Um pulo em Paris - Libaneses de Paris apoiam exigências sobre mudanças no sistema político do Líbano

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A França, assim como o Brasil, possui uma grande comunidade libanesa. Desde a última terça-feira (4), quando uma grande área de Beirute foi devastada pela explosão de 2.750 toneladas de nitrato de amônio estocados no porto da cidade, os libaneses de Paris se mostram inconformados e revoltados com a negligência dos governantes. A maioria têm familiares ou conhecidos afetados pela tragédia. Pelo menos 40 franceses ficaram feridos nas explosões ocorridas na capital libanesa. O arquiteto franco-libanês, Jean-Marc Bonfils, de 57 anos, morreu atingido por estilhaços dentro de seu apartamento, quando filmava da janela o incêndio no depósito de nitrato de amônio. Nascido em Beirute, Bonfils se formou em arquitetura em Paris e retornou ao Líbano em 1995, para reconstruir o patrimônio cultural destruído durante vários anos de guerra civil (1975-1990). A Justiça francesa abriu uma investigação por homicídio culposo para a apurar as circunstâncias do desastre. Pelo menos 120.000 libaneses vivem na França, a grande maioria, 85.000 pessoas, da comunidade cristã maronita, a mesma do presidente libanês, Michel Aoun. O ponto de encontro na capital é a Catedral Notre Dame do Líbano, construída em 1894, onde as missas seguem o rito católico oriental. Os primeiros libaneses a vir para a França chegaram no país em 1614, a convite do rei Luís XIII. Depois continuaram emigrando, em etapas, fugindo dos conflitos na região. Hoje, eles formam uma sólida comunidade em Paris. Desde o ano passado, quando os protestos se intensificaram no Líbano devido à uma crise econômica sem precedentes, a diáspora libanesa em Paris organizou dezenas de manifestações de apoio para exigir mudanças em Beirute. O pacto nacional que divide o poder político no Líbano, segundo uma lógica de distribuição de cargos entre as várias comunidades étnicas e religiosas que compõem a sociedade libanesa, criou um sistema clientelista e corrupto que paralisou o Estado, tornando-o ineficaz e incapaz de atender às demandas da população. Nos últimos dias, vários analistas franceses de geopolítica enfatizaram que além dos laços históricos e políticos, França e Líbano compartilham uma história afetiva. A ligação entre os dois países ao longo dos séculos não é meramente diplomática, estratégica, econômica, política e menos ainda colonialista, embora possa se questionar, naturalmente, essa visão. O presidente francês, Emmanuel Macron, foi o primeiro líder estrangeiro a visitar Beirute, na quinta-feira (6), mas condicionou a ajuda francesa e internacional a reformas no sistema político libanês. Na França, as declarações de Macron foram criticadas por uma parte da oposição. Tanto o líder da esquerda radical, Jean-Luc-Mélenchon, quanto Marine Le Pen, líder da extrema direita, acusaram Macron de ingerência na política libanesa. Aliados de Mélenchon lembraram que o protetorado francês no Líbano, que durou pouco mais de 20 anos, acabou em 1941 e foi seguido pela independência do país, em 1943. Disseram que Macron foi arrogante, ao ter dado ordens aos dirigentes libaneses. Acharam que ir conversar com o povo na rua, num bairro popular devastado pelas explosões em Beirute, foi pura comunicação. Macron rejeitou as acusações e repetiu que as próximas três semanas serão decisivas para o Líbano. Em outras palavras, como o chefe de Estado francês anunciou que voltaria a Beirute em setembro, para verificar pessoalmente o andamento das reformas, o futuro da ajuda francesa e internacional está condicionado à mudança do sistema. Macron também pediu ao presidente libanês uma auditoria no Banco Central do país, suspeito de realizar operações de lavagem de dinheiro, e uma investigação internacional independente sobre as explosões no porto de Beirute. A imprensa francesa, especialistas e membros de partidos moderados estimam que Macron falou alto o que todo mundo queria dizer. O pacto nacional que divide o poder político no Líbano é o maior problema do país neste momento, por impedir a emergência de talentos capacitados para estruturar um Estado moderno. Libaneses da diáspora teriam uma forte contribuição a fornecer nesse sentido. Assessores que acompanharam a visita de Macron a Beirute contaram que as autoridades locais saíram "lívidas" do "diálogo exigente e franco" do líder francês. Para os países ocidentais, está fora de questão abrir a carteira sem garantir que a ajuda permitirá uma verdadeira reconstrução do país. Em 2018, a França conseguiu mobilizar US $ 11 bilhões de investimentos durante a Conferência Econômica para o Desenvolvimento do Líbano, destinados a empresas libanesas, obtendo a participação de Alemanha, Reino Unido, Japão e instituições europeias. Mas esses recursos estão sujeitos a uma reestruturação do sistema econômico libanês que ainda não foi iniciada. A França "não aceitará um compromisso financeiro enquanto as reformas não forem realizadas", dizem diplomatas sob anonimato. Hipótese de um míssil: Aoun pede à França imagens de satélite Nesta sexta-feira (7), o presidente Aoun disse que havia chegado a hora de rever o sistema político em seu país. Pela primeira vez, ele disse que a dupla explosão no porto de Beirute pode ter sido provocada "por negligência ou por uma ação externa", citando a hipótese "de um míssil". Jornalistas libaneses radicados em Paris evocaram a hipótese de um ataque desde as primeiras horas após a dupla deflagração. Aoun revelou que pediu pessoalmente a Macron "que forneça imagens aéreas para que as autoridades libanesas possam determinar se havia aviões no espaço (aéreo) ou mísseis" no momento das explosões. O líder do movimento libanês Hezbollah, Hassan Nasrallah, negou "categoricamente" que o movimento xiita tenha um "armazém de armas" no porto de Beirute. Nasrallah disse que a explosão foi "uma tragédia humana" e elogiou a visita de Macron, que se encontrou com vários líderes libaneses, também do Hezbollah. Por outro lado, o presidente do Líbano descartou dois apelos de Macron: uma auditoria no Banco Central libanês, que é considerado uma caixa-preta pelos ocidentais. Ele também rejeitou o pedido para uma investigação internacional independente sobre as circunstâncias das explosões, alegando que isso poderia prejudicar "a clareza das investigações" que as autoridades do governo estão fazendo. Pelo menos 16 funcionários do porto de Beirute estão em detenção domiciliar, incluindo o diretor-geral das docas. Os Estados Unidos anunciaram hoje que irão enviar imediatamente US$ 15 milhões em alimentos e medicamentos ao Líbano. A União Europeia já enviou uma ajuda humanitária de emergência de € 33 milhões. O balanço de vítimas da tragédia subiu para 154 mortos e 5.000 feridos.

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