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Não há assunto mais urgente que a mudança climática

 
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Então, eu quero começar a sexta temporada do Tecnocracia falando sobre tempo. Sobre duas acepções de tempo.

A primeira delas: o tempo como a sucessão irreversível de eventos que transforma o presente em passado e o futuro em presente. O tempo como os segundos que avançam no seu relógio. O tempo acumulado que resulta em cabelos brancos, dobras caídas e memória falha. O tempo nos dá distanciamento do que já vivemos, do que estamos vivendo agora. E este olhar à distância nos permite entender melhor o que passou. Dar um roteiro, conectar pontos. Essa interpretação acontece em camadas — quanto mais tempo te separa do evento, maior o contexto, mais profundo consegue ser o entendimento. Tal qual o jornalismo é o primeiro esboço da história, o recesso de fim de ano é também a primeira tentativa de olhar para trás e tentar entender que porra foi aquele ano dentro da sua história.

Então, vamos à pergunta tradicional de toda estreia do Tecnocracia: descansou? E outra pergunta, nova: pensou no que foi seu ano? Todo processamento de uma fatia de tempo envolve, obviamente, coisas que aconteceram só com você e que não dizem respeito a mais ninguém a não ser às pessoas no seu entorno. Num ano, acontecem coisas que você planejou, que você não planejou. Que vieram suaves e que caíram como uma bigorna. Que se encaixaram no que você já estava fazendo e que exigiram abrir uma nova picada.

Essa pausa no fim de ano é fundamental para olharmos para trás e, com um mínimo de distanciamento, entendermos como aquilo tudo se encaixa nos nossos desejos e objetivos. Recalibra, recomeça e segue a vida. Por que também tem outro ponto: é bem provável que algo que você considere muito impactante nessa primeira revisão se torne descartável com o passar dele, o tempo. No sentido contrário, coisas que você revisou e deu de ombros podem se revelar, lá na frente, como bem mais impactantes do que você considerou na hora. O tempo tem esse poder — desde que você preste atenção.

Mas nem tudo é o que só acontece na nossa vida. Há os fatos compartilhados, aqueles que atingem a todos nós. Para ajudar a pensar nos mais importantes, vou propor pensarmos em recordes de 2023. Que dados do ano passado foram os maiores da história? Quer que eu comece? Em março, morreu na África do Sul Johanna Mazibuko, candidata a mulher mais velha do planeta. Até então, a pessoa mais velha no Livro dos Recordes tinha 115 anos. Tem uma questão aí de reconhecimento, mas isso é papo para outra hora. Legal, curioso, mas afeta quem? Provavelmente a família da Johanna e a do próximo mais idoso, que vai herdar o título — e entrar em contagem regressiva até perdê-lo. Fora isso, é uma curiosidade de boteco. Três minutos depois que você ouve, não lembra mais.

Vamos tentar achar recordes mais impactantes. Que tal analisarmos esportes? Em esportes, dos 10 ataques mais efetivos da história da NBA nada menos que 9 estão acontecendo nesta temporada — o Boston Celtics de 2023/20241 é o time mais eficiente em ataque na história do esporte, segundo levantamento do StatMuse. A NBA está passando por uma era de ouro do ataque. Mais sério, mas ainda de impacto limitado — basicamente interessa aos milhões de fãs espalhados pelo mundo, eu incluído.

Vamos tentar pensar em algo que atinja mais gente. Que tal economia? A Eras Tour de Taylor Swift foi a turnê que mais rendeu grana na história do capitalismo e a primeira a quebrar a marca de US$ 1 bilhão na venda de ingressos. Para ter uma ideia do tamanho, a turnê da nova queridinha da NFL rendeu mais que as duas turnês seguintes — Beyoncé e Bruce Springsteen — somadas, segundo levantamento da Pollstar2. Motivo de honra para as swifters do mundo e uma demonstração inegável de poder de uma das grandes artistas da atual geração. Mas, ainda que maior que os exemplos anteriores, este ainda não atinge a maioria de nós.

Agora vamos ao definitivo: qual recorde que atinge absolutamente toda a humanidade e tem sérias implicações em todas as facetas da vida foi quebrado em 2023? Abre aspas para a Reuters em 9 de janeiro de 2024:

Ano passado foi o mais quente da história do planeta por uma margem substancial e provavelmente o ano mais quente dos últimos 100 mil anos, afirmou o European Union’s Copernicus Climate Change Service (C3S). Cientistas amplamente esperavam essa marca, após recordes climáticos serem quebrados em sequência. Desde junho de 2023, todo mês se tornou o mais quente da história na comparação com o mês correspondente dos anos anteriores.

Vamos colocar em contexto quando o C3S fala que provavelmente 2023 foi o ano mais quente dos últimos 100 mil anos. O que era a Terra há 100 mil anos? Ainda que o Homo sapiens tenha surgido há 300 mil anos, a antropologia considera que o comportamento humano moderno, algo que a Lu Gimenez arqueóloga chamaria de “behavioral modernity”, surgiu entre 150 mil e 75 mil anos atrás, ou seja, ainda que com o hardware final, o software que faz o ser humano ser o ser humano3, como normais sociais, o desenvolvimento da língua e a cooperação, só se desenvolveu em sua forma definitiva por ali. Desde que somos o que somos o planeta nunca foi tão quente.

É esta a segunda acepção de tempo sobre a qual falaremos hoje: como clima, a interação entre variáveis meteorológicas durante um certo período de tempo4. É bem verdade que a Terra já passou por outros movimentos de aquecimento abrupto — há mais de 252 milhões de anos, antes dos dinossauros, uma série de erupções na Sibéria produziram tanto calor que 96% das espécies marinhas morreram. Foi o maior evento de extinção da história da Terra e suas causas foram naturais. A que estamos passando agora, porém, não tem nada de natural: já existe há décadas um consenso da ciência de que o aquecimento é provocado pela nossa ação 5.

Conforme o tempo (na primeira acepção) avança, a gente coloca em perspectiva a vida para entender o que importa e o que é perfumaria. São poucos os assuntos mais importantes para a minha geração e as posteriores que a segunda acepção de tempo. A sexta temporada do Tecnocracia começa com o tenebroso caminho que estamos tomando com as mudanças climáticas e como 2023, com seus recordes climáticos, foi uma espécie de cartão de visitas. Não existe uma viva alma no planeta que passará incólume pelo que virá. Já passou da hora de prestar atenção a sério e entender o que causa, o que dá para fazer, o que é pura ilusão e como se preparar. Não há gadget ou serviço online mais relevante do que o clima do planeta.

Na sexta temporada, o Tecnocracia terá 12 episódios. Este é o primeiro. Eu sou o Guilherme Felitti e o Tecnocracia está na campanha de financiamento coletivo do Manual do Usuário. Se quiser apoiar, manualdousuario.net/apoie.

Se a gente vai se preocupar sobre o tema, a gente precisa saber discuti-lo além das obviedades. Vamos, então, conversar sobre alguns pontos fundamentais das mudanças climáticas que vão além da tartaruga com canudo no nariz.

O estudo do C3S que apontou 2023 como o ano mais quente em muito tempo pode ser resumido em um número, aparentemente pequeno: 1,48. A temperatura do planeta Terra em 2023 foi 1,48º C mais quente que a média registrada no período pré-industrial, entre 1850 e 1900. Por que estou sendo preciso nos 1,48º C? Você já ouviu falar do Acordo de Paris, né? Em 2015, delegações de 195 países se reuniram em Paris para debater na COP-21 o que a humanidade poderia fazer para frear a emissão de gases e, consequentemente, o aumento da temperatura. No texto final do chamado Acordo de Paris, os países chegaram ao consenso de que fariam esforços para restringir o aumento da temperatura do planeta em apenas 1,5ºC.

