexíveis e levar em consideração as necessidades dos funcionários”, completa. A maioria dos restaurantes franceses não está operando em plena capacidade. "Ao meio-dia, eu limito o atendimento a 140 lugares no terraço, quando podíamos atender 200", lamenta Sitz. O Sindicato dos Trabalhadores do Turismo e Restaurantes da região de Île de France aponta duas causas para a escassez de mão-de-obra. “Há dois problemas. A faixa salarial e as condições de trabalho”, aponta Pascal Pedrak, secretário-geral, em entrevista à RFI. “Há muito tempo não há nenhuma valorização salarial nesse setor. Houve uma pequena recuperação, nos últimos meses, mas havia muita gente que ganhava abaixo do salário mínimo”, explica. “Outro problema são as condições de trabalho, porque é uma atividade muito difícil. As pessoas começam muito cedo e terminam tarde, com paradas durante a tarde, mas elas não têm tempo de voltar para casa. Tem trabalho em feriados, fins de semana, para a vida social e familiar é extremamente complicado,” observa o sindicalista. Ele explica que somente uma negociação eficiente poderá evitar que os turistas fiquem decepcionados com os serviços na temporada de férias, que começa em breve. “A bola está no campo das organizações patronais. Mas elas não conseguem chegar a um acordo. É preciso sentar à mesa e negociar. Nós não exigimos o impossível”, diz. “Sabemos bem que o trabalho em restaurante inclui o fim de semana e a noite, feriados, mas há possibilidades de valorizar essa problemática do ponto de vista do salário ou outra compensação. Estamos prontos a negociar”, conclui. Enquanto não conseguem contratar, alguns estabelecimentos mudaram os horários de abertura. Uma solução temporária e que desperdiça as chances de recuperação econômica de um dos setores que mais sofreram com a pandemia. “Há restaurantes que mudaram horários de trabalho por falta de profissionais. Em vez de fechar às 23h, eles fecham às 22h. Mas essa não é a solução”, destaca Pascal Pedrak. “A solução está numa negociação inteligente com os empresários para encontrar ofertas positivas para os assalariados que lhes deem vontade de voltar. Pois esse é o problema, atrair pessoas que saíram dessa atividade para fazer outra coisa”, finaliza.

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