Macron inaugura Museu Dreyfus na França em homenagem ao 'J'accuse' de Zola

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Um dos mais célébres manifestos libertários do planeta, o texto “J’accuse,” do escritor francês Émile Zola, publicado na imprensa parisiense do século XIX, acaba de inspirar a criação de um museu, inaugurado nesta terça-feira (26) pelo presidente da França, Emmanuel Macron. Localizado em Médan, na região de Paris, o Museu Dreyfus foi instalado na antiga casa de Zola e traz mais de 500 documentos destinados a perpetuar a memória do "caso Dreyfus", que polarizou a sociedade francesa da época. “Nunca se esqueçam de nossas lutas do passado, porque elas nos contam que o mundo em que vivemos, assim como nosso país, como nossa República, podem estar novamente ameaçados”, disparou o presidente francês Emmanuel Macron nesta terça-feira (26) ao inaugurar o museu dedicado ao célebre "caso Dreyfus". O chefe de Estado fazia alusão aos diversos episódios de antissemitismo que vêm assombrando o país - e o Velho Continente - recentemente. “Há, neste museu, o que é indissociável entre o que compõe a nação e a República Francesa: os ideais, o amor pela língua e este gosto pela verdade e pela Justiça”, disse Macron aos descendentes de Alfred Dreyfus e Émile Zola, presentes na inauguração. Acompanhado pelo ex-primeiro-ministro da França, Manuel Valls, e pelo rabino-chefe da França, Haïm Korsia, o presidente francês visitou o museu que apresenta curiosidades como um fac-símile do famoso falso deslize que incriminou o capitão Dreyfus na época, acusado injustamente de traição, assim como muitos cartazes antissemitas ou ofensivos contra Émile Zola. “Zola também faz parte desta luta pela qual se arriscou loucamente, uma luta eminentemente republicana”, acrescentou Emmanuel Macron. Com a visita desta terça-feira, Macron mantém uma promessa feita em março de 2018 no jantar anual do Crif (Conselho Representativo das Instituições Judaicas na França). "J'accuse", um monumento à verdade e à Justiça "J'accuse" [em português, "Eu acuso"] é o título do célebre artigo redigido pelo escritor francês Émile Zola na época do "caso Dreyfus", e publicado no jornal L'Aurore do 13 de janeiro de 1898, sob a forma de uma carta endereçada ao presidente da República da França da época, Félix Faure. O chamado affaire Dreyfus polarizou os franceses em dois campos opostos: aqueles que, como Zola, defendiam a inocência do capitão Alfred Dreyfus na acusação de traição e espionagem, da qual foi finalmente foi inocentado depois de um longo processo, e aqueles que o consideravam culpado. A condenação, no final de 1894, do capitão Dreyfus - por ter supostamente entregue documentos secretos franceses ao Império Alemão - teria sido, segundo especialistas, um "erro judicial ou mesmo uma conspiração judicial", com um pano de fundo de espionagem, em um contexto social particularmente favorável ao antissemitismo e ao ódio à Alemanha [conhecido como "revanchismo"], após a anexação da Alsácia-Lorena em 1871. O caso movimentou a sociedade francesa durante nada menos do que 12 anos, de 1894 a 1906, dividindo-a profunda e duramente em dois campos opostos: os "Dreyfusards", partidários da inocência de Dreyfus, e os "anti-Dreyfusards", que acreditavam na sua culpa. O processo virou filme - "O Oficial e o Espião" (2020) - na mão do não menos polêmico Roman Polanski, com o oscarizado Jean Dujardin no papel principal. Na época dos fatos, o artigo de Zola - o famoso "J'accuse" - foi publicado na primeira página e foi a manchete do diário L'Aurore, cujos 300.000 exemplares esgotaram-se em poucas horas. Vários intelectuais assinaram, na ocasião, uma petição em favor da revisão do processo Dreyfus, publicada também pelo jornal, entre eles nomes como Anatole France, Georges Courteline, Octave Mirbeau e Claude Monet. As assinaturas foram recolhidas por estudantes ou jovens escritores da época, como Marcel Proust. Zola recebeu diversas mensagens de apoio, mas também cartas injuriosas e ameaças de caráter antissemita ou xenófobo [o pai de Zola era italiano]. O caso Dreyfus, que iria inflamar as multidões [francesas e mundiais] durante vários anos, acabara de nascer, no meio da polêmica. O capitão Dreyfus foi finalmente reabilitado em 1906. Memorial contra o antissemitismo O Museu Dreyfus, inaugurado nesta terça-feira (26) pelo presidente francês, deseja "perpetuar a memória de Émile Zola e do caso Dreyfus, vítima de um complô judicial e antissemita de 1894", afirmou Louis Gautier, presidente da associação Maison Zola-Musée Dreyfus, ao jornal Le Parisien. A antiga residência do autor de Germinal, na região de Yvelines, tem cerca de 300 m2, e abre suas portas ao público na quinta-feira (28), apresentando mais de 500 documentos entre objetos, manuscritos, fotografias, canções, filmes, brochuras, cartazes, desenhos e folhetos destinados a perpetuar a memória do capitão. Poucos dias após a sua inauguração, o museu deverá receber "crianças em idade escolar para tratar das questões do antissemitismo, racismo e exclusão, o funcionamento da justiça, o papel dos meios de comunicação e das redes sociais, além do papel dos intelectuais na democracia", explicou Gautier. A criação do museu e a restauração do espaço foram financiadas em grande parte pelo empresário Pierre Bergé, companheiro do famoso estilista Yves Saint Laurent, assim como pela região de Ile-de-France, a Fundação para a Memória da Shoah [Holocausto] e a Delegação Interministerial de Luta contra o Racismo, o Anti-semitismo e o Ódio Anti-LGBT (Dilcrah).

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