Ou seja: estamos a 0,02º C de ultrapassar este limite menos de uma década depois dele ser definido. Depois de um 2023 mais quente que qualquer outro ano do registro histórico, não há qualquer indício de que a tendência seja desacelerar. Nas palavras do C3S:

Uma previsão recente para o ano (de 2024) sugere que ele pode ser ainda mais quente que 2023, com uma probabilidade considerável de que o ano-calendário terminará com uma temperatura média acima do 1,5°C acima do nível pré-industrial, de acordo com múltiplos bancos de dados.

Não precisa nem esperar o próximo relatório do C3S. Abre aspas para reportagem do jornal Folha de S.Paulo de fevereiro de 2024:

Medições feitas com base na estrutura de esponjas marinhas centenárias sugerem que a Terra já pode ter esquentado 1,7°C em relação à temperatura média anterior à era dos combustíveis fósseis. Os dados acabam de sair em artigo na revista especializada Nature Climate Change. “É como se tivéssemos adiantado o relógio da mudança climática em cerca de uma década”, resumiu um dos coordenadores do estudo, Malcolm McCulloch, do Instituto dos Oceanos da Universidade do Oeste da Austrália, em entrevista coletiva online.

Tem muita palavra? Eu resumo em uma: fodeu.

Vamos dar vários passos para trás e entender a base fundamental do problema: o carbono. Quer dizer, não é bem o carbono. O carbono sempre existiu na Terra desde sua formação, há coisa de 4,6 bilhões de anos. O carbono, símbolo C e número atômico 6 na tabela periódica, é um dos elementos químicos mais importantes do Universo — em volume de massa, só fica atrás do hidrogênio, do hélio e do oxigênio. Não só em estrelas: o carbono é o segundo elemento químico mais abundante nesse veículo de carne que você chama de corpo — quase 20% de você é carbono. O carbono está em você, no grafite, no diamante, nas roupas de algodão, em fertilizantes, em cosméticos e também está “preso” em material orgânico morto — animais ou plantas — sob alta pressão e temperatura por milhões de anos.

Quando você tira carbono do solo e aplica altas temperaturas nesse material, o que a humanidade chama de combustível, libera esse carbono “preso” na forma de um gás chamado dióxido de carbono, fórmula CO2 para quem amava química no colégio. O dióxido de carbono sai de chaminés industriais, incêndios florestais, do escapamento do seu carro, é produzido pela fabricação de cimento e acaba absorvido pelo meio ambiente. Uma quantidade enorme dele vai parar na atmosfera e fica lá de boa, sem se dissipar. Não seria um problema enorme se o planeta Terra não recebesse constantemente uma carga de energia de uma estrela sobre a qual você já ouviu falar sobre chamada Sol. A cada segundo, o Sol manda 694 Terajoules6 de energia para nós, o equivalente a dez bombas atômicas que o Cillian Murphy demorou 3 horas para fazer no filme do Christopher Nolan. A Terra absorve uma parte dessa energia e isso é uma notícia ótima — se não absorvesse, a temperatura média do planeta seria de -18º C. Como absorve, a temperatura fica numa média de 15º C. Cerca de 30% dessa energia é rebatida pela Terra de volta ao universo.

É aí que entra o carbono: quanto mais dióxido de carbono na atmosfera terrestre, mais difícil essa energia rebatida sair da atmosfera. O que era uma energia destinada aos cafundós da Via Láctea fica por aqui, esquentando o planeta. Não à toa, chama-se efeito estufa — tal qual uma estufa de plantas, o calor não consegue sair.

O dióxido de carbono é o principal, mas não é o único. Outro gás que captura essa energia solar rebatida pela Terra é o metano.

O metano fica na atmosfera por até 12 anos, em comparação aos 10 mil anos de vida do dióxido de carbono. Boa notícia, mas a molécula do metano absorve muito mais calor que a do CO2. Péssima notícia. A ciência tem formas de medir a evolução na quantidade de metano e CO2 na nossa atmosfera. Enquanto eu gravo isto, em fevereiro de 2024, há 425 partes por milhão (ppm) de dióxido de carbono na atmosfera terrestre. Na década de 1960, eram 316 — todos os dados são da National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), o órgão do governo norte-americano que mensura fatores relacionados ao clima. Usando amostras de gelo dos pólos, cientistas concluíram que nos últimos 800 mil anos, o CO2 nunca tinha passado da faixa dos 300 ppm. Vale o mesmo raciocínio para o metano: lá no ano 1.020, eram menos de 700 partículas por bilhão (ppb). O número se mantém mais ou menos o mesmo até 1.800, quando começa a crescer. Em 1.924, passa dos mil. Em 1.978, passa dos 1,5 mil. Hoje, está chegando a 2 mil.

Essa aceleração começa, sem surpresa, logo após a Revolução Industrial, 1760. Sabendo que a revolução durou entre 60 e 80 anos, estamos então falando do começo do século XIX. É ali que se começa a queimar combustível fóssil como forma de suprir a energia necessária para a mecanização da economia — começa com o carvão, que alimenta máquinas a vapor em fábricas, locomotivas a vapor e navios, e segue para petróleo e gás natural, usados até hoje. Quanto mais a industrialização avançava em setores da economia e pelo mundo, mais dióxido de carbono a queima de combustíveis fósseis despejava no meio ambiente.

Esse aumento enorme a partir do século XIX fica muito claro no gráfico criado pelo Our World in Data do volume de emissões anual por região do mundo de acordo com o Global Carbon Budget. Em 1800, eram 33 milhões de toneladas de CO2 despejadas no meio ambiente, majoritariamente na Europa. Um século depois, em 1900, já eram mais de 2 bilhões de toneladas. Depois do fim da Segunda Guerra Mundial, o número cresce em um ritmo ainda mais forte: em 1950, já são quase 6 bilhões. Em 1963, passa de 10 bilhões. Em 1984 (ou seja, 21 anos depois), passa de 20 bilhões. Em 2006 (ou seja, 22 anos depois), passa de 30. Em 2022, foram 37 bilhões de toneladas de CO2. Se a gente considerar outros gases que prendem calor na atmosfera, incluindo o metano e o óxido nitroso, esse volume já está em 51 bilhões de toneladas por ano.

Gráfico de emissões anuais de CO₂ por regiões do mundo.
Gráfico: Our World in Data/Reprodução.

O que chama atenção no gráfico é como, depois de 1950, a linha cresce quase verticalmente, com enorme contribuição de China, EUA e o resto da Ásia. África e América do Sul aparecem na rabeira.

Para terminar a apresentação do problema, vamos fazer um exercício em grupo. Eu vou te fazer uma pergunta, te dar alguns segundos para você pensar e você responde, ok? De todas as atividades humanas, qual é a que, no agregado, mais despeja CO2 no meio ambiente?

Pode pensar.

Segundo uma teoria bem popular, o maior vilão do efeito estufa é o transporte, as emissões de carros, caminhões, navios e afins. No mundo real, transporte não é a primeira, nem a segunda e nem a terceira categoria que mais despeja carbono na atmosfera. A líder é a produção de itens, principalmente cimento, ferro e plástico, com 31% do volume anual. Em segundo, vem a produção de energia, com 27%. Em terceiro estão atividades ligadas à produção de comida, principalmente plantas e animais, com 19%. Transporte vem só em quarto, com 16%, seguido por aplicações que mantêm a temperatura da sua casa ou do seu escritório constante, com 7%. Daqui a pouco eu falo de onde vêm esses números.

Recapitulando: produção industrial, geração de energia, animais e plantas para alimentação, transporte e calefação. Guarda esse ranking para a parte das soluções, ok?

Com esse aumento de 1,5º C praticamente nos livros, que consequências a gente pode esperar? A notícia péssima é que muita coisa a gente sabe, mas ainda mais a gente não tem a menor ideia. Comecemos com o que a gente sabe. A Terra fica, obviamente, mais quente. “Ah, Guilherme, mas 1,5º C a mais é de boa.” Em São Paulo, a cidade com as quatro estações em um dia, se a amplitude da temperatura ficasse em 1,5º C estava todo mundo feliz. Se está 26º C e cai para 24,5º C ou sobe para 27,5º C, você provavelmente nem vai sentir. O problema é que não se mede a temperatura do planeta da forma como a gente olha no celular para ver se é bom pegar uma blusinha antes de sair de casa. A medição da Terra é feita a partir da média de todas as temperaturas do planeta.

