França: Fim das restrições leva “indústria da Covid” a se reposicionar

6:29
 
Compartilhar
 

Manage episode 328854796 series 57993
Por France Médias Monde and RFI Brasil descoberto pelo Player FM e nossa comunidade - Os direitos autorais são de propriedade do editor, não do Player FM, e o áudio é transmitido diretamente de seus servidores. Toque no botão Assinar para acompanhar as atualizações no Player FM, ou copie a feed URL em outros aplicativos de podcast.
Com o fim de praticamente todas as restrições sanitárias contra a Covid-19 na França, os fabricantes de produtos utilizados em larga escala desde o começo da pandemia tentam se reposicionar para encarar a queda nas vendas. Durante mais de dois anos, a “indústria do coronavírus” mobilizou muito além de produtores de máscaras e álcool gel. Empresas de têxteis, cosméticos, plásticos e limpeza também foram incitadas a participar do esforço francês para atender à explosão da demanda por proteções individuais e coletivas contra o coronavírus. Em menos de dois anos, a França passou de apenas quatro fabricantes de máscaras descartáveis para cerca de 30, capazes de entregar 100 milhões de unidades por semana. Porém, o índice superior a 70% da população completamente vacinada, a ampliação da oferta de medicamentos contra a Covid-19 e a chegada do calor levaram ao fim do uso obrigatório da proteção em todos os locais fechados no país, à exceção de hospitais e outros estabelecimentos de saúde. O álcool gel, que era sistematicamente oferecido na entrada de qualquer estabelecimento, está cada vez mais raro, assim como as proteções de acrílico adotadas em escritórios e outros locais. O setor têxtil nacional bem que tentou, sem sucesso, emplacar os modelos de máscaras em tecido made in France – mas 200 milhões de unidades encalharam em 2021, conforme a União das Indústrias Têxteis do país. Antes mesmo da flexibilização e até da variante ômicron, muitas dessas empresas já começavam a fechar as portas, a abandonar a linha de produção especialmente para a Covid-19 ou simplesmente mudar de ramo. Duas delas, por exemplo, passaram a fabricar bicicletas elétricas. Demanda excepcional A economista Sarah Guillou, diretora do departamento de pesquisas em Inovação e Concorrência da Sciences Po de Paris, nota que o princípio do fim da crise já era antecipado desde o verão do ano passado. “Eles entenderam que essa demanda era conjuntural e, a priori, a primeira qualidade de um empreendedor é saber antecipar a demanda. A maior parte dessas empresas não começou a fazer do nada máscaras e álcool gel”, ressalta a pesquisadora do Observatório Francês da Conjuntura Econômica (OFCE). "Elas foram capazes de se desmembrar sem ter de adquirir tecnologias que elas nunca tinham visto. Portanto, podemos imaginar que, se em 2020, elas puderam se adaptar rapidamente, em um trimestre, agora elas também poderão, para enfrentar essa mudança da demanda.” O Sindicato dos Fabricantes de Máscaras informa que o setor jamais se baseou na venda para os clientes particulares, e sim para os profissionais da saúde, alimentação e construção, cuja demanda é perene no tempo. Mas a entidade não descarta uma mudança definitiva de hábitos da população, que poderia passar a adotar a proteção contra epidemias de gripe ou gastroenterite, comuns em determinadas épocas do ano. Importações Mesmo assim, a questão central é que, apesar de todo o “esforço de guerra”, como definiu o Ministério da Economia, a grande maioria dos produtos usados na crise sanitária sequer era francês. O sindicato nacional de produtores de máscaras descartáveis, por sua vez, denuncia que 90% das proteções faciais utilizadas na França vêm da China. O governo chegou a promover incentivos à “compra responsável” por organismos públicos ou privados, para privilegiar a indústria nacional. Porém, o preço inferior dos produtos chineses continuou um fator decisivo para assinatura dos contratos. Antes da Covid-19, os asiáticos já respondiam por cerca de 80% da demanda francesa, já que o país não dispunha do maquinário necessário para a fabricação em massa desse tipo de produto. "Por trás das máscaras, há tecnologias e se você não as domina, precisa ou adquiri-las, ou importar o produto final. Essa questão também foi colocada para a generalização dos testes anticovid, que não dispúnhamos. Ou seja, vimos que a questão da tecnologia existe até para produtos de primeira necessidade”, explica Guillou. “A nossa interdependência de importações ficou clara e, no plano interno, uma das reações foi iniciar uma reflexão sobre as cadeias de valor nas quais temos mais dificuldade e assimetria e tentarmos restabelecer um melhor equilíbrio nessa interdependência produtiva.” A esperança agora é que pelo menos parte do abastecimento habitual no país seja substituído pelas fabricações nacionais. O desafio ilustra a dificuldade da reindustrialização da França, um dos temas mais debatidos durante a campanha presidencial encerrada em abril no país e que será chave para o próximo governo do presidente Emmanuel Macron. A participação industrial no PIB do país beira os 10%, contra em média 16% na União Europeia.

309 episódios