Festival em Paris destaca prioridade ao coletivo da coreógrafa Lia Rodrigues

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O Festival de Outono de Paris - tradicional evento de artes plásticas, dança, teatro e música - traz em sua 50ª edição uma homenagem especial à coreógrafa brasileira Lia Rodrigues. A artista apresenta uma nova criação, “Encantado” e convida outros dez coreógrafos para apresentar obras dentro do painel “Retrato Lia Rodrigues”. Por Patricia Moribe, da RFI Lia Rodrigues fundou sua companhia em 1990, que desde 2003 é sediada e atua no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, de onde são originários vários dançarinos. O grupo se apresenta com frequência na França, onde Lia Rodrigues já recebeu vários prêmios. Além de “Encantado”, três outros trabalhos de Lia Rodrigues estarão em cena: “Nonoroca”, “Exercício M, de movimento e de Maré”, e “Contra os que têm gosto difícil”. Convidada para ser um dos eixos do evento, Lia Rodrigues optou pelo coletivo, uma constante em sua trajetória. Ao invés de apresentar suas próprias criações, ela convidou outros dez coreógrafos brasileiros para compor o panorama. “Fui formada por outras pessoas, não estaria aqui se essas pessoas não tivessem existido. Eu me vejo como uma pessoa coletiva”, diz Lia. “Para mim, trabalhar e criar significa estar em um mar em movimento, onde ondas trazem ideias, encontros, pessoas, depois recuam, para em seguida penetrar no oceano, onde se misturam tantas outras ideias de danças do passado, num movimento constante”, explica. Os coreógrafos convidados são Marcela Levi, Lucia Russo, Gabriela Carneiro da Cunha, Luiz de Abreu, Cristina Moura, Marcelo Evelin, Renata Carvalho, Ana Pi, Thiago Granato e Volmir Cordeiro. “A Lia é um fundamento na minha vida”, diz Volmir Cordeiro. Ele contou à RFI que viu o primeiro trabalho de Lia aos 14 anos, em Concórdia, no interior de Santa Catarina. Aos 21, ele já integrava a companhia da coreógrafa. “A minha vinda à França está totalmente ligada ao fato de eu ter feito turnês com ela aqui, ter descoberto mestrados, produções e o modo de criação na França”, diz Cordeiro, que um nome consagrado do cenário francês. Cordeiro apresenta “Metrópole”, uma peça de três atos, composta junto com o percussionista francês Philippe Foch. O objetivo, conta o catarinense, “foi criar uma intensidade em relação à maneira como eu percebo a metrópole”. Os três atos giram em torno do terror, da revolta e da estupidez. “São três maneiras de abordar uma certa concepção da metrópole que eu identifico na contemporaneidade, bastante baseada na atitude ‘blasée’ de indiferença ao outro, de vontade de distanciamento do outro, ainda mais evidente agora, com a situação pandêmica”. “Deixa Queimar” é o trabalho intenso e perturbador de Marcela Levi e Lucía Russo, da companhia Improvável Produções, baseada no Rio de Janeiro. Sozinha em cena, a dançaria Tamires Costa, coautora da peça, incorpora, mescla e exagera impressões deixadas por artistas e personagens negros – de Joséphine Baker, passando por Michael Jackson e Grande Otelo, até Nina Simone. “Colocamos em questão essa relação, mas de maneira torcida, com uma mulher negra ocupar o lugar que foi delegado ao negro na indústria do entretenimento durante muitos anos”, disse Levi à RFI. “Às vezes a Lia não aparece de maneira direta no nosso trabalho, mas ela está infiltrada no jeito de trabalhar, no dia a dia, na insistência, numa relação muito rigorosa não só com o campo artístico, mas como ela se pensa o tecido social e sócio-político”, conta Lucía. Marcela Levi – que trabalhou com Lia Rodrigues durante oito anos - faz um paralelo do “retrato” que a coreógrafa montou no Festival de Outono de Paris, com a criação do festival Panorama, há 25 anos. Encarregada da programação do Espaço Cultural Sergio Cardoso, no Rio de Janeiro, Lia decidiu também na época não mostrar o próprio trabalho, mas convidar outras pessoas. “Era uma época em que não havia campo de trabalho e nem espaço para as pessoas se profissionalizarem”, diz Marcela. “E assim foi a primeira edição, não tínhamos nada, e o Panorama se tornou o maior festival de dança do Rio de Janeiro”. “Agora estamos vivendo um momento nefasto”, acrescenta Levi. “As subvenções não existem mais, a cultura foi destruída, a dança no Rio de Janeiro foi dizimada. Há uma política ativa de destruição da arte, onde se destrói a capacidade crítica. As pessoas não têm ideia do que se vive no Brasil”, observa. A 50a edição do Festival de Outono de Paris tem inicio no dia 1° de setembro, com “7 Deaths of Maria Callas”, uma aguardada instalação-performance da artista plástica Marina Abramović, nascida na Sérvia.

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