Abre aspas para o livro que melhor conectou todas essas questões das mudanças climáticas:

Em termos climáticos, uma mudança de apenas alguns graus é um grande negócio. Durante a última era glacial, a temperatura média do planeta era apenas 6º C mais baixa do que é hoje. Durante a era dos dinossauros, quando a temperatura média era 4º C mais elevada do que hoje, havia crocodilos que viviam acima do Círculo Polar Ártico.

Este é um dos muitos trechos que você vai ouvir neste episódio tirados de Como evitar um desastre climático, escrito pelo Bill Gates. O ranking de produção de carbono anual eu tirei dali. Eu sei que tem gente excelente na bolha ambientalista que torce o nariz para um bilionário de fora do setor dando pitacos, mas o Gates, certamente com a ajuda dos melhores ghost writers e consultores do mundo, escreveu um livro que amarra muito bem e explica de forma bastante mastigada todos os pontos principais das mudanças climáticas. Até gente que acha que entende do metiê deve aprender alguma coisa no livro — eu mesmo percebi o quão pouco eu sabia de um assunto que eu achava que sabia. Este episódio foi feito baseado em duas leituras que eu recomendo fortemente: o livro do Gates e o relatório que o Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) lançou em março de 2023 sobre o estado das mudanças climáticas no mundo. O IPCC pinta um cenário terrível, combustível para pesadelos, já que o assunto é energia.

Close em Bill Gates de óculos com uma tela refletida nas lentes.
Foto: Netflix/Divulgação.

“Cada aumento de um décimo de grau representa combustível termodinâmico extra que intensifica ondas de calor e tempestades e acelera tanto a subida dos oceanos como o derretimento de geleiras e mantos de gelo”, diz reportagem do jornal New York Times sobre o recorde de 2023.

Foi tudo isso que vimos no ano passado. O Canadá teve sua temporada de incêndios mais destrutiva na história, com mais de 18,5 milhões de hectares queimados. O valor é seis vezes maior que a média da última década. A temperatura do oceano foi a mais alta da história, segundo a NOAA. A cobertura de gelo nos pólos também sofreu: na Antártica, foi a pior da história e, no Ártico, a sexta pior, segundo o Climate Change Service, ligado à União Europeia.

A China teve um ciclo recorde de chuvas, o maior desde 1891. Cidades ao redor do mundo atingiram recordes históricos de temperatura: Toulouse, na França, com 42º C; Algiers, na Algéria, com 49º C, Agadir no Marrocos com 50º C, Phoenix nos EUA com recorde histórico de 31 dias seguidos com temperatura acima de 43º C, Rio de Janeiro com uma sensação térmica histórica de — atenção — 59,7º C. O ritmo de subida do oceano foi de 1,4 milímetro por ano entre 1901–1990 para 2,1 milímetros por ano entre 1970–2015 para 3,2 milímetros por ano entre 1993–2015 para 3.6 milímetros por ano entre 2006–20157. Abre aspas para o relatório: “O oceano deverá subir entre 0,43 m e 0,84 m até 2100 relativo ao período entre 1986–2005.” Em 2100, o oceano deverá subir 15 milímetros por ano, quatro vezes mais que o ritmo atual.

Quatro mapas do Brasil mostrando registros climáticos de 2013–2023.
Gráficos: Fernando Barbalho.

No Brasil, nota-se o aumento no número de desastres naturais que são notificados pela Defesa Civil entre 2013 e 2023, principalmente estiagens e chuvas intensas. O gráfico, gentilmente compartilhado pelo cientista de dados no Governo Federal Fernando Barbalho, deixa clara a tendência, principalmente no Norte e Nordeste.

No geral, a temperatura recorde do planeta torna cataclismas climáticos, como furacões, secas e incêndios, mais frequentes e extremos, explica o IPCC. Mas o grande problema deste debate é que o clima é um sistema complexo. É difícil cravar as consequências de sistemas complexos quando mudam alguns dos fatores que o compõem. Tem muita coisa que dá para imaginar, mas o que apavora cientistas é: 1) o que está no nosso ponto cego; e 2) não dá para ser otimista.

Quem vai ser atingido por essas consequências? Todo mundo, mas principalmente os pobres.
Um exemplo prático bastante ilustrativo que Andrew Dessler, cientista climático da Universidade Texas A&M, escreveu na newsletter The Climate Brink:

Minha esposa me contou sobre um novo grupo de membros em sua academia: pessoas ativas de 70 anos que costumavam fazer caminhadas pela vizinhança. Porém, devido ao calor insuportável no Texas, eles ingressaram em uma academia e agora andam em esteiras em ambientes fechados. Esta história incorpora vários aspectos dos impactos climáticos que todos deveriam compreender.

Primeiro, este é um exemplo de impactos climáticos não lineares. Embora as temperaturas tenham aumentado gradualmente ao longo do último século, só recentemente é que ultrapassaram um limiar crítico que tornou os passeios ao ar livre literalmente insuportáveis para estas pessoas.

Em segundo lugar, é assim que se parece a adaptação às alterações climáticas. Ao contrário do que normalmente é retratado pelos que desprezam o clima, a adaptação não é gratuita. Essas pessoas estão pagando US$ 50 por mês pela academia, o que é um substituto inferior para algo que costumavam receber de graça: um ambiente fresco o suficiente para entrar.

Portanto, essas pessoas estão em pior situação financeira e não estão tendo uma experiência tão boa como antes. E eles são os sortudos – eles têm a oportunidade e os recursos para fazer isso. Há também os custos não monetários da adaptação. Quando está muito quente para sair durante o dia, você fica prisioneiro do ar condicionado em vez de sair para tomar ar fresco e fazer exercícios. Perdemos algo valioso, mas difícil de quantificar.

Como o Kottke, um dos blogs mais antigos e interessantes, bem resumiu: “Climate Change Is Death by a Thousand Cuts” — as mudanças climáticas te matam com milhares de cortes, em tradução livre.

Quem fez a conta do impacto tão maior nos pobres foi o próprio IPCC, citado em artigo da revista piauí:

Na última década, o número de mortes causadas por secas, enchentes e tempestades nas periferias de cidades do mundo todo foi quinze vezes maior do que em regiões dotadas de infraestrutura. Quinze vezes mais mortes.

É por isso que você deve se preocupar. Ainda que você não acredite que é a ação humana que está acelerando o processo de aquecimento 8, não fazer nada significa sucumbir aos seus efeitos, um determinismo dos mais estúpidos. É o planeta onde você vive. Onde seus filhos vivem ou viverão. Onde seus netos, bisnetos e afins viverão. Onde a humanidade, uma parte pequena dela ligada a você, carregando seus genes, vai viver. Mas ainda que você seja o maior misantropo do planeta, odeie tudo que não seja si mesmo e goste tanto de carvão que carrega um no meio do peito, tem ainda outra razão: dinheiro. Os impactos climáticos são muito caros. Estudo conduzido pelos professores Ilan Noy e Rebecca Newman, da Victoria University em Wellington, na Nova Zelândia, calculou que os efeitos dos eventos climáticos mais extremos causados pelo aquecimento global custam US$ 16 milhões por hora. De 2000 a 2019, a economia global teve que desembolsar US$ 2,8 trilhões. A projeção para o futuro é que o custo, tal qual as temperaturas, seja ainda maior.

Já definimos bem o problema, suas causas e consequências. A solução é óbvia: é preciso descarbonizar urgentemente a economia global. Aquelas 37 bilhões de toneladas anuais de CO2 (ou 51 bilhões totais) precisam cair até um número — bem próximo do zero — que o meio ambiente consiga neutralizar sozinho. No ínterim, a economia global precisa continuar operando. No papel é muito simples. No mundo real, as dificuldades para descarbonizar passam por alguns fatores. Eu selecionei três dos principais: o custo de transição, a cegueira deliberada de quem dá ordem e, principalmente, a montanha de dinheiro que se fatura com combustíveis fósseis.

