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Os aristocratas do fim do mundo. Uma conversa com Luís Gomes

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Traficantes de sinais que persistem entre a escória de cada época, cabe aos livreiros um papel fundamental nas operações de resgate e nesse cultivo de uma esperança que, ao contrário do que se pensa, não nasce de uma visão tranquilizadora e optimista, mas de uma laceração da existência vivida e confrontada depois de se lhe arrancar todos os véus. É precisamente isto o que gera uma irreprimível necessidade de resgate. A esperança é, afinal, um conhecimento completo das coisas, e não apenas de como surgem e são, mas também daquilo em que têm de se converter para se conformarem com a sua realidade mais plena. Aprendemos com os livreiros a respeitar um convívio num tempo mais largo, a reconhecer como há em cada realidade outras potencialidades que podemos explorar além do cárcere do nosso tempo. Como nos diz Claudio Magris, o verdadeiro desencanto é uma forma irónica, melancólica e aguerrida da esperança. O desencanto, que corrige a utopia, reforça esse seu elemento fundamental, que é a crença na possibilidade de, mesmo quando não nos é possível transformar o mundo, existir margem para mudar a vida. Se uma voz nos diz que a vida não tem sentido, é possível encontrar por vezes no seu timbre profundo o próprio eco desse sentido. Essa é a forma de persistência de algumas obras, sendo próprio da poesia essa capacidade de representar as contradições sem resolvê-las conceptualmente, mas compondo-as numa unidade superior, elusiva e musical. Continuamos a dar corda à epopeia que nos resta, sabendo que faz parte dessa busca ir recuperando forças nas poucas livrarias que escapam ao modelo de grande superfície franchisada, aquelas cujas prateleiras não estão ocupadas pelo ranço daquilo a que os vendedores chamam novidades. Depois de uma larga temporada no Largo da Misericórdia, antes de Lisboa se ter transformado em mais outro inferninho turístico, depois de dois anos na Avenida Elias Garcia, aquele que é um dos nossos livreiros mais empenhados nesse tráfico galante aceitou o convite de José Pinho e ocupa, desde há uns anos, o espaço de uma antiga adega, em Óbidos. Um generoso covil na província, onde Luís Gomes deixa que o tempo afine uma ideia de eternidade, que, longe de ser um bairro de deuses, é antes um modo de extravasar todos os vasos, qualquer forma mimando o seu descanso, é uma inquietação essencial, em todos os sentidos, em todas as direcções.

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