Um pulo em Paris - "Cracolândia parisiense": polícia confina consumidores de droga em parque e revolta vizinhança

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Um bairro no norte da capital francesa sofre há meses com a presença de traficantes e consumidores e drogas. O toque de recolher imposto pela crise sanitária piorou a situação, com ruas vazias e comércio fechado por causa do lockdown. Para tentar resolver o problema, as autoridades decidiram reunir os usuários de entorpecentes em um parque na mesma região. Mas a situação desagradou tanto associações, como vizinhos do jardim, que se tornou uma espécie de “cracolândia francesa”. As imagens de rojões lançados das janelas de prédios contra pessoas que estavam nas ruas mostraram um lado de Paris menos conhecido dos turistas. A cena, que viralizou nas redes sociais e ganhou destaque em parte da imprensa no início de maio, mostra disparos vindos de apartamentos de moradores de Stalingrad, bairro no nordeste da cidade. Eles se dizem irritados com uma vizinhança não desejada: os traficantes e consumidores de drogas, que tomaram as ruas e calçadas da região nos últimos meses. Essa não é a primeira vez que o bairro tem problemas do gênero. Nos anos 1980 e 1990, Stalingrad fazia parte dos locais mal frequentados de Paris. Mas como em outras capitais europeias, a gentrificação passou por lá e essa região até então popular mudou de cara. Cafés animados, cinemas com filmes cabeça, startups e mercados de produtos orgânicos fazem parte do cenário atual, pontuado por um desfile de moradores cada vez mais endinheirados, que aproveitaram os baixos preços dos imóveis na região para encontrar moradias mais espaçosas. O mercado imobiliário acompanhou o movimento e hoje já é possível encontrar apartamentos que custam mais de € 10 mil o metro quadrado. Às margens do Canal Saint Martin – o mesmo de onde Amélie Poulin jogava suas pedrinhas no filme emblemático da Paris dos anos 2000 – casais empurram seus carrinhos de bebês e grupos de amigos fazem piquenique ou jogam pétanque (a bocha francesa) mostrando uma vida vibrante, daquelas que as publicidades voltadas para consumidores mais jovens adoram filmar. Aliás, uma escola de cinema e outra de teatro também funcionam na região, é não é raro ver seus estudantes fazendo exercícios de vídeo por lá. Mas o que os moradores de Stalingrad têm visto atualmente está bem longe desse cartão postal de civilização moderna. Nos últimos meses, algumas ruas e praças estão sendo tomadas novamente por traficantes e usuários de drogas – principalmente crack. Colina do Crack A situação começou a se degradar em 2018 e principalmente em 2019, quando uma zona situada fora da cidade, conhecida como “colina do crack”, foi desmantelada pela polícia. O local ficava próximo a acampamentos de migrantes, que se instalaram aos poucos na região na esteira da crise migratória de 2015, criando uma grande zona de insalubridade e delinquência na beira do cinturão periférico que cerca Paris. No entanto, pouca coisa foi feita para resolver a situação de forma perene e os frequentadores apenas mudaram de lugar, se aproximando do centro da cidade – e dos olhos dos parisienses. Além do passado menos glorioso de Stalingrad, o bairro também acolhe, desde 2016, um projeto de salas para o consumo de drogas derivadas do ópio. Mesmo se esses locais não acolhem usuários de crack, eles acabaram criando um ambiente atrativo para os traficantes expulsos da “colina”, assim como seus clientes. Mas a degradação maior aconteceu no último ano. Com o lockdown e o toque de recolher, que provocaram o fechamento temporário dos bares e restaurantes do bairro, as ruas da região ficaram vazias e, aos poucos, começaram a ser tomadas pelos usuários de drogas. Fotos feitas pelos moradores mostram cenas decadentes, em plena luz do dia, com homens e mulheres procurando pedras de crack nas calçadas, negociando com traficantes, consumido as drogas diante de todos, se prostituindo, brigando entre si e importunando quem vive nos prédios da região. Durante a noite, algumas ruas mais parecem cenas de The Walkind Dead ou A Noite dos Mortos-Vivos. Desde janeiro, dois usuários de drogas morreram na rua e um homicídio já foi registrado. Panelaço dos moradores Uma situação que resultou nos ataques com rojões no início do mês. Além disso, os moradores se organizaram e, todas as noites, às 20h, saem nas janela e fazem um panelaço. A mobilização popular fez as autoridades reagirem. Após meses de empurra-empurra, com a prefeitura (que cuida da limpeza das ruas) jogando a responsabilidade para o governo nacional (que cuida de parte do policiamento), o secretário de segurança pública de Paris, Didier Lallement, decidiu reforçar a segurança e aumentou o número de agentes nas ruas. Associações também reforçaram sua presença. Mas a ação mais emblemática foi implementada esta semana, com a decisão de enviar todos os consumidores e traficantes – com a ajuda da polícia e de mediadores da prefeitura – para o Jardim Eole, um parque urbano situado a menos de um quilômetro de distância dali. Agora, os dependentes são encaminhados para o local, longe dos olhares da vizinhança. No entanto, o parque, que conta com mesas de pingue-pongue, quadras de basquete, um jardim compartilhado e até uma mini fazenda voltada para as crianças, com cabras, coelhos e galinhas, é bastante frequentado pelos moradores, adultos e crianças, que não gostaram nada da ideia. “Devolvam o nosso parque”, pode-se ler nos cartazes colados no bairro desde segunda-feira (17), quando o projeto foi implementado. Além do panelaço, que continua diariamente, várias famílias também têm se reunido nas ruas no final da tarde em sinal de protesto. A prefeitura afirma que a medida é temporária e que “o parque não foi sequestrado”, de acordo com Emmanuel Grégoire, um dos adjuntos da prefeita de Paris, Anne Hidalgo. Segundo ele, essa foi a única solução encontrada por enquanto, já que o simples fato de expulsar os consumidores do drogas do bairro iria apenas transferir o problema para outro local. O Jardim d’Eole, que normalmente fecha as suas portas às 21h, agora funciona até 1h da madrugada. Depois desse horário, os usuários de drogas – muitos deles sem teto – voltam para as ruas.

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