Comecemos pelo custo de transição. No seu livro, o Gates dá um exemplo muito cristalino usando o combustível fóssil mais popular: “Gasolina contém uma quantidade impressionante de energia — seria necessário juntar 130 bananas de dinamite para equiparar a mesma energia que um galão de gasolina tem.”9 Gasolina também é bastante barata e a infra-estrutura já está pronta, seja pela frota de milhões de carros que recebem como os milhões de postos pelo mundo que vendem. Ou seja: para substituir a gasolina nos carros, tem que ter um combustível tão barato e potente quanto e incentivar a migração de uma infraestrutura gigantesca já pronta. A grana e a inércia jogam a favor do aquecimento.

O segundo ponto é a cegueira deliberada de quem faz as leis. Em uma época de polarização radical, nada unifica tanto os pólos quanto uma visão da economia baseada no carbono. No geral, a extrema-direita se nega até a admitir as mudanças climáticas — Donald Trump enaltecia o carvão e Jair Bolsonaro desautorizou operações contra e incentivou garimpo e desmatamento ilegais na Amazônia. Um dos principais baluartes da extrema-direita no Brasil “argumenta”12 que eventos como a COP são inefetivos já que o Sol não foi convidado. Juro por Deus. Não que a esquerda seja tãããão melhor assim: o atual presidente da Petrobras, Jean Paul Prates, afirmou ao tomar posse do cargo que a estatal seria a última do mundo a parar de explorar petróleo e teve a cara de pau de reafirmar durante a COP28. É só lembrar que a esdrúxula ideia de explorar petróleo na foz do Rio Amazonas, apoiada pelo presidente Lula, foi discutida com seriedade.

O terceiro ponto é que já existe uma indústria gigantesca estabelecida que está gastando sua montanha de dinheiro para frear o máximo possível essa mudança. Antes da ascensão da Big Tech, quem eram as empresas mais valiosas do mundo? Financeiras e empresas de energia. Combustível dá muito dinheiro até hoje. E mesmo que soe contraintuitivo após tudo que você ouviu aqui, o consumo de combustível fóssil está acelerando quando deveria estar encolhendo. Abre aspas para a Reuters em janeiro de 2023:

As principais empresas de energia do Ocidente deverão registrar um lucro recorde combinado de US$ 200 bilhões no ano turbulento de 2022, marcado por uma enorme volatilidade nos preços do petróleo e do gás após a invasão da Ucrânia pela Rússia, com lucros dinâmicos que provavelmente se prolongarão até 2023.

O lucro monstruoso diminuiu o endividamento para o menor nível em 15 anos. Segundo o relatório ​​World Energy Investment 2023, publicado pela International Energy Agency (IEA), o lucro da indústria global de óleo e gás atingiu um valor recorde de — atenção — US$ 4 trilhões em 2022. Se fosse um país, o setor teria o quarto maior PIB do mundo, empatado com a Alemanha.

É assustador. No momento em que a temperatura do planeta sobe em velocidade recorde, a Big Oil está passando por uma nova era de ouro. Em 2024, a Shell anunciou que pagaria 4% a mais aos acionistas após registrar lucro de US$ 28 bilhões em 2023, melhor que o esperado pelo mercado. Caiu em comparação a 2022, quando o lucro chegou a US$ 40 bilhões, mas ainda é uma montanha de dinheiro. Onde usar tanta grana? Uma parte vai para financiar o lobby que se infiltra em administrações municipais nos EUA, quebra o recorde de gastos na Califórnia em 2023 e financia mais de 1,3 mil lobistas durante a COP28. Enquanto o planeta bate recorde de temperatura, a Big Oil bate recorde em lobistas e lucro. O objetivo é continuar a queimar combustível e jogar carbono na atmosfera.

Vamos amarrar tudo. A descarbonização tão urgente está acontecendo. As emissões dos EUA em 2023, por exemplo, foram quase 2% menores que no ano anterior, segundo estimativa da consultoria do setor Rhodium Group. A geração de energia usando carvão está caindo, enquanto as renováveis, como solar e eólico, seguem crescendo. O problema é que a velocidade ainda não é suficiente, o que nos leva às acepções iniciais de tempo. A humanidade não está mudando a tempo suficiente para mudar definitivamente o tempo. E vamos deixar claro: essa não é uma discussão só sobre tecnologia. Tem espaço para tecnologia, lógico. Mas só achar que um deus Ex-machina vai aparecer é um delírio. É preciso regulamentação. É tipo esperar ter um abdômen definido comendo Doritos com cheddar no sofá já que aqueles cacarecos que dão choques na barriga vão resolver.

A chamada captura (ou sequestro) de carbono, que extrai CO2 da atmosfera, é excelente no papel, mas ainda proibitivamente cara e pouco efetiva na prática. Eu não vou nem me aprofundar muito em créditos de carbono, a estratégia que o mercado criou para continuar poluindo, mas com a consciência limpa. O caminho aqui é só um: diminuir as emissões. Regulamentação forte. As tecnologias podem melhorar, lógico, mas muitas de enorme impacto já estão disponíveis. Esse é um debate sobre política. Sobre ideologia. Melhor: é um debate sobre incompetência. James Hansen é um ex-cientista da NASA que depôs para o Senado norte-americano em 1988 alertando sobre os perigos do excesso de carbono no meio ambiente. Atualmente, ele é diretor do Earth Institute, dentro da Universidade de Columbia. Abre aspas para frase do Hansen para o Guardian:

Quando nossos filhos e netos olharem para trás na história das mudanças climáticas provocadas por humanos, 2023 e 2024 serão vistos como um ponto de virada nos quais a incapacidade de governos lidarem com mudanças climáticas foi finalmente exposta. Não apenas os governos falharam em resolver o aquecimento global, o ritmo na verdade acelerou.

A meta do Acordo de Paris previa emissões zero entre 2030 e 2050 — no melhor dos cenários, são mais seis anos de emissões crescentes, temperaturas maiores e desastres climáticos mais severos. Dava para terminar falando que, quando governos e empresas entenderem o tamanho do problema, vai ser tarde demais. Mas a frase esconde uma verdade ainda pior: já é tarde demais. Agora a gente está vendo o quanto as gerações dos nossos filhos e netos — fora a nossa — vão se foder.

Esquece Twitter, metaverso, smartphone, até inteligência artificial. Se tem um tema prioritário para você gastar seus neurônios, é este. É o tema no qual eu tenho gasto os meus. Um cálculo da Bloomberg NEF estimou que serão necessários US$ 200 trilhões para zerar as emissões até 2050. É barato quando a gente considera que a alternativa é a morte.

O Tecnocracia vai voltar ao tema no decorrer do ano.

A gente volta mês que vem.

Foto do topo: Joédson Alves/Agência Brasil.


  1. Como a temporada começa em um ano e termina em outro, a NBA sempre as conta com os dois anos.
  2. Como eu gosto demais de paz na minha vida, me absterei de opinar sobre o tema.
  3. Meu sósia Arnaldo Antunes ficaria muito orgulhoso desta frase.
  4. Uma bela definição da Wikipédia.
  5. O Tecnocracia e o Manual do Usuário partem do pressuposto que qualquer discussão saudável parte sempre de um mínimo, de uma base. Neste assunto, a base é a conclusão da ciência de que este aquecimento é responsabilidade humana. Já que um dos temas do episódio é tempo, ninguém o tem de sobra para entreter delírios negacionistas. Porta da rua, serventia da casa, como diria minha avó.
  6. Em joules, isso significa 6,94 seguido por 14 zeros.
  7. Sim, existe um overlap (oi, Lu) nas medições.
  8. E se você não acredita, você é incapaz de olhar a realidade.
  9. Nos EUA, vende-se combustível por galão. Um galão dá 3,7 litros.
  10. Várias aspas, por favor.

