"Taxa de CO2 será aceita quando houver alternativas aos combustíveis fósseis", aposta Maurício Tolmasquim

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É um problema intergeracional. Já que são as populações de hoje que precisam fazer mudanças para garantir o controle das temperaturas do planeta e assegurar as condições de vida das futuras gerações. Mas a questão, ainda sem resposta é: quem está disposto a pagar por isso? A revolta dos coletes amarelos, na França é um exemplo de que a solidariedade em relação ao futuro pode ficar em segundo plano, mesmo quando a comunidade científica alerta para o papel destruidor dos combustíveis fósseis. Em Glasgow, na Escócia, o presidente da COP 26, Alok Charma, foi contundente no combate a esses vilões do aquecimento global. "Hoje estamos publicando um acordo para acabar com o investimento em carvão. E para aumentar em escala as energias limpas", disse, na semana passada. Uma das soluções apontadas por especialistas para a transição energética seria aumentar os custos dos combustíveis fósseis, mais poluentes e que emitem os temidos gases de efeito estufa. Porém, esta é uma medida impopular, capaz de suscitar revolta, como já aconteceu aqui França, quando o governo do presidente Emmanuel Macron tentou aumentar encargos sobre os combustíveis, provocando a fúria dos coletes amarelos, a partir de novembro de 2018. Gota d'água A decisão de aumentar impostos sobre a gasolina e o óleo diesel foi a gota d’água, afetando as classes populares e moradores das periferias e zonas rurais, onde o carro é essencial para ir ao trabalho, como explicou à RFI Xavier Renou, representante dos coletes amarelos, em entrevista concedida em setembro de 2020. "A mobilização na sua origem, nasceu de uma situação estrutural que perdura, mas também de um momento conjuntural sobre o aumento dos custos dos combustíveis", contextualizou. O movimento ganhou as ruas do país e se fracionou em diversas outras pautas de cunho social. O professor Maurício Tolmasquim, do programa de planejamento energético da COPPE/UFRJ, explica o porquê dessa resistência. "É claro que do ponto de vista ético, é fundamental a questão da solidariedade com as gerações futuras. Mas é compreensível, também, que as pessoas estejam muito ligadas ao seu presente, ao seu cotidiano hoje. E que tudo aquilo que reduz o seu poder de compra, o seu orçamento acaba tendo uma certa reação. Por isso, é importante irem surgindo novas alternativas que suavizem os efeitos dessas mudanças", afirma. "Isso não é um caso exclusivo da França, existe realmente uma sensibilidade muito grande das populações em geral. A gente teve na América Latina um caso semelhante, no Equador, e em vários outros lugares você tem ações grandes quando aumenta o combustível", completa. O engenheiro da Universidade Federal do Rio de Janeiro lembra que as sociedades só têm duas escolhas: uma economia descarbonizada com estímulos para investimentos verdes ou a velha e suja economia poluente. Dilema moderno "É um dilema. As pessoas são favoráveis às ações de combate a mudanças climáticas, mas querem evitar assumir este custo", ele diz. "Se você perguntar às pessoas se elas são favoráveis à redução dos gases de efeito estufa, todo mundo é favorável. Se você disser vamos reduzir o desmatamento, a não ser os que têm interesses na queima da flroesta, o resto é contra o desmatamento. Porém, se você impõe uma ação que implique um sacrifício, alguns vão aceitar, os mais imbuídos de preocupação ambiental. Mas a grande massa, apesar de achar importante a questão, não está disposta a abrir mão de parte do seu poder de compra", insiste. Tolmasquim sugere outras ações capazes de mudar essa perspectiva. "É claro que há outros mecanismos que são mais fáceis de promover redução de gases de efeito estufa do que as taxas: você incentivar as fontes renováveis de energia, como eólica e solar", ensina. "Eu acho que essa questão da taxa de CO2 será mais bem aceita quando se tiver alternativas ao carro e aos combustíveis fósseis. Se o carro elétrico baratear, a taxa do CO2 será mais bem aceita, porque mesmo que a gasolina fique mais cara, o diesel fique mais caro, o consumidor vai ter uma alternativa que é o veículo elétrico", diz. "A gente tem que ir criando essas alternativas, de maneira que seja mais palatável para a sociedade aceitar esses aumentos que levem à indução dessas mudanças de tecnologia para uma tecnologia mais limpa", completa. Maurício Tolmasquim ainda observa que problema é mais complicado para os países europeus do que para o Brasil, que tem 48% de sua matriz energética de fontes renováveis, mas cuja lição de casa recai sobre o controle do desmatamento.

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