Daniel Kupermann: O criminoso é o herói às avessas

 
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Por que grandes crimes despertam tanto interesse e se tornam espetáculos midiáticos? O psicanalista explica e comenta o caso Lázaro Barbosa Com a morte de Lázaro Barbosa nesta última segunda-feira, dia 28, acabou não só a caçada ao assassino que teria matado violentamente cinco pessoas de uma mesma família no Distrito Federal, mas veio ao fim também mais uma novela macabra à qual o Brasil se vê sugado sempre que um delito fora do comum ocupa o noticiário. Os casos Isabella Nardoni, Eliza Samudio e Suzane von Richthofen são apenas alguns exemplos. "O grande criminoso é aquele que faz o que, de alguma forma, no nosso íntimo, a gente também deseja fazer, ou seja, agir sem ligar para a lei, para ninguém. No fundo ele é um grande egoísta", analisa Daniel Kupermann, doutor em Teoria Psicanalítica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Consultor da série sucesso do GNT, "Sessão de Terapia", Kupermann ajuda não só a desmistificar algumas questões que foram levantadas durante a megaoperação policial, como comenta alguns supostos distúrbios de personalidade de outro personagem muito discutido também por suas características peculiares de caráter: o presidente da nação. "Bolsonaro faz parte de um grupo que não tem empatia para qualquer um que seja diferente", diz. Em entrevista ao Trip FM, o psicanalista fala ainda sobre a importância do humor, brinca com a psique do paulistano e explica os fundamentos deixados por Freud. Ouça o programa no Spotify ou leia um trecho da entrevista a seguir. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2021/07/60df5d905ed31/daniel-kuperman-psicanalista-trip-mh.jpg; CREDITS=; LEGEND="O grande criminoso é aquele que faz o que, de alguma forma, no nosso íntimo, a gente também deseja fazer, ou seja, agir sem ligar para a lei, para ninguém. No fundo ele é um grande egoísta", diz o psicanalista Daniel Kupermann; ALT_TEXT=Daniel Kupermann] Trip. Eu queria que você nos ajudasse a observar o fenômeno desse serial killer brasileiro, o Lázaro. Existe uma série de aspectos a serem vistos: desde a compulsão por matar até a forma maluca como a sociedade acompanhou isso. Queria que você me desse as suas impressões. Daniel Kupermann. O que me interessa é situar o interesse midiático e das pessoas por esse fato. Freud abordou a questão do grande criminoso. Neste caso, ele é alguém que matou muita gente e com frieza, que sabe se esconder, o criminoso mais procurado do Brasil até a sua morte, no começo da semana. Freud compara o grande criminoso a um ser inacessível, como um criança, os felinos ou as belas mulheres, por exemplo. Tem algo de inacessível aí. O grande criminoso nos fascina, Hollywood explorou muito essa figura. Lembra de "Silêncio dos Inocentes"? O grande criminoso é aquele que faz o que, de alguma forma, no nosso íntimo, a gente também deseja fazer, ou seja, agir sem ligar para a lei, para ninguém. No fundo ele é um grande egoísta. Dá para fazer uma ponte com esse momento, com a pandemia. Ela aumenta esse sentimento de desamparo; é diferente quando a morte está na esquina. É um momento de muita vulnerabilidade. As pessoas estão com medo. Aí de repente aparece uma figura que não tem medo de nada, uma figura de grande poder. Muitas vezes o congestionamento em São Paulo é causado por pessoas olhando para a desgraça do acidente. Me parece que esse reality show do Lázaro tem a ver com essa nossa vontade de ver um corpo estendido no asfalto. Existe um nome para isso, em alemão, Schadenfreude, a alegria com a desgraça alheia. É um fenômeno típico humano, é uma alegria velada que existe e está ligada ao fato de que aconteceu com o outro e não conosco. Ela tem uma dimensão de reasseguramento. O caso do serial killer eu pensaria que ocupa um lugar do herói às avessas. Tem algo do grande criminoso que caminha nessa direção até o momento em que ele é morto, aí sim entra esse aspecto do Schadenfreude: quantos tiros levou, onde estão as fotos... Vamos mudar o campo, mas falar ainda sobre pessoas que têm um comportamento difícil de entender. A Marta Suplicy, que é formada em psicologia, fez um comentário interessante em que tentou diagnosticar quais seriam as patologias do presidente Jair Bolsonaro. Como você lê a pessoa que ocupa a presidência nesse momento? A primeira leitura, não tanto de um psicanalista, é de que ele está no lugar errado. Uma pessoa de poder precisa ter um mínimo de decoro e postura, de respeito, pedagogia, uma vez que ele é um exemplo. Demora para você reverter o mau exemplo – quatro anos de mau exemplo. A empatia é um termo que voltou à moda, que a gente usa na psicanálise. É difícil dizer que o presidente não tem empatia porque existe um grupo de pessoas que o apoia. Ele provavelmente tem empatia com esse grupo, mas esse grupo é muito segregador, com muito pouca empatia para qualquer coisa que seja diferente. Essa é uma característica dele, de alguém avesso a toda e qualquer diferença: homossexuais, negros, nordestinos. Em todo comportamento segregador você encontra traços narcisistas muito acentuados. O que eu acho muito ruim, com linhas de perversão, é dizer uma coisa e fazer outra: você fala nas redes contra vacinação e para o público maior diz que está procurando vacinas, por exemplo. Existe uma tentativa de se desresponsabilizar daquilo que acontece com o povo brasileiro. O discurso negacionista contra a ciência é uma maneira de se desresponsabilizar.

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