Rendez-vous cultural - Artes Marciais através da história e do cinema é tema de exposição em Paris

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Com uma imagem em reprodução gigante de Bruce Lee na fachada, o Museu do Quai Branly, de Paris, apresenta a exposição "O Combate Derradeiro – Artes Marciais na Ásia". A visita, lúdica e didática ao mesmo tempo, é permeada de história e filmes Por Patricia Moribe “A arte marcial é como um patrimônio cultural imaterial, transmitida de mestre a discípulo, através dos séculos”, explica Stéphane du Mesnildot, especialista em cinema asiático e um dos curadores da exposição. O cinema é o inusitado fio condutor da mostra, em meio a peças históricas e obras contemporâneas. “O corpo é a ferramenta, o suporte das artes marciais; o cinema permitiu preservar as impressões desses corpos, as práticas, e ao mesmo tempo, desenvolver uma arte visual própria”, relata o curador. Deuses e demônios do cinema indiano A viagem no tempo começa pela Índia, onde o tema do combate é central na mitologia, antes da expansão do hinduísmo e do budismo. Os textos sagrados Veda, compostos na Índia a partir do século 15 a.C, descrevem uma guerra entre deuses e demônios. “O cinema indiano de artes marciais é épico, popular, com canções, lutas, criaturas fantásticas e veneração de artistas”, diz du Mesnildot, colocando o gênero dentro do cinema cunhado de “Bollywood”, com muita música e cores. De Hong Kong para o mundo O termo kung fu se popularizou tardiamente através do cinema para designar uma grande variedade de artes marciais. As escolas marciais chinesas preparavam monges guerreiros, com tradições inspiradas por animais e terapias corporais datadas de milênios, tendo como fundamento a relação do corpo com as forças da natureza. A ética do combate associa força física e mental, apoiando-se na meditação budista ou na busca da longevidade taoísta. Mas foi em Hong Kong que o gênero ganhou força e se consagrou como uma forma de arte. Os irmãos Shaw dominaram a indústria cinematográfica da ilha dos anos 1960 a 1980. Inspirado no modelo hollywoodiano, eles constroem um gigantesco estúdio, com espaço para até sete produções simultâneas. Surge então todo um culto em torno de artistas e sagas. Mas uma produtora rival, a Golden Harvest, tem um trunfo implacável - Bruce Lee – que vai colocar o termo “kung fu” no mapa. Nascido em São Francisco (EUA) em 1940, Bruce Lee cresceu em Hong Kong, onde foi ator infantil e depois estudou artes marciais com Ip Man, outro ícone das artes marciais. Bruce Lee criou seu próprio estilo, o jeet kune do, e virou lenda através dos gestos estilizados, velocidade e sons felinos. “O culto a Bruce Lee ainda é muito forte, principalmente entre jovens - ele é a revolta contra a injustiça, sua imagem pode ser reconhecida ainda hoje em todo o mundo”, explica o curador da exposição. A morte de Lee, aos 32 anos, em Hong Hong, é envolta em mistérios. Ele teria passado mal após tomar um medicamento para dor de cabeça, que provocou um edema cerebral. Estética e cerimonial Do Japão vem toda uma outra estética, em torno de um personagem mítico: o samurai. Um dos principais exemplos é “Os Sete Samurais” (1954), de Akira Kurosawa, premiado no Festival de Veneza. “O cinema japonês é construído em torno de códigos estéticos, cerimonial rígido, duelo entre classes e interpretações fascinantes”, explica du Mesnildot. “O manejo do sabre obedece a um ritual muito preciso e a morte chega em uma fração de segundo”, acrescenta. O curador lembra ainda que o cinema japonês também teve intérpretes femininas marcantes, como Meko Kaiji ou Junko Fuji . “São mulheres independentes e que lutam no contexto de clãs. Podemos vê-las também como figura de emancipação feminina”. A exibição traz ao longo do percurso intervenções artísticas contemporâneas, mangás (quadrinhos), instalações e pinturas - terminando com uma grande vitrine de robôs, inspirados no mito do samurai. "O Combate Derradeiro – Artes Marciais na Ásia" fica em cartaz no Museu do Quai Branly, em Paris, até 16 de janeiro de 2022.

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