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Então, eu quero começar a sexta temporada do Tecnocracia falando sobre tempo. Sobre duas acepções de tempo.

A primeira delas: o tempo como a sucessão irreversível de eventos que transforma o presente em passado e o futuro em presente. O tempo como os segundos que avançam no seu relógio. O tempo acumulado que resulta em cabelos brancos, dobras caídas e memória falha. O tempo nos dá distanciamento do que já vivemos, do que estamos vivendo agora. E este olhar à distância nos permite entender melhor o que passou. Dar um roteiro, conectar pontos. Essa interpretação acontece em camadas — quanto mais tempo te separa do evento, maior o contexto, mais profundo consegue ser o entendimento. Tal qual o jornalismo é o primeiro esboço da história, o recesso de fim de ano é também a primeira tentativa de olhar para trás e tentar entender que porra foi aquele ano dentro da sua história.

Então, vamos à pergunta tradicional de toda estreia do Tecnocracia: descansou? E outra pergunta, nova: pensou no que foi seu ano? Todo processamento de uma fatia de tempo envolve, obviamente, coisas que aconteceram só com você e que não dizem respeito a mais ninguém a não ser às pessoas no seu entorno. Num ano, acontecem coisas que você planejou, que você não planejou. Que vieram suaves e que caíram como uma bigorna. Que se encaixaram no que você já estava fazendo e que exigiram abrir uma nova picada.

Essa pausa no fim de ano é fundamental para olharmos para trás e, com um mínimo de distanciamento, entendermos como aquilo tudo se encaixa nos nossos desejos e objetivos. Recalibra, recomeça e segue a vida. Por que também tem outro ponto: é bem provável que algo que você considere muito impactante nessa primeira revisão se torne descartável com o passar dele, o tempo. No sentido contrário, coisas que você revisou e deu de ombros podem se revelar, lá na frente, como bem mais impactantes do que você considerou na hora. O tempo tem esse poder — desde que você preste atenção.

Mas nem tudo é o que só acontece na nossa vida. Há os fatos compartilhados, aqueles que atingem a todos nós. Para ajudar a pensar nos mais importantes, vou propor pensarmos em recordes de 2023. Que dados do ano passado foram os maiores da história? Quer que eu comece? Em março, morreu na África do Sul Johanna Mazibuko, candidata a mulher mais velha do planeta. Até então, a pessoa mais velha no Livro dos Recordes tinha 115 anos. Tem uma questão aí de reconhecimento, mas isso é papo para outra hora. Legal, curioso, mas afeta quem? Provavelmente a família da Johanna e a do próximo mais idoso, que vai herdar o título — e entrar em contagem regressiva até perdê-lo. Fora isso, é uma curiosidade de boteco. Três minutos depois que você ouve, não lembra mais.

Vamos tentar achar recordes mais impactantes. Que tal analisarmos esportes? Em esportes, dos 10 ataques mais efetivos da história da NBA nada menos que 9 estão acontecendo nesta temporada — o Boston Celtics de 2023/20241 é o time mais eficiente em ataque na história do esporte, segundo levantamento do StatMuse. A NBA está passando por uma era de ouro do ataque. Mais sério, mas ainda de impacto limitado — basicamente interessa aos milhões de fãs espalhados pelo mundo, eu incluído.

Vamos tentar pensar em algo que atinja mais gente. Que tal economia? A Eras Tour de Taylor Swift foi a turnê que mais rendeu grana na história do capitalismo e a primeira a quebrar a marca de US$ 1 bilhão na venda de ingressos. Para ter uma ideia do tamanho, a turnê da nova queridinha da NFL rendeu mais que as duas turnês seguintes — Beyoncé e Bruce Springsteen — somadas, segundo levantamento da Pollstar2. Motivo de honra para as swifters do mundo e uma demonstração inegável de poder de uma das grandes artistas da atual geração. Mas, ainda que maior que os exemplos anteriores, este ainda não atinge a maioria de nós.

Agora vamos ao definitivo: qual recorde que atinge absolutamente toda a humanidade e tem sérias implicações em todas as facetas da vida foi quebrado em 2023? Abre aspas para a Reuters em 9 de janeiro de 2024:

Ano passado foi o mais quente da história do planeta por uma margem substancial e provavelmente o ano mais quente dos últimos 100 mil anos, afirmou o European Union’s Copernicus Climate Change Service (C3S). Cientistas amplamente esperavam essa marca, após recordes climáticos serem quebrados em sequência. Desde junho de 2023, todo mês se tornou o mais quente da história na comparação com o mês correspondente dos anos anteriores.

Vamos colocar em contexto quando o C3S fala que provavelmente 2023 foi o ano mais quente dos últimos 100 mil anos. O que era a Terra há 100 mil anos? Ainda que o Homo sapiens tenha surgido há 300 mil anos, a antropologia considera que o comportamento humano moderno, algo que a Lu Gimenez arqueóloga chamaria de “behavioral modernity”, surgiu entre 150 mil e 75 mil anos atrás, ou seja, ainda que com o hardware final, o software que faz o ser humano ser o ser humano3, como normais sociais, o desenvolvimento da língua e a cooperação, só se desenvolveu em sua forma definitiva por ali. Desde que somos o que somos o planeta nunca foi tão quente.

É esta a segunda acepção de tempo sobre a qual falaremos hoje: como clima, a interação entre variáveis meteorológicas durante um certo período de tempo4. É bem verdade que a Terra já passou por outros movimentos de aquecimento abrupto — há mais de 252 milhões de anos, antes dos dinossauros, uma série de erupções na Sibéria produziram tanto calor que 96% das espécies marinhas morreram. Foi o maior evento de extinção da história da Terra e suas causas foram naturais. A que estamos passando agora, porém, não tem nada de natural: já existe há décadas um consenso da ciência de que o aquecimento é provocado pela nossa ação 5.

Conforme o tempo (na primeira acepção) avança, a gente coloca em perspectiva a vida para entender o que importa e o que é perfumaria. São poucos os assuntos mais importantes para a minha geração e as posteriores que a segunda acepção de tempo. A sexta temporada do Tecnocracia começa com o tenebroso caminho que estamos tomando com as mudanças climáticas e como 2023, com seus recordes climáticos, foi uma espécie de cartão de visitas. Não existe uma viva alma no planeta que passará incólume pelo que virá. Já passou da hora de prestar atenção a sério e entender o que causa, o que dá para fazer, o que é pura ilusão e como se preparar. Não há gadget ou serviço online mais relevante do que o clima do planeta.

Na sexta temporada, o Tecnocracia terá 12 episódios. Este é o primeiro. Eu sou o Guilherme Felitti e o Tecnocracia está na campanha de financiamento coletivo do Manual do Usuário. Se quiser apoiar, manualdousuario.net/apoie.

Se a gente vai se preocupar sobre o tema, a gente precisa saber discuti-lo além das obviedades. Vamos, então, conversar sobre alguns pontos fundamentais das mudanças climáticas que vão além da tartaruga com canudo no nariz.

O estudo do C3S que apontou 2023 como o ano mais quente em muito tempo pode ser resumido em um número, aparentemente pequeno: 1,48. A temperatura do planeta Terra em 2023 foi 1,48º C mais quente que a média registrada no período pré-industrial, entre 1850 e 1900. Por que estou sendo preciso nos 1,48º C? Você já ouviu falar do Acordo de Paris, né? Em 2015, delegações de 195 países se reuniram em Paris para debater na COP-21 o que a humanidade poderia fazer para frear a emissão de gases e, consequentemente, o aumento da temperatura. No texto final do chamado Acordo de Paris, os países chegaram ao consenso de que fariam esforços para restringir o aumento da temperatura do planeta em apenas 1,5ºC.

