Saúde - Número de infartos dobrou na região parisiense durante o confinamento

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Um estudo publicado no fim de maio na revista especializada The Lancet Public Health, dirigido pelo cardiologista francês Eloi Marijon, mostrou que os ataques cardíacos ocorridos fora dos hospitais parisienses duplicaram nas três primeiras semanas de confinamento na França. Uma das hipóteses é que os pacientes cardíacos interromperam o acompanhamento médico com medo de serem contaminados pela Covid-19. A epidemia está atualmente sob controle na França, mas a longa quarentena, que começou no dia 16 de março e terminou em 11 de maio, foi uma verdadeira prova de fogo para a saúde de muitos franceses – principalmente aqueles que sofrem de doenças crônicas, incluindo as cardíacas. Divididos entre o cuidado com suas patologias e o risco em relação à Covid-19, muitos preferiram adiar consultas, exames nos hospitais e optaram por minimizar sintomas, colocando a própria vida em risco. O resultado desse comportamento foi descrito em um estudo realizado pela equipe do cardiologista Eloi Marijon, diretor do centro especializado em morte súbita do Inserm (Instituto de Pesquisas Médicas da França). Segundo ele, os médicos observaram que, no período do “lockdown”, houve um aumento dos infartos fora do hospital. Os casos não apenas dobraram, mas também eram mais graves: cerca de metade doentes não sobreviveu, explicou. A equipe analisou o fluxo de pacientes nos hospitais durante seis semanas. Foram constatadas 521 paradas cardíacas na região parisiense – uma taxa de 26,6 infartos para cada milhão de habitantes. Entre 2012 e 2019, no mesmo período, essa taxa foi de 13,4 infartos. Além disso, os pesquisadores também demonstraram que, nos últimos nove anos, o número de ataques de coração se manteve estável na área, mas aumentou entre 16 de março e 26 de abril. “A maioria dos infartos durante o confinamento aconteceu em casa e as pessoas presentes estavam menos propensas a realizar uma massagem cardíaca”, diz o médico. Sua equipe também constatou que o uso de desfibriladores cardíacos foi menor no período. A intervenção antes da chegada dos primeiros-socorros é um fator determinante para a sobrevivência, lembra o especialista. Um dos motivos para essa intervenção limitada é que, em geral, os familiares ou conhecidos tendem a agir menos se testemunham um infarto. “São fatores que explicam porque o prognóstico desses pacientes possa ter sido pior do que o esperado, durante o auge da epidemia da Covid-19 e em relação ao período em que ainda não existia o vírus", declarou. O cardiologista esclarece, entretanto, que esse é um dado que não está relacionado diretamente ao estudo. “O aumento das paradas cardíacas não foi simplesmente uma consequência do vírus. Apenas um terço dos casos, cerca de 33%, esteve associado à uma infecção pela Covid-19”, declarou. Os outros dois terços correspondem a uma degradação do estado de saúde do paciente, e é isso que mais surpreendeu a equipe. Alta demanda O estudo levantou duas hipóteses para explicar esses dados. A primeira é que o sistema de saúde francês não tinha condições entre março e abril de receber os doentes para suas consultas habituais, já que as UTIs e pronto-socorros estavam lotados. De acordo com o cardiologista, outra possibilidade é que os pacientes tenham desistido das consultas ou de solicitar atendimento de emergência, temendo a contaminação ou “simplesmente por medo de incomodar". Cerca de 80% das paradas cardíacas são provocadas por um infarto do miocárdio e precedidas de sinais de alerta, lembra o médico. Ignorar esses sinais pode ser fatal. E, portanto, pesquisadores europeus e americanos relatam que, durante o auge da epidemia, as hospitalizações por um infarto do miocárdio diminuíram. “Não é que havia menos infartos. Os pacientes simplesmente não vinham ao hospital. Provavelmente isso é que explica esse aumento das paradas cardíacas. Talvez tenham tido o ataque e morrido em casa, em vez de serem internados na UTI”, detalha. Leitos reservados De acordo com o professor francês, o atendimento agora se normalizou, mas, durante o confinamento, a maioria dos pacientes chegava ao hospital em estado grave e deviam ser imediatamente internados na UTI. “Isso significa também que houve negligência em casa”, reitera. Em um determinado momento do pico epidêmico, conta o cardiologista, alguns dos leitos reservados nas UTIs para os cardíacos estavam desocupados, porque os pacientes simplesmente não chegavam vivos aos hospitais. Ele também explica que os setores Covid-19 em geral eram totalmente separados dos outros e os leitos só eram usados pelas vítimas da pandemia se não houvesse de fato outra alternativa. “Se o setor destinado aos outros pacientes não-Covid-19 não estivesse cheio, as vagas continuavam desocupadas na maior parte do tempo. Não podíamos transferir um paciente de um setor para outro.” Por outro lado, conta o cardiologista, em caso de emergência, ele era chamado para tratar dos pacientes contaminados, com toda a proteção necessária. O médico relata, entretanto, que nunca foi testado para saber se tinha pego a doença, já que os testes não são totalmente confiáveis.

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