Estudo francês identifica circuito neuronal que desregula emoções após infecção grave

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Como uma infecção aguda grave pode influenciar a longo prazo o funcionamento cerebral? Um grupo de cientistas do Instituto Pasteur, do Centro Hospitalar de Psiquiatria e Neurociências de Paris e da Fundação Oswaldo Cruz identificou um circuito cerebral que, ativado, pode gerar ansiedade, depressão e outros sintomas em sobreviventes de uma sepse bacteriana. Taíssa Stivanin, da RFI A sepse é uma infecção grave, geralmente desencadeada por uma bactéria ou vírus, que frequentemente leva à hospitalização em UTI. Os pacientes muitas vezes precisam ser intubados ou usar ventilação mecânica. Em um estudo divulgado recentemente pela revista científica Brain, uma equipe de pesquisadores franceses concluiu que a ativação desse circuito neuronal nas primeiras horas após a infecção poderia induzir transtornos de ansiedade e outros sintomas, cerca de 15 dias depois da cura. A pesquisa durou, no total, cerca de dez anos. O grupo de neurônios que integra o processo está localizado na amígdala e em um núcleo da estria terminal (stria terminalis), um feixe de fibras situado no lobo temporal do cérebro, atrás das orelhas, que integra o chamado sistema límbico. Ele é responsável pela regulação das nossas emoções. “Nós já sabíamos que nosso cérebro poderia ser sensível a uma reação do sistema imunológico. Quando temos uma infecção, ele reage produzindo citocinas”, explicou um dos autores do estudo, o neurocientista Gabriel Lepousez, pesquisador do Instituto Pasteur, em entrevista à RFI. As citocinas são peptídeos que agem na regulação do sistema imune inato e adaptativo. Elas são liberadas durante as infecções e podem afetar o cérebro de diferentes maneiras. “O cérebro capta a presença de citocinas no sangue e isso funciona como um alerta para a existência de uma infecção”, explica o pesquisador francês. Gabriel Lepousez ressalta que, quando iniciou o estudo em laboratório, a equipe já sabia da existência desse circuito neuronal e do seu envolvimento na resposta imunológica. Ao longo da pesquisa, os cientistas descobriram que, no caso de uma sepse, a inflamação é tão severa que esse circuito reagia de maneira mais forte do que de costume – e essa é uma grande descoberta. “Esse circuito é ativado de maneira muito, muito forte, e essa ativação deixa um registro nesse circuito cerebral, gerando modificações duradouras”, completa. Fotografando neurônios A ideia do estudo, completa Lepousez, surgiu de uma observação do neuroanestesista Tarek Sharshar, que trabalha no setor de neuroreanimação do hospital Saint-Anne, em Paris. Ele notou que alguns de seus pacientes, vítimas de sepse, deixavam o hospital curados e tinham exames normais, mas apresentavam transtornos cognitivos, quadros de ansiedade e depressão e até problemas de memória, alguns meses depois. O clínico perguntou ao especialista francês se sua equipe poderia realizar uma pesquisa, com animais, para tentar entender o que acontece no cérebro desses pacientes após a infecção e o que poderia desencadear esses sintomas. A equipe do neurocientista então levou o projeto adiante e reproduziu em laboratório o que havia ocorrido na vida real. Eles provocaram uma septicemia nos ratos e analisaram quais estruturas do cérebro haviam sido afetadas, e em qual ordem. Os pesquisadores utilizaram técnicas para “fotografar” o conjunto de neurônios envolvidos no cérebro dos camundongos usados na pesquisa. A conclusão foi que o circuito neuronal ativado após a sepse era responsável por desencadear, por exemplo, sintomas como ansiedade, medo e depressão. E esse circuito ficou deteriorado depois da cura. “Temos técnicas para olhar dentro do cérebro e observar sua atividade como um todo, em tempo real. Elas nos permitem também tirar uma foto e verificar qual parte é mais ativada, em comparação a outra”, explica Gabriel Lepousez. No caso de humanos, os cientistas usam a ressonância magnética para obter as imagens cerebrais. Nos camundongos, a análise foi histológica e mais apurada: o cérebro do animal foi retirado após a cura da septicemia e os cientistas puderam marcar fisicamente a área onde estavam localizados os neurônios e verificar quais foram ativados ou não. “Tiramos uma foto, com resolução celular da ativação, e foi nessa hora que pudemos confirmar que a região da amígdala central, ligada a outras regiões do cérebro, foram bastante ativadas”, reitera o cientista francês. Pista para estudar Covid longa Além de identificar o circuito cerebral que geram os sintomas emocionais, os pesquisadores do Instituto Pasteur também identificaram uma molécula, o Levetiracetam, que poderia preveni-los. Trata-se de um antiepilético que já é comercializado e que agora será testado em um estudo clínico com humanos. A descoberta também pode ajudar a entender a síndrome de Covid longa e as sequelas deixadas pela infecção. Segundo Gabriel Lepousez, ainda não está claro como o corpo reage à inflamação aguda pelo SARS-COv-2, que também pode provocar uma sepse, mas viral. “Não testamos especificamente nesse contexto pós-viral, mas há, claramente, conexões que são interessantes e podem ser feitas”, diz. “Há algo que acontece no cérebro, e essa é uma boa pista”.

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