Ou seja: estamos a 0,02º C de ultrapassar este limite menos de uma década depois dele ser definido. Depois de um 2023 mais quente que qualquer outro ano do registro histórico, não há qualquer indício de que a tendência seja desacelerar. Nas palavras do C3S:

Uma previsão recente para o ano (de 2024) sugere que ele pode ser ainda mais quente que 2023, com uma probabilidade considerável de que o ano-calendário terminará com uma temperatura média acima do 1,5°C acima do nível pré-industrial, de acordo com múltiplos bancos de dados.

Não precisa nem esperar o próximo relatório do C3S. Abre aspas para reportagem do jornal Folha de S.Paulo de fevereiro de 2024:

Medições feitas com base na estrutura de esponjas marinhas centenárias sugerem que a Terra já pode ter esquentado 1,7°C em relação à temperatura média anterior à era dos combustíveis fósseis. Os dados acabam de sair em artigo na revista especializada Nature Climate Change. “É como se tivéssemos adiantado o relógio da mudança climática em cerca de uma década”, resumiu um dos coordenadores do estudo, Malcolm McCulloch, do Instituto dos Oceanos da Universidade do Oeste da Austrália, em entrevista coletiva online.

Tem muita palavra? Eu resumo em uma: fodeu.

Vamos dar vários passos para trás e entender a base fundamental do problema: o carbono. Quer dizer, não é bem o carbono. O carbono sempre existiu na Terra desde sua formação, há coisa de 4,6 bilhões de anos. O carbono, símbolo C e número atômico 6 na tabela periódica, é um dos elementos químicos mais importantes do Universo — em volume de massa, só fica atrás do hidrogênio, do hélio e do oxigênio. Não só em estrelas: o carbono é o segundo elemento químico mais abundante nesse veículo de carne que você chama de corpo — quase 20% de você é carbono. O carbono está em você, no grafite, no diamante, nas roupas de algodão, em fertilizantes, em cosméticos e também está “preso” em material orgânico morto — animais ou plantas — sob alta pressão e temperatura por milhões de anos.

Quando você tira carbono do solo e aplica altas temperaturas nesse material, o que a humanidade chama de combustível, libera esse carbono “preso” na forma de um gás chamado dióxido de carbono, fórmula CO2 para quem amava química no colégio. O dióxido de carbono sai de chaminés industriais, incêndios florestais, do escapamento do seu carro, é produzido pela fabricação de cimento e acaba absorvido pelo meio ambiente. Uma quantidade enorme dele vai parar na atmosfera e fica lá de boa, sem se dissipar. Não seria um problema enorme se o planeta Terra não recebesse constantemente uma carga de energia de uma estrela sobre a qual você já ouviu falar sobre chamada Sol. A cada segundo, o Sol manda 694 Terajoules6 de energia para nós, o equivalente a dez bombas atômicas que o Cillian Murphy demorou 3 horas para fazer no filme do Christopher Nolan. A Terra absorve uma parte dessa energia e isso é uma notícia ótima — se não absorvesse, a temperatura média do planeta seria de -18º C. Como absorve, a temperatura fica numa média de 15º C. Cerca de 30% dessa energia é rebatida pela Terra de volta ao universo.

É aí que entra o carbono: quanto mais dióxido de carbono na atmosfera terrestre, mais difícil essa energia rebatida sair da atmosfera. O que era uma energia destinada aos cafundós da Via Láctea fica por aqui, esquentando o planeta. Não à toa, chama-se efeito estufa — tal qual uma estufa de plantas, o calor não consegue sair.

O dióxido de carbono é o principal, mas não é o único. Outro gás que captura essa energia solar rebatida pela Terra é o metano.

O metano fica na atmosfera por até 12 anos, em comparação aos 10 mil anos de vida do dióxido de carbono. Boa notícia, mas a molécula do metano absorve muito mais calor que a do CO2. Péssima notícia. A ciência tem formas de medir a evolução na quantidade de metano e CO2 na nossa atmosfera. Enquanto eu gravo isto, em fevereiro de 2024, há 425 partes por milhão (ppm) de dióxido de carbono na atmosfera terrestre. Na década de 1960, eram 316 — todos os dados são da National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), o órgão do governo norte-americano que mensura fatores relacionados ao clima. Usando amostras de gelo dos pólos, cientistas concluíram que nos últimos 800 mil anos, o CO2 nunca tinha passado da faixa dos 300 ppm. Vale o mesmo raciocínio para o metano: lá no ano 1.020, eram menos de 700 partículas por bilhão (ppb). O número se mantém mais ou menos o mesmo até 1.800, quando começa a crescer. Em 1.924, passa dos mil. Em 1.978, passa dos 1,5 mil. Hoje, está chegando a 2 mil.

Essa aceleração começa, sem surpresa, logo após a Revolução Industrial, 1760. Sabendo que a revolução durou entre 60 e 80 anos, estamos então falando do começo do século XIX. É ali que se começa a queimar combustível fóssil como forma de suprir a energia necessária para a mecanização da economia — começa com o carvão, que alimenta máquinas a vapor em fábricas, locomotivas a vapor e navios, e segue para petróleo e gás natural, usados até hoje. Quanto mais a industrialização avançava em setores da economia e pelo mundo, mais dióxido de carbono a queima de combustíveis fósseis despejava no meio ambiente.

Esse aumento enorme a partir do século XIX fica muito claro no gráfico criado pelo Our World in Data do volume de emissões anual por região do mundo de acordo com o Global Carbon Budget. Em 1800, eram 33 milhões de toneladas de CO2 despejadas no meio ambiente, majoritariamente na Europa. Um século depois, em 1900, já eram mais de 2 bilhões de toneladas. Depois do fim da Segunda Guerra Mundial, o número cresce em um ritmo ainda mais forte: em 1950, já são quase 6 bilhões. Em 1963, passa de 10 bilhões. Em 1984 (ou seja, 21 anos depois), passa de 20 bilhões. Em 2006 (ou seja, 22 anos depois), passa de 30. Em 2022, foram 37 bilhões de toneladas de CO2. Se a gente considerar outros gases que prendem calor na atmosfera, incluindo o metano e o óxido nitroso, esse volume já está em 51 bilhões de toneladas por ano.

Gráfico de emissões anuais de CO₂ por regiões do mundo.
Gráfico: Our World in Data/Reprodução.

O que chama atenção no gráfico é como, depois de 1950, a linha cresce quase verticalmente, com enorme contribuição de China, EUA e o resto da Ásia. África e América do Sul aparecem na rabeira.

Para terminar a apresentação do problema, vamos fazer um exercício em grupo. Eu vou te fazer uma pergunta, te dar alguns segundos para você pensar e você responde, ok? De todas as atividades humanas, qual é a que, no agregado, mais despeja CO2 no meio ambiente?

Pode pensar.

Segundo uma teoria bem popular, o maior vilão do efeito estufa é o transporte, as emissões de carros, caminhões, navios e afins. No mundo real, transporte não é a primeira, nem a segunda e nem a terceira categoria que mais despeja carbono na atmosfera. A líder é a produção de itens, principalmente cimento, ferro e plástico, com 31% do volume anual. Em segundo, vem a produção de energia, com 27%. Em terceiro estão atividades ligadas à produção de comida, principalmente plantas e animais, com 19%. Transporte vem só em quarto, com 16%, seguido por aplicações que mantêm a temperatura da sua casa ou do seu escritório constante, com 7%. Daqui a pouco eu falo de onde vêm esses números.

Recapitulando: produção industrial, geração de energia, animais e plantas para alimentação, transporte e calefação. Guarda esse ranking para a parte das soluções, ok?

Com esse aumento de 1,5º C praticamente nos livros, que consequências a gente pode esperar? A notícia péssima é que muita coisa a gente sabe, mas ainda mais a gente não tem a menor ideia. Comecemos com o que a gente sabe. A Terra fica, obviamente, mais quente. “Ah, Guilherme, mas 1,5º C a mais é de boa.” Em São Paulo, a cidade com as quatro estações em um dia, se a amplitude da temperatura ficasse em 1,5º C estava todo mundo feliz. Se está 26º C e cai para 24,5º C ou sobe para 27,5º C, você provavelmente nem vai sentir. O problema é que não se mede a temperatura do planeta da forma como a gente olha no celular para ver se é bom pegar uma blusinha antes de sair de casa. A medição da Terra é feita a partir da média de todas as temperaturas do planeta.

