RFI Convida - Publicação na França de “Milagre no Brasil”, de Augusto Boal, é “ato de resistência contra desgoverno genocida” brasileiro, diz Julian Boal

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O livro “Milagre no Brasil”, do dramaturgo brasileiro Augusto Boal, acaba de ser lançado pela primeira vez na França pela editora Chandeigne, com tradução de Mathieu Dosse e introdução da historiadora francesa Anaïs Fléchet. O texto relata na primeira pessoa, a prisão e a tortura do criador do Teatro do Oprimido em 1971, durante a Ditadura Militar brasileira. Para Julian Boal, filho do dramaturgo, a publicação na França de “Milagre no Brasil” é mais um “ato de resistência” contra o "desgoverno genocida brasileiro". “Milagre no Brasil” foi publicado pela primeira vez em 1976, em Lisboa e em 1979, no Brasil e hoje está esgotado em português. Um livro raro que ganha visibilidade com essa tradução. O “testemunho do oprimido”, escreve o jornal Le Monde. Uma publicação importante neste momento “em que o presidente Jair Bolsonaro tenta reescrever a história com uma forma de negacionismo”, indica o diário citando a historiadora Anaïs Fléchet, que assina a introdução de “Lembrar é resistir” da edição francesa da Chandeigne. Julian Boal, escritor, especialista em teatro e filho do criador do Teatro do Oprimido, espera que essa publicação na França ajude a relançar e reeditar o livro no Brasil. “Num momento de tão grande de relativização do que aconteceu durante a Ditadura, num momento em que o nosso presidente é alguém que exalta a figura do Ustra e outras figuras, é importantíssimo ter um relato das pessoas que sofreram de fato o que foi a repressão do Estado naquela época”’. “Milagre no Brasil” fala de um passado de meio século, mas que soa atual. No entanto, Julian Boal ressalta as diferenças entre os dois períodos: “a gente tem a violência de Estado, muito forte, que até aumentou. A gente viu isso com a chacina recente no Jacarezinho. No entanto, acho que são processos muito diferentes. Naquela época, os torturadores, os esquadrões da morte, tentavam exorcizar o fantasma do comunismo. Hoje em dia, quando se faz isso, parece que a vida não tem nenhum valor”. Milagre da resistência do povo brasileiro O título do livro tem um duplo sentido. Ele se refere, claro, ao período do Milagre Econômico brasileiro do início dos anos 1970, mas também, para Augusto Boal ao milagre do povo brasileiro. “É o milagre da resistência desse povo”, detalha. Apesar do testemunho dessa história sombria de tortura e repressão, o livro tem muito humor e revela o lado kafkaniano do sistema opressor brasileiro. “Ele pergunta por que está sendo torturado e o torturador responde que é porque ele escreve que tem tortura no Brasil! No pau de arara, ele ri dessa situação absurda e o torturador diz: ‘está certo que estou te torturando, mas como todo o respeito”, conta Julian Boal. O relato também revela aos leitores o amor pelo teatro, as escolhas artísticas e o engajamento de Augusto Boal. Para seu filho, é essencial ressaltar que o dramaturgo foi torturado “enquanto militante mais do que enquanto artista”. Ele avalia que há uma tendência a se dar uma maior importância na luta contra a ditadura aos artistas e intelectuais do que aos militantes e figuras populares. Aplausos a Paulo Gustavo “Esse livro não fala apenas das grandes figuras, fala também das pessoas anônimas. É importante lembrar que a ditadura reprimiu toda a sociedade. (...) Os atos de resistência foram milhares, foram milhões de atos pequenos.” Julian Boal acredita que é importante resgatar essa dimensão da resistência coletiva no Brasil de hoje. “A gente fala: ‘ah! mas nada está sendo feito contra o Bolsonaro, as ruas não estão sendo tomadas’. Mas a maioria das pessoas que aplaudiram o Paulo Gustavo também estava tentando, de certo modo, criticar o governo e se mostrar solidária aos mortos (da pandemia)”, avalia o escritor. Augusto Boal morreu há 12 anos, em 2009. Seu filho acho que ele ficaria orgulhoso com essa primeira tradução e publicação de “Milagre no Brasil” na França, país onde o dramaturgo viveu exilado durante vários anos durante a Ditadura Militar. “Ele veria isso, como de fato é, como mais um ato de resistência, como mais um ato contra esse desgoverno genocida que a gente tem”.

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