Saúde - Confinamento deprimiu (e divertiu) crianças e adolescentes na França, diz psicóloga

4:45
 
Compartilhar
 

Manage episode 262333495 series 1108905
Por France Médias Monde descoberto pelo Player FM e nossa comunidade - Os direitos autorais são de propriedade do editor, não do Player FM, e o áudio é transmitido diretamente de seus servidores. Toque no botão Assinar para acompanhar as atualizações no Player FM, ou copie a feed URL em outros aplicativos de podcast.
A constatação é da especialista francesa Aline Nativel, co-autora do livro "A sobrecarga mental em crianças e adolescentes", que continuou atendendo seus pequenos pacientes durante o período de confinamento no país, que começou a ser flexibilizado no último dia 11 de maio. De acordo com ela, enquanto alguns menores apresentaram sintomas depressivos, outros aproveitaram para passar mais tempo com os pais - uma oportunidade que era rara na correria do dia a dia. A brasileira Paula anda preocupada com seu filho Pedro: desde que ele vivenciou o confinamento na França, decretado pelo governo no dia 17 de março para interromper a propagação da Covid-19, o menino, de 6 anos, apresenta uma mudança em seu comportamento. Não quer mais sair de casa e fica preocupado quando percebe que as pessoas ao seu redor não respeitam as regras como o uso da máscara ou a distância mínima de um metro. O medo da morte também angustia o menino, conta a mãe. Essa ansiedade, relatada por muitos pais neste período insólito, pode ser preocupante se acompanhada de outros sintomas, explicou a psicóloga francesa Aline Nativel à RFI Brasil, e indicar uma possível depressão. "Para as crianças maiores e menores, os sintomas são sempre os mesmos: é preciso ficar atento quando eles não querem mais brincar, quando perdem o interesse por tudo", diz Aline. Ficar o tempo todo deitado também não é normal. "Se a única posição confortável é deitado, é um sinal de que não há mais a vontade de se movimentar, vontade de viver", declara. Se o comportamento é transitório, não há motivos para se preocupar, diz a psicóloga. Afinal, essa pode ser uma reação normal a um episódio inédito como o do confinamento. Mas, se os sintomas durarem mais de 15 dias, se agravarem, e forem constantes, ela recomenda procurar ajuda profissional. A experiência do isolamento em casa com a família, afirma, também pode deprimir crianças e adolescentes sem que esse problema possa ser considerado como uma doença psiquiátrica, mas sim um episódio depressivo reacional. "Pode ser uma reação à situação, que pode ou não se transformar em uma depressão clínica. Pelo contrário, pode até mesmo gerar um problema de ansiedade com a flexibilização das medidas", diz. Mil proibições A reação psíquica diante de uma situação inédita - um parênteses na normalidade recheado de probições, sem poder ir para a escola, ver os amigos, a família ou praticar esportes - depende em parte da estrutura familiar, lembra a psicóloga. "Ainda não temos estudos concluídos sobre como a população viveu esse período, por isso precisamos ser prudentes ao falar de depressão, que é uma patologia psiquiátrica", avalia Aline. Em suas teleconsultas, ela considera normal que no contexto de emergência sanitária haja episódios depressivos descritos por crianças, adolescentes e adultos. "Não há nada de chocante nisso. Essa situação desestabilizou nosso cotidiano e funcionamento familiar", declara. "É normal se sentir triste, até saudável." Para as crianças pequenas, ressalta a especialista, o confinamento pode ser vivido com menos dificuldade porque elas não têm ainda plena consciência da gravidade da situação e a noção de temporalidade. Diferentemente dos adolescentes, que se viram totalmente privados das relações sociais - essenciais para essa idade. Reação contrária Por mais surpreendente que isso possa parecer, a psicóloga ainda lembra que muitas crianças viveram bem o confinamento, felizes de estarem em casa com os pais e os irmãos, falar com o professor on-line e aproveitar de seu "território", brinquedos e livros. "Os menores, principalmente, adoraram. Foi mais difícil para os adolescentes. Nas minhas consultas pude perceber que o confinamento foi mais complicado para eles, submetidos à pressão da escolaridade e o controle ao acesso às novas tecnologias", ressalta. Além disso, muitos se viram obrigados a cuidar dos irmãos menores e assumirem tarefas em casa para as quais não estavam dispostos, além, claro, da ausência dos amigos. Com o fim do confinamento, também há o risco dos adolescentes adotarem um comportamento de risco, como o uso de drogas. A situação se complica ainda mais levando em conta o fato que os adolescentes não devem voltar para a escola antes de setembro, que marca o início do ano letivo na França. Para diminuir os efeitos negativos desse período, a psicóloga recomenda aos pais de crianças e adolescentes que sejam transparentes: informar e responder a todas as perguntas, já que questões sem resposta podem gerar medos infundados. Além disso, ter uma atitude positiva em relação às medidas de proteção, para que possam ser incorporadas ao cotidiano da maneira mais natural possível. "Manter-se otimista, sem esconder a verdade, mas também sem dar muitos detalhes", resume a psicóloga francesa.

191 episódios