Abre aspas para o livro que melhor conectou todas essas questões das mudanças climáticas:

Em termos climáticos, uma mudança de apenas alguns graus é um grande negócio. Durante a última era glacial, a temperatura média do planeta era apenas 6º C mais baixa do que é hoje. Durante a era dos dinossauros, quando a temperatura média era 4º C mais elevada do que hoje, havia crocodilos que viviam acima do Círculo Polar Ártico.

Este é um dos muitos trechos que você vai ouvir neste episódio tirados de Como evitar um desastre climático, escrito pelo Bill Gates. O ranking de produção de carbono anual eu tirei dali. Eu sei que tem gente excelente na bolha ambientalista que torce o nariz para um bilionário de fora do setor dando pitacos, mas o Gates, certamente com a ajuda dos melhores ghost writers e consultores do mundo, escreveu um livro que amarra muito bem e explica de forma bastante mastigada todos os pontos principais das mudanças climáticas. Até gente que acha que entende do metiê deve aprender alguma coisa no livro — eu mesmo percebi o quão pouco eu sabia de um assunto que eu achava que sabia. Este episódio foi feito baseado em duas leituras que eu recomendo fortemente: o livro do Gates e o relatório que o Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) lançou em março de 2023 sobre o estado das mudanças climáticas no mundo. O IPCC pinta um cenário terrível, combustível para pesadelos, já que o assunto é energia.

Close em Bill Gates de óculos com uma tela refletida nas lentes.
Foto: Netflix/Divulgação.

“Cada aumento de um décimo de grau representa combustível termodinâmico extra que intensifica ondas de calor e tempestades e acelera tanto a subida dos oceanos como o derretimento de geleiras e mantos de gelo”, diz reportagem do jornal New York Times sobre o recorde de 2023.

Foi tudo isso que vimos no ano passado. O Canadá teve sua temporada de incêndios mais destrutiva na história, com mais de 18,5 milhões de hectares queimados. O valor é seis vezes maior que a média da última década. A temperatura do oceano foi a mais alta da história, segundo a NOAA. A cobertura de gelo nos pólos também sofreu: na Antártica, foi a pior da história e, no Ártico, a sexta pior, segundo o Climate Change Service, ligado à União Europeia.

A China teve um ciclo recorde de chuvas, o maior desde 1891. Cidades ao redor do mundo atingiram recordes históricos de temperatura: Toulouse, na França, com 42º C; Algiers, na Algéria, com 49º C, Agadir no Marrocos com 50º C, Phoenix nos EUA com recorde histórico de 31 dias seguidos com temperatura acima de 43º C, Rio de Janeiro com uma sensação térmica histórica de — atenção — 59,7º C. O ritmo de subida do oceano foi de 1,4 milímetro por ano entre 1901–1990 para 2,1 milímetros por ano entre 1970–2015 para 3,2 milímetros por ano entre 1993–2015 para 3.6 milímetros por ano entre 2006–20157. Abre aspas para o relatório: “O oceano deverá subir entre 0,43 m e 0,84 m até 2100 relativo ao período entre 1986–2005.” Em 2100, o oceano deverá subir 15 milímetros por ano, quatro vezes mais que o ritmo atual.

Quatro mapas do Brasil mostrando registros climáticos de 2013–2023.
Gráficos: Fernando Barbalho.

No Brasil, nota-se o aumento no número de desastres naturais que são notificados pela Defesa Civil entre 2013 e 2023, principalmente estiagens e chuvas intensas. O gráfico, gentilmente compartilhado pelo cientista de dados no Governo Federal Fernando Barbalho, deixa clara a tendência, principalmente no Norte e Nordeste.

No geral, a temperatura recorde do planeta torna cataclismas climáticos, como furacões, secas e incêndios, mais frequentes e extremos, explica o IPCC. Mas o grande problema deste debate é que o clima é um sistema complexo. É difícil cravar as consequências de sistemas complexos quando mudam alguns dos fatores que o compõem. Tem muita coisa que dá para imaginar, mas o que apavora cientistas é: 1) o que está no nosso ponto cego; e 2) não dá para ser otimista.

Quem vai ser atingido por essas consequências? Todo mundo, mas principalmente os pobres.
Um exemplo prático bastante ilustrativo que Andrew Dessler, cientista climático da Universidade Texas A&M, escreveu na newsletter The Climate Brink:

Minha esposa me contou sobre um novo grupo de membros em sua academia: pessoas ativas de 70 anos que costumavam fazer caminhadas pela vizinhança. Porém, devido ao calor insuportável no Texas, eles ingressaram em uma academia e agora andam em esteiras em ambientes fechados. Esta história incorpora vários aspectos dos impactos climáticos que todos deveriam compreender.

Primeiro, este é um exemplo de impactos climáticos não lineares. Embora as temperaturas tenham aumentado gradualmente ao longo do último século, só recentemente é que ultrapassaram um limiar crítico que tornou os passeios ao ar livre literalmente insuportáveis para estas pessoas.

Em segundo lugar, é assim que se parece a adaptação às alterações climáticas. Ao contrário do que normalmente é retratado pelos que desprezam o clima, a adaptação não é gratuita. Essas pessoas estão pagando US$ 50 por mês pela academia, o que é um substituto inferior para algo que costumavam receber de graça: um ambiente fresco o suficiente para entrar.

Portanto, essas pessoas estão em pior situação financeira e não estão tendo uma experiência tão boa como antes. E eles são os sortudos – eles têm a oportunidade e os recursos para fazer isso. Há também os custos não monetários da adaptação. Quando está muito quente para sair durante o dia, você fica prisioneiro do ar condicionado em vez de sair para tomar ar fresco e fazer exercícios. Perdemos algo valioso, mas difícil de quantificar.

Como o Kottke, um dos blogs mais antigos e interessantes, bem resumiu: “Climate Change Is Death by a Thousand Cuts” — as mudanças climáticas te matam com milhares de cortes, em tradução livre.

Quem fez a conta do impacto tão maior nos pobres foi o próprio IPCC, citado em artigo da revista piauí:

Na última década, o número de mortes causadas por secas, enchentes e tempestades nas periferias de cidades do mundo todo foi quinze vezes maior do que em regiões dotadas de infraestrutura. Quinze vezes mais mortes.

É por isso que você deve se preocupar. Ainda que você não acredite que é a ação humana que está acelerando o processo de aquecimento 8, não fazer nada significa sucumbir aos seus efeitos, um determinismo dos mais estúpidos. É o planeta onde você vive. Onde seus filhos vivem ou viverão. Onde seus netos, bisnetos e afins viverão. Onde a humanidade, uma parte pequena dela ligada a você, carregando seus genes, vai viver. Mas ainda que você seja o maior misantropo do planeta, odeie tudo que não seja si mesmo e goste tanto de carvão que carrega um no meio do peito, tem ainda outra razão: dinheiro. Os impactos climáticos são muito caros. Estudo conduzido pelos professores Ilan Noy e Rebecca Newman, da Victoria University em Wellington, na Nova Zelândia, calculou que os efeitos dos eventos climáticos mais extremos causados pelo aquecimento global custam US$ 16 milhões por hora. De 2000 a 2019, a economia global teve que desembolsar US$ 2,8 trilhões. A projeção para o futuro é que o custo, tal qual as temperaturas, seja ainda maior.

Já definimos bem o problema, suas causas e consequências. A solução é óbvia: é preciso descarbonizar urgentemente a economia global. Aquelas 37 bilhões de toneladas anuais de CO2 (ou 51 bilhões totais) precisam cair até um número — bem próximo do zero — que o meio ambiente consiga neutralizar sozinho. No ínterim, a economia global precisa continuar operando. No papel é muito simples. No mundo real, as dificuldades para descarbonizar passam por alguns fatores. Eu selecionei três dos principais: o custo de transição, a cegueira deliberada de quem dá ordem e, principalmente, a montanha de dinheiro que se fatura com combustíveis fósseis.

