789 | Fabiano Calixto — Matinê Perdida | Poesia Contemporânea

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Fabiano Calixto é um poeta, tradutor e editor brasileiro. Doutor em Letras (Teoria Literária e Literatura Comparada) pela Universidade de São Paulo (USP), Calixto participa de vários projetos relacionados ao campo da literatura e poesia. Dirige, com Natália Agra, a editora Corsário-Satã. É um dos editores da revista de poesia Meteöro.. Foi coeditor, com os poetas Ricardo Domeneck, Angélica Freitas e Marília Garcia, da revista Modo de Usar & Co.

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Fabiano Calixto — Matinê Perdida

foi tudo tão passageiro
como passos de pássaros no telhado
como um f mal desenhado
no caderno de caligrafia
da terceira série

você com seu vestido vermelho
hálito de drops de menta
perfumando tantas dúvidas
e um sorrisinho modernista de nascença
como um contrabando
uma contradança

eu, com meu tênis velho
camiseta desbotada do AC/DC
dois ou três carinhos de colibri
um minuto de silêncio por minuto no peito
uma lua cheia
na carteira vazia

foi tudo tão passageiro
aquela canção do Frank Valli
a soda com limão e gelo
o bolo de brigadeiro
a festa junina no nosso quarteirão
os amigos que já não estão mais
nem aí
nem aqui
o copo cheio de tônica e gim
a coleção de gibi

foi tudo muito passageiro
mesmo com cinquenta fichas
a ligação sempre caía
e chorávamos escondidos
cheios de dor e uísque
sob a concha do orelhão
e nossa oração
dois mil enigmas
nos lábios de amianto
de uma esfinge

a matinê perdida
domingo tecnicolor
deitando sol em nossos sonhos
(o velho domingo e sua gravata florida
agora, apenas uma breve brisa,
uma ferida
mertiolatada)

na pista esperávamos as lentinhas
para poder alimentar o amor
que morava na gente
como um cão sob a marquise
mora no rosto da chuva

o primeiro beijo veio a navio
o coração disparado
o calor suando frio

foi bonito, foi tudo muito bonito
(na verdade, foi bonito pra caralho)
e passageiro
como Sessão da Tarde e pipocas
bolinhos de chuva e catapora
como os sapos que a tempestade traz
para ninar o nosso naufrágio

tudo muito passageiro, sim
mas nunca frágil
continuamos lendo
nossa saudade em cada lenda
e fomos cada qual por sua trilha
nós todos, tombados pelo patrimônio histórico
das coisas do coração

hoje
vemos a areia da vida surfar no abismo
de uma ampulheta
que vai daqui
até as estrelas

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Poema: Matinê Perdida
Poeta: Fabiano Calixto
Voz: Jéssica Iancoski
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