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Uma Outra Educação. Conversa com Jorge Ramos do Ó

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É preciso saber andar pelo passado, alimentarmo-nos dele, e não como qualquer coisa morta, mas como matéria que é possível constelar com o presente, reinterpretar, sem repetir os mesmos gestos, caindo na prisão de um encanto mítico. Em tempos, a escrita e a leitura, sendo actividades vagarosas, reconheciam que a tarefa que se nos impunha era avançar para trás, na direcção da coisa desconhecida no interior da própria cultura. Era preciso saber perder o tempo em busca do tempo perdido, e valer-se de toda essa abandonada riqueza. Outros já souberam a palavra que te falta ou que ignoras, outros fizeram a seu tempo os gestos necessários. É preciso saber renunciar à engrenagem diabólica deste tempo, interromper-se, romper com um modelo de educação que passa por imitar até ao ridículo os gestos e a linguagem dos seus antecessores, deixando escapar o elemento transformador das suas acções e escolhas. É preciso renunciar também à nostalgia, uma vez que nela também se escondem o poder, a violência, as velhas hierarquias e valores repressivos. E, no entanto, há essa pequena luz bruxuleante, a das estrelas vencidas, há esses murmúrios distantes nos quais é possível beber outra instrução. É fácil deixar escapar o principal, pois a época impõe sempre o seu pânico, e vem-nos com falsas urgências, os seus índices. Talvez fosse melhor que surgisse de uma vez uma geração que se desse realmente conta de que não tem nada a perder, e essa estivesse por fim disposta a levar a sua consciência e convicções até às últimas consequências. Estamos necessitados de algum grau de radicalismo interior, de uma inquietação profunda diante do mundo, de forma a nos interessarmos pelo abismo deste tempo, pelos desafios próprios da época que nos corresponde. Se não falta por aí esse fácil pessimismo apocalíptico que permite a alguns maestros da retórica viverem em bicos de pés, sempre a conjecturarem cenários para acicatar as nossas inseguranças e medos, o que tem faltado é uma verdadeira vontade de perceber o que possa ser o fim do mundo. Como assinalava Eduardo Viveiros de Castro, pode ser que hoje estejamos a passar pela mesma coisa por que passaram os índios em 1500. "Eles continuam aí, mas o mundo deles acabou em 1500. Se formos falar do fim do mundo, pergunte aos índios como é, porque eles sabem. Eles viveram isso. A América acabou. Pode ser que venhamos todos a ser índios, nesse sentido. Todos venhamos a passar por essa experiência de ter um mundo desabando. No caso deles, eles foram invadidos por nós. Nós também vamos ser invadidos por nós. Já estamos sendo invadidos por nós mesmos. Vamos acabar com nós mesmos da mesma maneira como acabámos com os índios: com essa concepção de que é preciso crescer mais, produzir mais." A pior forma de se confrontar com as coisas é achar que se conhece o problema, não chegar sequer a formular as perguntas, a enquadrar de forma correcta a crise que temos diante de nós. É preciso instigar a dúvida, e para isso, para aprofundar uma reflexão crítica sobre as questões da educação, neste episódio contámos com esse esforço peregrino de Jorge Ramos do Ó, historiador e professor do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa. Alguém que se tem batido para contrariar o regime de sufoco e todos os constrangimentos e as formatações que se colocam nos actuais modelos de ensino, e também de investigação e exploração no quadro académico, denunciando essas forças que tendem para a fixação de sentidos e para a progressiva rigidez dos modos de pensar.

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