Comecemos pelo custo de transição. No seu livro, o Gates dá um exemplo muito cristalino usando o combustível fóssil mais popular: “Gasolina contém uma quantidade impressionante de energia — seria necessário juntar 130 bananas de dinamite para equiparar a mesma energia que um galão de gasolina tem.”9 Gasolina também é bastante barata e a infra-estrutura já está pronta, seja pela frota de milhões de carros que recebem como os milhões de postos pelo mundo que vendem. Ou seja: para substituir a gasolina nos carros, tem que ter um combustível tão barato e potente quanto e incentivar a migração de uma infraestrutura gigantesca já pronta. A grana e a inércia jogam a favor do aquecimento.

O segundo ponto é a cegueira deliberada de quem faz as leis. Em uma época de polarização radical, nada unifica tanto os pólos quanto uma visão da economia baseada no carbono. No geral, a extrema-direita se nega até a admitir as mudanças climáticas — Donald Trump enaltecia o carvão e Jair Bolsonaro desautorizou operações contra e incentivou garimpo e desmatamento ilegais na Amazônia. Um dos principais baluartes da extrema-direita no Brasil “argumenta”12 que eventos como a COP são inefetivos já que o Sol não foi convidado. Juro por Deus. Não que a esquerda seja tãããão melhor assim: o atual presidente da Petrobras, Jean Paul Prates, afirmou ao tomar posse do cargo que a estatal seria a última do mundo a parar de explorar petróleo e teve a cara de pau de reafirmar durante a COP28. É só lembrar que a esdrúxula ideia de explorar petróleo na foz do Rio Amazonas, apoiada pelo presidente Lula, foi discutida com seriedade.

O terceiro ponto é que já existe uma indústria gigantesca estabelecida que está gastando sua montanha de dinheiro para frear o máximo possível essa mudança. Antes da ascensão da Big Tech, quem eram as empresas mais valiosas do mundo? Financeiras e empresas de energia. Combustível dá muito dinheiro até hoje. E mesmo que soe contraintuitivo após tudo que você ouviu aqui, o consumo de combustível fóssil está acelerando quando deveria estar encolhendo. Abre aspas para a Reuters em janeiro de 2023:

As principais empresas de energia do Ocidente deverão registrar um lucro recorde combinado de US$ 200 bilhões no ano turbulento de 2022, marcado por uma enorme volatilidade nos preços do petróleo e do gás após a invasão da Ucrânia pela Rússia, com lucros dinâmicos que provavelmente se prolongarão até 2023.

O lucro monstruoso diminuiu o endividamento para o menor nível em 15 anos. Segundo o relatório ​​World Energy Investment 2023, publicado pela International Energy Agency (IEA), o lucro da indústria global de óleo e gás atingiu um valor recorde de — atenção — US$ 4 trilhões em 2022. Se fosse um país, o setor teria o quarto maior PIB do mundo, empatado com a Alemanha.

É assustador. No momento em que a temperatura do planeta sobe em velocidade recorde, a Big Oil está passando por uma nova era de ouro. Em 2024, a Shell anunciou que pagaria 4% a mais aos acionistas após registrar lucro de US$ 28 bilhões em 2023, melhor que o esperado pelo mercado. Caiu em comparação a 2022, quando o lucro chegou a US$ 40 bilhões, mas ainda é uma montanha de dinheiro. Onde usar tanta grana? Uma parte vai para financiar o lobby que se infiltra em administrações municipais nos EUA, quebra o recorde de gastos na Califórnia em 2023 e financia mais de 1,3 mil lobistas durante a COP28. Enquanto o planeta bate recorde de temperatura, a Big Oil bate recorde em lobistas e lucro. O objetivo é continuar a queimar combustível e jogar carbono na atmosfera.

Vamos amarrar tudo. A descarbonização tão urgente está acontecendo. As emissões dos EUA em 2023, por exemplo, foram quase 2% menores que no ano anterior, segundo estimativa da consultoria do setor Rhodium Group. A geração de energia usando carvão está caindo, enquanto as renováveis, como solar e eólico, seguem crescendo. O problema é que a velocidade ainda não é suficiente, o que nos leva às acepções iniciais de tempo. A humanidade não está mudando a tempo suficiente para mudar definitivamente o tempo. E vamos deixar claro: essa não é uma discussão só sobre tecnologia. Tem espaço para tecnologia, lógico. Mas só achar que um deus Ex-machina vai aparecer é um delírio. É preciso regulamentação. É tipo esperar ter um abdômen definido comendo Doritos com cheddar no sofá já que aqueles cacarecos que dão choques na barriga vão resolver.

A chamada captura (ou sequestro) de carbono, que extrai CO2 da atmosfera, é excelente no papel, mas ainda proibitivamente cara e pouco efetiva na prática. Eu não vou nem me aprofundar muito em créditos de carbono, a estratégia que o mercado criou para continuar poluindo, mas com a consciência limpa. O caminho aqui é só um: diminuir as emissões. Regulamentação forte. As tecnologias podem melhorar, lógico, mas muitas de enorme impacto já estão disponíveis. Esse é um debate sobre política. Sobre ideologia. Melhor: é um debate sobre incompetência. James Hansen é um ex-cientista da NASA que depôs para o Senado norte-americano em 1988 alertando sobre os perigos do excesso de carbono no meio ambiente. Atualmente, ele é diretor do Earth Institute, dentro da Universidade de Columbia. Abre aspas para frase do Hansen para o Guardian:

Quando nossos filhos e netos olharem para trás na história das mudanças climáticas provocadas por humanos, 2023 e 2024 serão vistos como um ponto de virada nos quais a incapacidade de governos lidarem com mudanças climáticas foi finalmente exposta. Não apenas os governos falharam em resolver o aquecimento global, o ritmo na verdade acelerou.

A meta do Acordo de Paris previa emissões zero entre 2030 e 2050 — no melhor dos cenários, são mais seis anos de emissões crescentes, temperaturas maiores e desastres climáticos mais severos. Dava para terminar falando que, quando governos e empresas entenderem o tamanho do problema, vai ser tarde demais. Mas a frase esconde uma verdade ainda pior: já é tarde demais. Agora a gente está vendo o quanto as gerações dos nossos filhos e netos — fora a nossa — vão se foder.

Esquece Twitter, metaverso, smartphone, até inteligência artificial. Se tem um tema prioritário para você gastar seus neurônios, é este. É o tema no qual eu tenho gasto os meus. Um cálculo da Bloomberg NEF estimou que serão necessários US$ 200 trilhões para zerar as emissões até 2050. É barato quando a gente considera que a alternativa é a morte.

O Tecnocracia vai voltar ao tema no decorrer do ano.

A gente volta mês que vem.

Foto do topo: Joédson Alves/Agência Brasil.


  1. Como a temporada começa em um ano e termina em outro, a NBA sempre as conta com os dois anos.
  2. Como eu gosto demais de paz na minha vida, me absterei de opinar sobre o tema.
  3. Meu sósia Arnaldo Antunes ficaria muito orgulhoso desta frase.
  4. Uma bela definição da Wikipédia.
  5. O Tecnocracia e o Manual do Usuário partem do pressuposto que qualquer discussão saudável parte sempre de um mínimo, de uma base. Neste assunto, a base é a conclusão da ciência de que este aquecimento é responsabilidade humana. Já que um dos temas do episódio é tempo, ninguém o tem de sobra para entreter delírios negacionistas. Porta da rua, serventia da casa, como diria minha avó.
  6. Em joules, isso significa 6,94 seguido por 14 zeros.
  7. Sim, existe um overlap (oi, Lu) nas medições.
  8. E se você não acredita, você é incapaz de olhar a realidade.
  9. Nos EUA, vende-se combustível por galão. Um galão dá 3,7 litros.
  10. Várias aspas, por favor.

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