Hospitais públicos franceses estão ameaçados de colapso por falta de pessoal no verão

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A um mês do início das férias de verão na França, os hospitais públicos do país enfrentam a pior crise em 40 anos por falta de enfermeiros, técnicos em radiologia e médicos. Dos 650 hospitais que contam com unidades de pronto-socorro em todo o país, 120 reduziram o atendimento. Vários serviços de emergência têm fechado durante a madrugada ou no fim de semana. Em algumas cidades francesas, a situação é dramática. Em Chinon, na turística região de castelos do Vale do Loire, o único pronto-socorro municipal e a maternidade fecharam há 15 dias por falta de pessoal. A situação também está tensa na região parisiense, com cerca de 20% dos leitos de UTI fechados na rede pública. Por falta de pessoal, 30% dos blocos operatórios na região da capital estão paralisados. Os cirurgiões são obrigados a adiar as operações. Médicos têm alertado que a crise já afeta a segurança dos pacientes. No hospital Pitié-Salpetrière, um dos maiores de Paris, o setor de neurologia vascular fechou mais da metade dos leitos que eram dedicados ao atendimento de emergência de pacientes com acidente vascular cerebral (AVC). No Hospital Universitário (CHU) de Bordeaux (sudoeste), que já ocupou várias vezes o primeiro lugar no ranking dos melhores estabelecimentos do país, a administração diz que não consegue recrutar 40 a 50% dos médicos necessários, em várias especialidades. Pandemia agravou insatisfação no setor Em agosto de 2020, houve uma ampla negociação salarial no setor da saúde. O governo anunciou na época um pacote de € 30 bilhões de investimentos nos hospitais, incluindo € 10 bilhões para reajustes de salário. O pessoal de enfermagem, por exemplo, recebeu um aumento de € 183 por mês, mas essas medidas não foram suficientes para tornar a atividade nos hospitais mais atraente. A pandemia acentuou uma insatisfação que era denunciada há vários anos nos estabelecimentos públicos. Desde o ano 2000, governos sucessivos exigiram economias dos diretores de hospitais. Mas saúde de qualidade custa caro e, para cumprir as metas orçamentárias, houve fechamento de leitos e de vagas de trabalho. Os avanços na medicina também encareceram o atendimento, mas nesse caso a vantagem é dos usuários dos serviços. Durante a pandemia, as condições no setor pioraram. Médicos e enfermeiros experientes pediram demissão, exaustos da falta de apoio do poder público e da rotina estressante. Diante da constante deterioração das condições de trabalho, os recém-formados perderam o interesse em trabalhar na rede pública e preferem os empregos em clínicas privadas ou se voltaram à atividade liberal, em consultórios. Escassez de enfermeiros Segundo o Sindicato Nacional de Profissionais de Enfermagem, existem atualmente 60 mil vagas abertas e não preenchidas para enfermeiros nos hospitais franceses. O piso salarial da enfermagem é de € 1.700 na rede pública, cerca de R$ 8.700. Essa remuneração pode parecer razoável, se comparada ao piso da categoria no Brasil, mas é considerada baixa para o custo de vida na França, mais elevado, principalmente nas grandes cidades. Os salários dos médicos são melhores, mas as duras condições de trabalho não atraem mais os profissionais como antigamente. Os hospitais públicos perderam a aura de prestígio que tinham antes, embora permaneçam centros de excelência e de pesquisa médica importantes. Os franceses, que foram acostumados a acreditar que têm o melhor sistema público de saúde do mundo – e em parte é verdade, por ser universal e praticamente gratuito –, compartilham a apreensão dos profissionais do setor. Diante da escassez de pessoal, os diretores de hospitais se voltaram para o trabalho intermitente quando precisam cobrir um plantonista que fica doente, por exemplo. Esse serviço, oferecido por agências, tem atraído enfermeiros recém-formados pela remuneração um pouco mais alta e a liberdade de programação dos plantões. Uma enfermeira intermitente pode ganhar até € 2.500, quase R$ 13 mil, com vários contratos curtos e pode organizar a atividade profissional sem as obrigações de plantão noturno ou no fim de semana. "Mortes no verão" O principal receio atualmente é que os hospitais públicos não terão condições de garantir o atendimento adequado na temporada de férias do verão. Após dois anos de pandemia, o pessoal hospitalar precisa de férias. O presidente do Sindicato Nacional dos Médicos Intensivistas, Patrick Pelloux, alertou a população que "pessoas vão morrer na fila do pronto-socorro". Ele aconselhou inclusive os franceses a escolher o local de férias em função da situação dos hospitais na região. O presidente Emmanuel Macron visitou esta semana um hospital em Cherbourg, na Normandia, e foi questionado por uma enfermeira indignada. Ela disse que ele "estava cansado de saber das condições precárias nos hospitais e nada fez para atenuar essa situação". A mulher também reclamou que o plano de investimentos aprovado em 2020 concedeu um aumento de 30% para as enfermeiras em início de carreira e mais dias de férias, enquanto os reajustes para os profissionais mais experientes foi proporcionalmente menor, mantendo as condições de trabalho sacrificadas. Macron reconheceu que a situação nos hospitais franceses não será resolvida da noite para o dia. Ele pediu ao presidente do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), François Braun, que apresente propostas emergenciais até 1° de julho, para evitar o colapso nos prontos-socorros. Mas tanto profissionais da saúde quanto senadores criticam a inércia do governo, e dizem que Macron só tenta ganhar tempo até o segundo turno das eleições legislativas, no dia 19 de junho. A difícil contratação de estrangeiros O governo francês poderia optar por incentivos à contratação de estrangeiros. Mas a equivalência de diplomas é um processo complexo na área da saúde. Não é impossível, mas é trabalhoso, leva tempo e costuma exigir estudos adicionais. Os salários baixos e as condições de trabalho consideradas rudes nos hospitais atraem poucos profissionais de países europeus. Durante a pandemia se viu até o contrário. Enfermeiras que moram em regiões fronteiriças da França optaram por trabalhar num país vizinho. Havia oferta de trabalho na Suíça, Bélgica e em Luxemburgo, onde se fala francês e os salários são mais vantajosos. O organismo que deve aprovar a equivalência de diplomas de profissionais de fora da União Europeia também é criticado pela demora na análise dos documentos.

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